COLUNA

Observatório da Branquitude

Esperando o quê?

Talvez uma das tarefas mais importantes de uma educação antirracista seja justamente retirar das crianças brancas esse conforto que só elas têm

20 de Agosto de 2026

É comum que famílias brancas esperem para conversar com os filhos sobre racismo. Você que é pai ou mãe, já chegou a pensar que era cedo demais? Enquanto uma boa oportunidade não vem, é bom que você saiba que, no Brasil, só espera o assunto chegar quem pode. Pais e mães de crianças negras têm prazos bem menos generosos porque o racismo, em geral, não precisa se mover para encontrá-los.

Comecei a pensar muito nisso depois de uma interação absolutamente inofensiva. Uma vez, depois de um evento sobre ameaças à democracia, conversava com uma conhecida, uma mulher branca. Saímos dali pensativas com o tema do encontro, mas, como às vezes acontece entre mães, a conversa foi parar nas nossas filhas.

Falamos sobre as maravilhas e os desafios de acompanhar meninas de quatro anos – a dela e a minha – descobrindo o mundo, experimentando limites, construindo suas primeiras amizades. O papo passou pela escola e, em algum momento, contei sobre como o colégio da minha filha vinha levando questões de racismo. Me declarei otimista com os sinais de abertura para o diálogo e o direcionamento progressista, mas pessimista diante da celebração de avanços pífios e da resistênciaquanto a implementação de protocolos de denúncia.

Falei ainda sobre como apresento essas questões em casa para uma menina negra. Ela ouviu com atenção. E, somente neste momento, não entrou muito na conversa. Até que perguntei:

— E você? Como traz essas questões para a sua filha?

Ela me respondeu, com a tranquilidade das pessoas que se sabem razoáveis:

— Eu não trago. Estou esperando ela trazer questões para mim.

De repente, fomos interrompidas por uma terceira conhecida e a conversa se desfez. Mas aquela frase ficou comigo. Imaginei se era assim também para escovar os dentes, dividir os brinquedos ou aprender a nadar, ou se, especificamente naquele assunto, ela confiava mais no acaso.

Esperando? Mas esperando o quê? É uma pergunta que tenho vontade de fazer a muitas pessoas brancas responsáveis pelo cuidado e pela educação de crianças também brancas. Esperando o quê exatamente? A criança perguntar? Perceber? Talvez, no limite, esperando que ela discrimine? Que gere sofrimento e trauma em famílias negras e interraciais, para só então começar a conversar sobre? Contra o racismo não se joga parado. A favor dele, sim.

Há algo profundamente confortável na ideia de que as questões raciais só precisam ser discutidas quando aparecem. Como se o racismo fosse extraordinário, uma espécie de acidente no caminho de uma infância que, até então, poderia transcorrer sem essa conversa.

Há algo profundamente confortável na ideia de que as questões raciais só precisam ser discutidas quando aparecem

Um estudo publicado pelo Núcleo Ciência Pela Infância, realizado pelos pesquisadores Ueliton Santos Moreira Primo, em parceria com Dalila Xavier de França, investigou justamente como pais e mães de crianças de 5 a 7 anos conversam sobre raça e racismo com seus filhos. Foram 140 participantes e os resultados são bastante eloquentes: 53,3% dos pais de crianças brancas disseram não conversar sobre racismo com seus filhos. Entre pais de crianças pardas, esse percentual foi de 14,2%; entre os de crianças pretas, 8%.

Essa disparidade ganha ainda mais força quando cruzada com um segundo dado que a pesquisa recupera: cerca de 60% das crianças negras já relataram ter sido vítimas de discriminação racial. O estudo não indica a cor de quem discriminou. Mas a conhecida dinâmica do racismo permite imaginar que quando uma pessoa branca discrimina – mesmo sendo ela uma criança -, isso não é apenas um episódio individual, mas uma reatualização de hierarquias repetíveis, justamente por sua longa validade histórica. Ainda assim, as crianças brancas são aquelas cujos pais são os que menos falam sobre o tema em casa.

Essas informações nos levam a outra pergunta: por que justamente entre aqueles para os quais pensar sobre o assunto é mais urgente, há essa sensação meio difusa de que a conversa pode esperar?

Talvez porque, para muitas famílias brancas, raça ainda seja percebida como algo que diz respeito a todo o resto que não elas. Como se falar da questão fosse falar necessariamente da experiência de crianças negras. Como se o racismo chegasse de fora, e não em relações das quais crianças brancas também participam.

Por que justamente entre aqueles para os quais pensar sobre o assunto é mais urgente, há essa sensação meio difusa de que a conversa pode esperar?

Desde muito cedo, as crianças percebem diferenças étnico-raciais. Por volta dos três anos, já conseguem identificar a si mesmas e aos outros a partir da cor da pele. Entre quatro e cinco anos, podem internalizar essas percepções e até reproduzir comportamentos racistas.

Quando um adulto decide esperar a criança “trazer o assunto”, este já foi trazido, só que provavelmente por outras vias, sem controle e sem contexto. As crianças de todas as cores aprendem sobre raça de qualquer forma. Só que para um grupo inteiro da população, esse aprendizado tende a ser traumático.

Crianças aprendem olhando para os livros, para os brinquedos, para os personagens que admira, para quem ocupa posições de autoridade, para quem aparece nas propagandas, para os amigos que são convidados para sua casa, para as pessoas que trabalham na escola, para as conversas que escutam dos adultos.

E o silêncio também ensina. É por isso que a ideia de que “somos todos iguais” pode parecer tão generosa e ser, na prática, um obstáculo para a conversa. A pesquisa do Núcleo Ciência pela Infância identifica justamente essa crença entre as barreiras apontadas pelos próprios cuidadores: acreditar que as crianças são pequenas demais, considerar que falar sobre racismo é desnecessário para crianças brancas ou temer que abordar o tema possa torná-las racistas. No entanto, o silêncio não tem sido capaz de erradicar a discriminação racial.

Talvez uma das tarefas mais importantes de uma educação antirracista seja justamente retirar das crianças brancas esse conforto que só elas têm. E isso começa muito antes de uma delas cometer uma ofensa ou de uma família receber uma denúncia da escola. Começa quando ela pergunta por que aquela pessoa tem aquela cor. Quando escolhe um boneco, quando percebe que um cabelo é diferente do seu, quando repete uma piada… Ou mesmo quando o assunto não aparece.

A espera pressupõe que o racismo vai se anunciar sozinho, de preferência de uma maneira nítida, inequívoca, administrável. Mas ele raramente chega assim, sendo aprendido nos pequenos gestos, no silêncio, e se apresentando como parte da ordem natural.

Por isso, desde aquela conversa, às vezes me pego pensando naquela minha conhecida com a filha. Não como uma mãe que está errando – isso já deve ter muita gente pra pensar como aliás é comum com mães de todas as cores. Penso no que ela me disse porque revela algo maior do que uma escolha individual, mas o quanto um grupo pode escolher esse compasso de espera até o dia que o assunto bata à porta.

Mas a porta já está aberta, está, na verdade, escancarada.

Então, me diga, você está esperando o quê? As férias? A adolescência? O dia em que a escola ligar contando o que ela disse a um colega?

Manuela Thamani é fundadora e diretora executiva do Observatório da Branquitude. Graduada em Adm. de empresas pela FEA-USP, mestra em Comunicação pela ECA-USP. Sua trajetória profissional multifacetada, trafega pelas áreas de comunicação e operações: com repertório em consultoria de tecnologia, veículos e filantropia.

Observatório da Branquitude é uma organização da sociedade civil fundada em 2022 e dedicada a produzir e disseminar conhecimento e incidência estratégica com foco na branquitude, em suas estruturas de poder materiais e simbólicas, alicerces em que as desigualdades raciais se apoiam.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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