Como anda a sua espiritualidade?
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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Por que muita gente está buscando respostas espirituais na IA?

De jogos de tarô digitais a líderes religiosos falsos, vem aumentando o uso da tecnologia para tentar desvendar questões sobre a nossa existência

Leonardo Neiva 30 de Agosto de 2026

Por que muita gente está buscando respostas espirituais na IA?

Leonardo Neiva 30 de Agosto de 2026
Ilustração de Isabela Durão

De jogos de tarô digitais a líderes religiosos falsos, vem aumentando o uso da tecnologia para tentar desvendar questões sobre a nossa existência

Recentemente, a taróloga e escritora paulista Vanessa Mazza, 44, tem percebido uma queda no número de clientes que a procuram para tirar cartas. Embora não tenha como confirmar 100% essa suspeita, ela hoje considera que parte da mudança se deve ao aumento no uso de ferramentas de inteligência artificial até mesmo em uma atividade que envolve autoconhecimento e espiritualidade, como o tarô. “É uma ferramenta que disponibiliza muita coisa gratuitamente, de forma rápida, e o perfil de quem procura uma consulta de tarô geralmente tem essa coisa da ansiedade, de você precisar logo de uma resposta”, afirma a taróloga, que atende online há quase 20 anos.

Além disso, Mazza diz que são poucos os clientes que entendem o propósito real da atividade — e, por isso, muitos acabam recorrendo a uma saída mais rápida, fácil e barata, à distância de alguns cliques. “[O tarô] é um instrumento de autoconhecimento e reflexão, para se aprofundar nos assuntos. Então, você não vai usar para descobrir se o seu namorado está te traindo, mas para entender seu relacionamento, como você está agindo e o que pode fazer”, ela explica.

Uma busca rápida nas redes sociais mostra que muitas pessoas hoje usam a IA não apenas para tirar a sorte no tarô, mas para uma série de outras atividades envolvendo espiritualidade, misticismo, autoconhecimento e religiosidade. Entre os resultados mais comuns, a ferramenta tem servido com frequência como guia espiritual, consultora de astrologia, orixá e até intérprete de búzios.

“Muitas vezes, é mais a curiosidade o que move as pessoas”, acrescenta Mazza. Além das “consultas” individuais, o uso de ferramentas como o chatGPT ou Gemini também cria uma espécie de mercado profissional paralelo dentro dessas áreas, como aponta o astrólogo, escritor e doutor em bioética Alexey Dodsworth.

“Tenho notado no Instagram ofertas de indivíduos que se dizem astrólogos ou tarólogos, mas são desconhecidas nesse meio, que é pequeno”, relata o astrólogo. “Aí a pessoa oferece o serviço por um preço ridiculamente baixo, R$ 50 por uma sessão de astrologia. Só que alguns que passaram por essas consultas constataram que eles não conhecem nada do assunto. Estavam simplesmente jogando as questões no chatGPT.”

Dodsworth afirma que, até o momento, o uso de IA não chegou a impactar seu trabalho — “As mesmas pessoas que me procuravam continuam procurando” —, mas também diz ter sentido uma mudança nos clientes. Alguns clientes lhe disseram ter começado a fazer perguntas de astrologia ao chatGPT e até questionaram o astrólogo a respeito das respostas fornecidas pela IA.

Mas o que se perde quando a gente substitui o fator humano por uma máquina em questões de espiritualidade? Um dos pontos mais problemáticos, na visão do astrólogo, é que a grande maioria das IAs é incapaz de reconhecer sinais menos óbvios de sofrimento psíquico em seu interlocutor. “É muito comum que pessoas que lidam com consultas esotéricas, de astrologia ou tarô, recebam em seus consultórios pessoas com problemas de sofrimento psíquico ou psiquiátricos graves”, conta Dodsworth. Nesses casos, muitos profissionais de carne e osso indicam ao cliente a busca por atendimento especializado. E a IA? “O chatGPT, por outro lado, te estimula a ficar o máximo possível ali. Então, ele vai continuar te perguntando: gostaria que eu falasse mais sobre isso?”

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Máquina de agradar

Perguntado sobre uma rodada digital de tarô, o Gemini logo avisa que não tira cartas reais nem possui intuição mística. No entanto, topa ler as cartas para uma variedade de temas. O resultado inicialmente pode até empolgar, mas, ao menos no caso deste repórter, no fim decepciona. Seja na carreira, vida amorosa ou em algum projeto pessoal, a resposta é basicamente a mesma: mudanças positivas estão a caminho. Alterando um pouco o foco, ao tentar tirar os búzios, desta vez o chatGPT é quem me sugere ficar atento às mudanças que devem trazer um ciclo mais positivo.

Dodsworth, que já fez algumas experiências na área usando diferentes plataformas de IA, diz que os resultados são quase sempre errados. Quando tenta fazer um mapa astral, a máquina “acerta o signo solar, quando muito o ascendente, mas erra várias outras coisas, e erra gravemente”, afirma. Mesmo ao tentar jogar no sistema um mapa feito corretamente, ele conta que a IA oferece interpretações bastante equivocadas.

Ela não vai te mandar a real, não vai ser como um agente humano que te fala exatamente aquilo que viu num mapa astral ou no tarô

Um dos maiores problemas, segundo o astrólogo, é o fato de que a IA busca agradar ao usuário. “Então, ela não vai te mandar a real, não vai ser como um agente humano que te fala exatamente aquilo que viu num mapa astral ou no tarô. Ele sempre vai te dar uma esperança”, afirma. Essa resposta invariavelmente reconfortante, reforça a taróloga Vanessa Mazza, é o principal motivo porque muita gente recorre à IA em meio a uma crise.

Além disso, ela lembra que esses sistemas apenas mesclam informações encontradas em diversos lugares na internet. “Só que tem muita besteira sobre o assunto e, geralmente, os lugares mais acessíveis não são os mais fidedignos”, afirma a taróloga. A IA hoje já vem se tornando um dos principais temas de discussão na categoria. Em 2025, Mazza conta ter participado de um congresso internacional de tarólogos, onde foi debatida a criação de um código de ética da atividade frente ao uso da tecnologia.

O que impulsiona essa busca por respostas espirituais por meio das máquinas, segundo a jornalista e escritora Petria Chaves, não são apenas os males emocionais e o ritmo da vida atual, “mas também uma solidão imensa e uma certa dificuldade de discernir o que é conexão humana”. “Chegamos ao ponto de delegar a uma máquina a autoridade — ou a responsabilidade — de responder sobre questões fundamentais da nossa existência”, aponta a autora dos livros “Escute Teu Silêncio” (Academia, 2023) e “Como Sei o Que Sei: O desenvolvimento da intuição como trilha para nossa inteligência ancestral (IA)” (idem, 2025).

Chegamos ao ponto de delegar a uma máquina a autoridade de responder sobre questões fundamentais da nossa existência

Ela reconhece a importância da IA para conseguir respostas que, de outra forma, demandariam muito mais tempo e esforço. Mas critica o uso da tecnologia em questões que dependem de uma característica intrinsecamente humana: a inteligência intuitiva. “Se quisermos transformá-la em terapeuta, psicanalista ou xamã, a possibilidade de erro será muito grande, porque ela opera com respostas já dadas, com aquilo que já existe.”

A parte que falta

Em alguns casos, a substituição do humano pela máquina é ainda mais literal. Nas redes, já se proliferam há algum tempo gurus e líderes espirituais que reúnem milhões de “fiéis”, criados inteiramente por IA. Um dos mais famosos é o perfil de Yang Mun, que simula a imagem e sabedoria de um monge budista idoso.

Com mais de 2,5 milhões de seguidores, o personagem criado de forma artificial surge com túnicas coloridas em cenários geralmente belos e pacíficos. Ele traz diariamente lições de vida um tanto batidas, como “pare de ficar esperando as pessoas serem legais com você” — mas também sugere remédios e tratamentos duvidosos para problemas que vão da ansiedade à dor nas costas.

Perfis artificiais de mães e pais de santo, pastores e padres também são cada vez mais comuns nas redes, gerando preocupação de que muitos usuários podem estar sendo influenciados por eles de forma enganosa. Já faz um tempo que pai Lucas Maganhato, este um líder religioso de carne e osso, vem percebendo um aumento no uso da IA entre os frequentadores da comunidade de umbanda Ògún Onirê, na zona leste de São Paulo, onde atua.

Essa nova realidade, segundo ele, vem deixando as lideranças bastante inseguras. “Você cria uma nova geração de pessoas dentro dos terreiros que esquece que as religiões de matriz africana são extremamente orais, e os ensinamentos são feitos através dessa oralidade.” Mais do que isso, aliás, o feitiço dentro das comunidades de umbanda está na palavra do caboclo, de Exu, do preto velho, explica o pai de santo.

Hoje, continua Maganhato, muitos iniciantes já procuram descobrir quem é seu orixá por meio da IA, o que tira parte crucial do encantamento do terreiro. E, como a literatura sobre umbanda ainda é escassa, a possibilidade de erros é grande. “Muitas pessoas não esperam mais chegar a gira para perguntar para Exu qual banho fazer. Em vez disso, elas vão na internet e pedem, por exemplo, um banho para aumentar o astral. E dali vão sair diversas receitas que nem sempre condizem com a realidade.”

O que de fato se perde com essa troca, na ótica do pai de santo, é justamente o mais importante: a vivência do terreiro, o diálogo com pais e mães de santo e a possibilidade que o indivíduo tem de estreitar relações com sua família de axé. Algo que só vem através da presença e ao longo do tempo.

“Aquela pessoa que não quer se dar ao trabalho de separar um dia para ir ao terreiro, com essa tecnologia, vai entender que a falta de comprometimento dela é normal”, aponta Maganhato. “Para nós, o tempo é tão importante que ele é até um orixá. Então, quando você tenta burlar esse tempo, não está sendo fiel ao que busca. Se a gente pensa em um terreiro como uma comunidade que tem como um dos propósitos trazer pertença para um indivíduo, essa pertença só vem com o tempo.”‘

Se a gente pensa em um terreiro como uma comunidade que tem como um dos propósitos trazer pertença para um indivíduo, essa pertença só vem com o tempo

O líder religioso até consegue enxergar usos positivos da IA na umbanda, como a geração facilitada de imagens, que ajuda na divulgação de terreiros menores e das religiões de matriz africana de maneira geral. Mas considera outras funcionalidades, como a de jogar búzios, um desserviço. “O jogo de búzios vem de uma tradição que demora pelo menos dez anos de estudo para entender. Então, quando [a tecnologia] sai do recreativo e vai para as esferas de conhecimento, começa a ficar negativo.”

Desinteligência artificial

Segundo o pesquisador de religião e tecnologia Hugo Brandão, professor do Instituto Federal de Alagoas, a IA vem padronizando a forma como se vive a religião na contemporaneidade, numa experiência espiritual e religiosa cada vez mais mediada por algoritmos. Assim, até mesmo vivências consideradas sagradas, seja em templos tradicionais ou em ambientes ligados à espiritualidade — como o mar, essencial para o candomblé — agora passam a ser mediadas pela tecnologia.

“Você procurava o pai de santo, o padre, o pastor, o médium para ter uma experiência com um fenômeno consagrado, de aconselhamento ou de refúgio para as inquietações da vida. Agora elas são feitas pelos algoritmos, no que eu chamo de espiritualidade algorítmica ou busca por um Deus algoritmo”, afirma Brandão.

Essa demanda por conexão espiritual intermediada pela tecnologia, para Petria Chaves, mostra que estamos perdendo a proximidade humana, a capacidade de interação olho no olho. Na visão da jornalista, um contato mais direto com o mundo ao redor continua sendo essencial para quem quer viver a espiritualidade em suas diversas formas.

“São necessários introspecção, silêncio e até certa rebeldia: desligar o celular, ir para a natureza, respirar, colocar os pés no chão e recuperar o contato com a realidade e com a presença. Porque isso nos ajuda a ter discernimento intelectual, não só espiritual. É experiência viva no corpo.” O contato com o meio ambiente, aliás, está na base de diversas crenças religiosas, como o candomblé e a umbanda, mas também o xintoísmo, crença japonesa que venera divindades ancestrais que habitam elementos da natureza.

O astrólogo Alexey Dodsworth hoje já identifica, inclusive, um movimento contrário: o retorno de muitas pessoas à busca pelo atendimento humano, após perceberem as fraquezas fundamentais da busca pelo espiritual usando ferramentas tecnológicas. “A IA não é uma inteligência”, resume Dodsworth. “Ela não é senciente, ela não é inteligente, ela não tem moral, ela não tem ética, ela apenas parece ter porque copia a gente.”

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