Qual o lugar das mulheres na política?
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Ilustração de Isabela Durão

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Depoimento

O que acontece quando uma mulher é eleita?

Especialistas de diferentes áreas analisam as chances de mudança quando uma mulher é eleita

Mariana Pontes 16 de Agosto de 2026

O que acontece quando uma mulher é eleita?

Mariana Pontes 16 de Agosto de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Especialistas de diferentes áreas analisam as chances de mudança quando uma mulher é eleita

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    “Teremos um Estado muito mais preocupado em garantir vida com dignidade”

    Tainah Pereira, doutoranda pela UFRJ e coordenadora política do Movimento Mulheres Negras Decidem

    “Eu concordo com a [ex-presidente do Chile, Michelle] Bachelet: ‘Quando uma mulher entra na política, muda a mulher. Quando muitas mulheres entram na política, muda a política’. Há muitas evidências no mundo inteiro sobre como mulheres têm sido mais hábeis em lidar com o orçamento público, em direcionar mais esforços para implementação de políticas que tragam soluções para o dia a dia das pessoas. Mas tem uma reflexão profunda sendo construída por mulheres do mundo inteiro sobre a natureza do Estado e suas atribuições. Alguns chamam isso de “institucionalismo feminista”. Quando a gente finalmente conseguir ver mais mulheres no poder, isso vai gerar uma transformação das nossas instituições e da nossa sociedade. Teremos, arrisco dizer, um Estado muito mais preocupado em garantir vida com dignidade, em vez de preocupar-se apenas com ordem e segurança. Eu quero viver para testemunhar isso: as mulheres ocupando as instituições para promover um Estado que é cuidador, não defensor ou protetor.”

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    “Elas vão gerando pequenas fissuras nas estruturas e denunciando o terror que mulheres vivem”

    Maíra Vida, advogada de direitos humanos, diretora da SankofaJur, pesquisadora e membro do Aganju (Afro-Gabinete de Articulação Institucional e Jurídica) e da Coalizão Negra por Direitos

    “Ativistas eleitas vão gerando pequenas fissuras nas estruturas e denunciando o terror que mulheres vivem num Estado incapaz de protegê-las da morte: pelo racismo, pela misoginia, pela homotransfobia ou pela extrema pobreza. Elas têm o condão de combater uma cultura política institucional hierarquizada e excludente. Se, por um lado, somos a maioria demográfica no Brasil, das votantes e das chefias de família, por outro, compomos o segmento de maior vulnerabilidade socioeconômica, sobretudo mulheres negras. Somos as mais atingidas pela injustiça tributária, pelo genocídio negro, pelo feminicídio, ocupamos os postos de trabalho mais precarizados e de maior informalidade e lidamos com a extrema pobreza e falta de acesso. Mas não é possível romantizar a representação de qualquer grupo social dissociado de pautas afirmativas e uma agenda democrática comprometida com a redução das desigualdades e a construção de caminhos de desenvolvimento sustentável. O programa político deve remeter às trajetórias de vida moldadas por territórios brasileiros desiguais, sustentados por mulheres das bases, prontas para vocalizar o projeto de sociedade e de país que idealizam pertencer.”

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    Divulgação

    “A gente não precisa se justificar para ocupar esse espaço! É uma democracia, é uma questão de representatividade”

    Luciana Panke, professora titular da UFPR e autora dos livros “Campanhas eleitorais para mulheres” (UFPR, 2016) e “Caminhos para o protagonismo feminino” (Univale, 2025)

    “No lançamento do meu livro [“Caminhos para o protagonismo feminino”], um jornalista me perguntou: “Mas que diferença faz uma mulher na política?” Eu respondi: “Que diferença faz um homem na política?”. Sei que não foi essa a sua pergunta, mas dependendo de como colocamos esses questionamentos, acabamos por reforçar que as mulheres não pertencem na política. A própria pergunta já é excludente: “Para que eu vou eleger uma mulher?” Tem uma outra forma de responder isso, usando pesquisas que mostram os benefícios da inclusão, mas eu vou direto na raiz da questão: isso é uma forma de dizer que a mulher precisa provar que faz diferença para estar na política. A gente não precisa se justificar para ocupar esse espaço! É uma democracia, é uma questão de representatividade. Mulheres que querem estar na política devem estar na política. A gente não precisa ficar o tempo inteiro provando que é capaz.”

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    “A política muda, fica mais diversa, fica mais ‘completa’ – somos metade do eleitorado, afinal”

    Ana Cláudia Oliveira, Coordenadora-Geral de Pesquisa do Observatório Nacional da Mulher na Política

    Quando uma mulher é eleita, os desafios não terminam na apuração das urnas — pelo contrário, eles se multiplicam. A violência política de gênero não cessa com o fim do período eleitoral. No dia a dia do mandato, as parlamentares têm sua competência técnica e intelectual questionadas a todo momento. Questiona-se com quem estão seus filhos, se ela é capaz de presidir comissões, suas alianças políticas e vida pessoal. Até mesmo sua aparência — se é “bonita” ou “feia”, se está “arrumada demais” ou “largada”. Além de enfrentarem barreiras estruturais para conciliar a rotina de cuidados com o trabalho político, as mulheres passam a ser alvos ainda mais visados da violência política. No parlamento, enfrentam dificuldades para pautar seus projetos de lei e são sistematicamente excluídas das grandes negociações. Apesar desse cenário adverso, algo transformador acontece quando uma mulher ocupa um espaço de poder: mais da perspectiva feminina integra os governos. A política muda, fica mais diversa, fica mais ‘completa’ – somos metade do eleitorado, afinal. Precisamos estar suficientemente representadas no poder. O número de mulheres eleitas vem aumentando e isso é positivo. Porém, o progresso ainda é modesto e precisamos de muitas mais de nós nesses espaços. Mas cada mulher eleita pelo Brasil representa um avanço concreto para toda a sociedade.”

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