COLUNA

Observatório da Branquitude

A Casa-grande não alaga

O racismo ambiental tem endereço e se encarrega de definir quem mora no seco e quem mora no molhado

17 de Junho de 2026

Os últimos meses têm sido de chuvas contínuas na região metropolitana de Belém. Um cenário um tanto estranho para quem interpreta a chegada do mês de junho como o início do verão amazônico. Em meio a uma rotina impactada por ruas alagadas e um trânsito caótico, me peguei pensando sobre um temor bastante particular meu: o medo da chuva.

O barulho da chuva intensa sobre o telhado de casa me causa arrepios e não é à toa. O local onde residi por quase trinta anos sofria com problemas graves de infiltrações e goteiras, de modo que quarto alagado, móveis deteriorados e umidade fazem parte das memórias que tenho da vida doméstica. Perdi as contas das vezes em que caí em prantos enquanto secava meu quarto. Agora, já morando em outro lugar, com estrutura livre dos antigos problemas, ainda assim me vejo ansiosa quando o céu escurece e o “cheiro” da chuva começa a anunciar sua chegada.

O barulho da chuva intensa sobre o telhado de casa me causa arrepios e não é à toa. Seria esse um medo apenas meu? A crise climática, somada às hierarquias sociais me respondem que não

Seria esse um medo apenas meu? A crise climática, somada às hierarquias sociais me respondem que não. Afinal, tratando-se do lugar de onde venho, esse medo é estrutural. Aliás, essa sensação ou, de outro lado, a sua completa ausência, tem raça e cor. Em abril de 2026, Belém foi apontada como a capital brasileira que mais sofreria com o aumento pluviométrico, e a cidade acabou fazendo jus às previsões, já que o decreto de emergência veio acompanhado de 150 milímetros de chuva e de uma rápida expansão das enchentes em apenas vinte e quatro horas dos dias 17 a 19 daquele mês.

Enquanto acompanhava os noticiários que narravam a insegurança das famílias atingidas, que perdiam eletrodomésticos, móveis e, em casos mais extremos, as próprias estruturas de suas residências, fui novamente sendo obrigada a me dar conta do perfil específico daquelas pessoas, assim como o dos bairros que mais sentem. Era uma população majoritariamente negra, residindo nas baixadas da cidade, em bairros como Guamá, Terra Firme, Bengui e Tapanã. Os números confirmam minha percepção, uma vez que 75% das pessoas que vivem em áreas de risco em Belém são negras, contra uma média de 64% no conjunto da cidade, conforme o Censo de 2022 e o Instituto Pólis.

Ironicamente, uma das áreas também intensamente afetadas pela força das marés foi o Umarizal, bairro com o metro quadrado mais caro da cidade, sobretudo na Avenida Visconde de Souza Franco, comumente chamada de Doca pela população local. Ironicamente porque aquela mesma avenida já foi, até a década de 1970, um curso d’água. O antigo Igarapé das Almas foi aterrado e canalizado durante a ditadura militar, no período do chamado “milagre econômico”, sendo a avenida finalmente inaugurada em 1972. Onde antes havia palafitas, vacarias e, na década de 1830, foi o palco de insurgências de uma Revolução Cabana, passou a ser concreto, com a população que vivia nos cortiços removida para áreas mais distantes, ao passo que a região se elitizava e se verticalizava ao longo das décadas seguintes.

E é justamente nessa verticalização que mora um dos pontos centrais da minha tese. Mesmo quando a água sobe na Doca, ela não alcança quem vive no alto dos edifícios. A branquitude proprietária se protege dos impactos da chuva não porque a chuva a poupa, mas porque o privilégio lhe permite morar acima da linha d’água ou em qualquer outro espaço que lhe garanta segurança. Enquanto isso, nas baixadas, a água entra pela porta, sobe pela cama e leva embora o que se tem. Vale notar, também, que 22% das mortes por desastres ambientais no Brasil entre 1991 e 2024 se concentraram apenas nos últimos quatro anos e que sequer existe informação oficial sobre a cor de quem morre. Aqui a própria ausência do dado é instrumento de invisibilização.

A branquitude proprietária se protege dos impactos da chuva não porque a chuva a poupa, mas porque o privilégio lhe permite morar acima da linha d’água ou em qualquer outro espaço que lhe garanta segurança

Historicamente, Belém sempre conviveu com alagamentos. Foi uma cidade arquitetada, no início do século XX, pelo intendente Antônio Lemos, que pretendia driblar a própria natureza (guiada e cronometrada pelas marés) ao transformar a capital em uma Paris n’América. Guiado por um ideário higienista, Lemos aterrou igarapés, abriu boulevards e ergueu uma infraestrutura de saneamento pensada para “embelezar” – ou branquear – a cidade aos moldes ocidentais. Contudo, esse projeto de modernização nunca foi para todos, uma vez que empurrou os mais pobres, em sua maioria negros, para os terrenos baixos e alagáveis que sobravam.

Se retornarmos ainda mais no tempo, encontraremos a mesma lógica espacial no período colonial. Não por acaso, a casa-grande era erguida nas partes mais altas dos terrenos, longe da água que invadia, enquanto a senzala se acomodava embaixo.

Escrevo estas linhas pensando no último 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, data que costuma ser celebrada com um discurso ambiental com tendências universais e essencialistas, como se todos nós estivéssemos igualmente expostos. Acontece que o racismo ambiental também tem endereço e se encarrega de definir quem mora no seco e quem mora no molhado. Falar em meio ambiente sem falar de raça é continuar protegendo a casa-grande das enchentes.

75% das pessoas que vivem em áreas de risco em Belém são negras – contra 64% de média geral na cidade (Censo IBGE 2022 / Instituto Polis, 2022). Fonte: Instituto Polis, Racismo Ambiental e Justica Socioambiental nas Cidades (2022)

32% menor e a renda média nos domicílios de setores com área de risco em Belem: R$ 1,7 mil, contra R$ 2,5 mil na média da cidade. Fonte: Instituto Polis / Censo Demográfico IBGE 2022 (citado por Tapajós de Fato, 2022)

10% da população de Belém – sede da COP30 – vive em áreas de risco de inundações e alagamentos, em meio ao crescimento urbano desordenado. Fonte: InfoAmazonia / Carta Amazônia, 2025

30x maior é a chance de uma pessoa negra em Belém ser hospitalizada por doença de veiculação hídrica em comparação a uma pessoa branca. Fonte: Instituto Polis, Racismo Ambiental e Injustiça Climática (novembro 2025)

7x maior e a taxa de hospitalização de pessoas negras por doenças transmitidas por mosquitos (dengue, zika) na capital do Pará em relação a pessoas brancas. Fonte: Instituto Pólis, Racismo Ambiental e Injustiça Climática (novembro 2025)

13 mi de brasileiros vivem em áreas de risco – e a maioria é negra e de baixa renda. (IBGE / Instituto DACOR, 2025) Fonte: IBGE / Instituto DACOR, 2025

22% de todas as mortes por desastres ambientais no Brasil entre 1991 e 2024 ocorreram nos últimos quatro anos (2020-2024) – mas não há recorte racial oficial sobre os atingidos. Fonte: Atlas Digital de Desastres no Brasil / Le Monde Diplomatique Brasil, 2025

Em 1970 o Umarizal, hoje o bairro com o metro quadrado mais caro de Belém, era ate o século XX um bairro popular habitado por negros forros. Durante a modernização de Antonio Lemos, essa população foi expulsa para os bairros periféricos do Guamá e da Pedreira – os mesmos que hoje concentram as maiores vulnerabilidades climáticas. Fonte: Wikipedia / Umarizal (Belem); Eumed.net, Produção Desigual do Espaco em Belem (2018)

100 mil habitantes tem o Guamá, o bairro mais populoso de Belém, nascido no entorno de hospitais leprosários criados para isolar pessoas negras escravizadas e ex-escravos. A maioria de seus moradores é parda, negra e de baixa renda – e convive com enchentes há décadas. Fonte: InfoAmazonia / Censo IBGE 2022

Letícia Gonçalves é graduada em Licenciatura em Ciências Sociais pela UFPA (Universidade Federal do Pará) com mestrado em Sociologia e Antropologia pela mesma instituição. Possui experiência em docência, comunicação popular e pesquisa no terceiro setor nas temáticas de gênero, racialidades na Amazônia brasileira e populações tradicionais. Atualmente é Analista de Pesquisa Qualitativa no Observatório da Branquitude.

Felipe Souza é graduado em Ciências Sociais pela UFRPE, com mestrado em Desenvolvimento Local pela mesma instituição, com pesquisas voltadas para cidadania, participação política e desigualdades no contexto educacional. Possui experiência consolidada em monitoramento, avaliação e inteligência de dados em organizações de impacto nacional e internacional. Atualmente, é analista sênior de pesquisa quantitativa no OdB (Observatório da Branquitude).

Fontes citadas:

  1. Instituto Polis (2022). Racismo Ambiental e Justica Socioambiental nas Cidades. Disponivel em: polis.org.br
  2. Instituto Polis (2025). Racismo Ambiental e Injustica Climatica. Analise de Belem, Recife, Porto Alegre e Sao Paulo.
  3. IBGE. Censo Demografico 2022. Indicadores de vulnerabilidade e raca em setores de risco.
  4. InfoAmazonia (julho 2025). Em Belem, cidade-sede da COP30, 10% da populacao vive em risco de inundacoes.
  5. Atlas Digital de Desastres no Brasil. SEDEC/Ministerio da Integracao. Dados 1991-2024.
  6. Wikipedia (Umarizal, Belem) – para o dado historico sobre expulsao da populacao negra do bairro.
  7. BRITO, Gisele. Enfrentar a crise climatica e combater o racismo ambiental. Le Monde Diplomatique Brasil, 30 out. 2025. Disponivel em: https://diplomatique.org.br/enfrentar-a-crise-climatica-e-combater-o-racismo-ambiental/

Observatório da Branquitude é uma organização da sociedade civil fundada em 2022 e dedicada a produzir e disseminar conhecimento e incidência estratégica com foco na branquitude, em suas estruturas de poder materiais e simbólicas, alicerces em que as desigualdades raciais se apoiam.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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