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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Geografia LGBTQIAPN+: Onde você nasce faz toda a diferença

De países que criminalizam a relação entre pessoas do mesmo sexo a cidades pouco acolhedoras, a geografia é um dos aspectos que definem a vivência LGBTQIAPN+

Leonardo Neiva 14 de Junho de 2026

Geografia LGBTQIAPN+: Onde você nasce faz toda a diferença

Leonardo Neiva 14 de Junho de 2026
Ilustração de Isabela Durão

De países que criminalizam a relação entre pessoas do mesmo sexo a cidades pouco acolhedoras, a geografia é um dos aspectos que definem a vivência LGBTQIAPN+

“Dizem na Nigéria que [as pessoas] são gays porque foram para a América ou foram expostas aos valores americanos”, contou o escritor nigeriano Chukwuebuka Ibeh durante debate com o autor brasileiro Stefano Volp n’A Feira do Livro, com mediação do editor da Quatro Cinco Um Amauri Arrais. “Penso nessa criança crescendo [na cidade nigeriana de] Porto Harcourt: não assiste TV, nunca deixou a cidade, não consome a mídia ocidental e ainda é muito gay. Como? O mosquito veio da América até a Nigéria e picou a criança?”

Porto Harcourt é também a cidade onde vive o protagonista de “Bênçãos” (Tusquets, 2025, trad. Petê Rissatti), livro de estreia de Ibeh, um romance ficcional com toques autobiográficos. Na obra, ambientada na Nigéria pós-ditadura, após ser flagrado pelo pai em um momento de intimidade com outro jovem, o protagonista adolescente Obiefuna é enviado a um internato, onde garotos só podem usar preto. “Leia seus livros, vá à igreja e mantenha a cabeça baixa”, é o último conselho paterno. “Um dia, quando você for mais velho, vai entender por que isso foi necessário.”

A narrativa se passa às vésperas de uma lei de 2014 que criminalizou a relação entre pessoas do mesmo sexo no país. Casos de união ou relação sexual passaram a ser punidos com até 14 anos de prisão. Já na região norte da Nigéria, onde predomina o código islâmico Sharia, o “crime” é punido com chibatadas ou pelo apedrejamento até a morte.

Histórias como essa mostram quão fundamental para a vivência da identidade e sexualidade de uma pessoa LGBTQIAPN+ é o lugar onde ela nasce e passa boa parte da vida. Esta semana, o Níger promulgou um Código Penal que prevê até 20 anos de prisão para a prática de relações homossexuais. Ele acaba de entrar para a lista de cerca de 67 países que criminalizam relações entre pessoas do mesmo sexo, segundo levantamento do Human Rights Watch, um rol que hoje atinge mais de 2 bilhões de pessoas — cifra que ultrapassa um quarto da população mundial. Em 11 dessas nações, a punição pode chegar à pena de morte.

“A geografia é fundamental na existência humana em geral, mas para seres humanos cuja corporalidade possui marcas lidas como inferiores, caso das mulheres, pessoas não brancas e LGBTQIAPN+, isso se torna evidente”, destaca a professora do programa de pós-graduação em geografia da Universidade Federal do Paraná, Joseli Maria Silva. “Os corpos das mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ são mais atingidos por regras porque são objetificados, são considerados não sujeitos, e as regras são criadas e mantidas pelo poder masculino, heteropatriarcal”, diz Silva, que é doutora em geografia e presidente da Comissão de Gênero e Geografia da União Geográfica Internacional.

A geografia é fundamental na existência humana em geral, mas para seres humanos cuja corporalidade possui marcas lidas como inferiores, caso das mulheres, pessoas não brancas e LGBTQIAPN+, isso se torna evidente

Navid Manafi Rasi, 36, hoje residente no Brasil, nasceu em um dos países membros dessa seleta lista: o Irã. “Foi na escola que entendi que tinha muitas coisas diferentes de outros meninos”, ele revela a Gama. Quando Navid contava nove ou dez anos, sua mãe recebeu uma ligação do colégio questionando por que o garoto estava calçando um sapato rosa, se a tradição era que os meninos usassem sempre preto. Navid também tem lembrança de ser ridicularizado pelos colegas por seu hábito de limpar a cadeira antes de sentar. “Diziam que era coisa de menina.”

Descendente de turcos do Azerbaijão, sua família não era religiosa, mas valorizava muito a tradição de ter filhos homens — e Navid era o único, ao lado de duas irmãs. Ele, que desde cedo gostou de dançar, chegou a ser repreendido por um primo ao bailar ao som de um ritmo árabe num casamento: “Árabe é dança para mulher, você só pode dançar persa ou turco.”

Durante o alistamento militar obrigatório, que fez enquanto cursava a faculdade de hotelaria, Navid lembra que, certo dia, foi chamado à sala de um supervisor. “Ele me falou: agora nós estamos aqui sozinhos. Depois abriu a calça e me estuprou. Fui estuprado dentro de uma faculdade muito famosa no Irã”, revela Navid. “Depois desse dia, eu fiquei com muito medo.”

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A repressão e suas consequências

Apenas cerca de 37 países no mundo concedem asilo a indivíduos refugiados por perseguição à sua orientação sexual. O Brasil é um deles, e vem recebendo desde 2002 pessoas LGBTQIAPN+ que buscam proteção. Após avaliar opções em países da Europa, onde o processo de visto seria muito mais difícil e demorado, Navid optou por tentar a sorte aqui. “Eu tinha que sair, tinha que fugir, e busquei um lugar com muita alegria, muita liberdade”, lembra.

Leis que punem e criminalizam a própria existência LGBTQIAPN+ criam ambientes regressivos, opressivos e que diminuem a vida das pessoas, aponta Kath Browne, professora da Escola de Geografia da University College Dublin, especializada em estudos relativos à sexualidade, gênero e territórios. Esse tipo de restrição, ela reforça, não afeta só o indivíduo, mas a sociedade como um todo.

Mas a criminalização não é o único fator que impacta a existência LGBTQIAPN+ em territórios pelo mundo. Aspectos como normas religiosas ou práticas socioculturais discriminatórias também geram perseguição, violência e exclusão social, lembra o doutor em geografia Diego Nunes, pesquisador no Laboratório de Espacialidades Urbanas da Universidade Federal de Santa Maria. “Na maioria dos casos, as restrições ocorrem dentro de casa. Falar abertamente sobre a própria sexualidade exige coragem, principalmente quando pessoas LGBTQIAPN+ não têm o devido acolhimento dentro do próprio lar”, destaca.

“Também existem impactos econômicos, porque um lugar onde a pessoa não pode prosperar nem sobreviver significa que suas habilidades, o que você oferece à comunidade até em termos de negócios, se perde quando é necessário reprimir quem você é no nível mais fundamental”, afirma Browne, coautora do livro “Geografia Queer” (Letra e Voz, 2025).

Navid conta que, ao ter seu alistamento militar negado no Irã por sua orientação sexual, recebeu um cartão que dizia que ele tinha um problema de saúde mental — restrição que afetou inclusive sua capacidade de se manter financeiramente. “Com esse cartão, você não pode trabalhar, não pode dirigir um carro, não pode fazer nada”, explica Navid, que foi impedido de exercer a hotelaria mesmo tendo mestrado na área.

Cidades e territórios

Quando falamos na importância do território para a vivência LGBTQIAPN+, a questão não se aplica só de forma ampla, aos países e suas culturas e legislações. Dentro de uma mesma nação, podem haver características e experiências totalmente diferentes em regiões, estados e cidades distintos — ou até entre áreas de uma mesma metrópole.

“Desde a família, nossa primeira experiência de ser e estar no mundo, até a escola, a igreja, esses lugares cotidianos em comunidade, expressam relações sociais de poder”, afirma o geógrafo Bernardo Bronzi Rocha, pesquisador e autor do artigo “Uma geografia das pessoas trans: A face vívida das realidades cotidianas”. Rocha destaca o exemplo frequente de pessoas trans e travestis que se mudam do interior para grandes centros urbanos em busca de um anonimato que lhes renda maior liberdade vivendo sua nova identidade. Por outro lado, considera, cidades pequenas e médias podem oferecer vínculos importantes de forma muito mais direta.

Mas há diferenças até em grandes cidades como o Rio, onde a realidade de bairros nobres e periféricos costuma ser bem distinta. “É diferente ser uma pessoa LGBTQIAPN+ na Zona Oeste, na Zona Norte, na Baixada Fluminense”, afirma o geógrafo. A doutora em geografia Joseli Maria Silva lembra que, em centros urbanos de diversos países, as comunidades LGBTQIAPN+ se apropriaram de bairros inteiros, como o The Castro em São Francisco ou o West Village em Nova York, o Soho em Londres, o Le Marais em Paris, e o Frei Caneca em São Paulo. Isso teria possibilitado a criação de espaços que permitem vivenciar suas sexualidades com maior segurança e liberdade.

Mas a presença nesses locais sempre perpassa questões como raça e classe. “Embora as conquistas sejam de extrema importância, esses bairros sofreram um processo de elitização, e não é qualquer LGBTQIAPN+ que pode acessar os bens e serviços oferecidos nessas áreas”, afirma a especialista. “Se são espaços inclusivos do ponto de vista das sexualidades, pessoas LGBTQIAPN+ pobres e racializadas não são toleradas.”

Se são espaços inclusivos do ponto de vista das sexualidades, pessoas LGBTQIAPN+ pobres e racializadas não são toleradas

Até a existência de mecanismos públicos como um ambulatório para o atendimento exclusivo da população trans pode se tornar um fator que reforça a presença dessa comunidade numa cidade como Niterói, aponta Rocha. O mesmo vale, segundo Silva, para equipamentos e espaços culturais LGBTQIAPN+. Para Browne, símbolos como faixas de pedestres pintadas de arco-íris, esculturas ou prédios dedicados ao movimento também são importantes para tornar o espaço urbano mais amigável a essa população, desde que haja respaldo em políticas públicas como centros comunitários e uma organização urbana que permita viver existências LGBTQIAPN+ não normativas.

Assim como a realização de marchas e eventos trans, isso ajuda a consolidar movimentos mais fortes e redes de apoio mútuo em determinadas regiões, Rocha aponta. O pesquisador também avalia a importância de levar para o interior casas de acolhimento LGBTQIAPN+, em geral ainda muito concentradas em grandes centros urbanos, como uma forma de ampliar as possibilidades dessa população. “Todo mundo deveria poder transitar por onde quisesse, mas que [migrar] não seja um imperativo e uma necessidade para você existir sendo quem é.”

Problemas no paraíso

Embora vista de maneira utópica, a migração ou busca de refúgio também pode gerar uma série de problemas e dificuldades. “Muitas pessoas são obrigadas a deixar para trás familiares, redes de apoio, vínculos afetivos, trabalho e referências culturais”, explica o pesquisador Diego Nunes. “Ao chegarem aos países de destino, podem enfrentar barreiras linguísticas, dificuldades de inserção no mercado de trabalho, xenofobia, racismo e novas formas de discriminação à sexualidade e ao gênero.”

Um dos riscos é que, ao buscar espaços mais inclusivos, caiam em ambientes onde, como refugiados, vão acabar vivenciando uma realidade marcada pelo preconceito e a violência racial. Browne dá como exemplo o caso de migrantes turcos que buscam refúgio na Europa, onde muitos acreditam ser possível viver uma vida sexualmente mais livre. “Apesar da maior liberdade para que pessoas LGBTQIAPN+ se expressem, viver em campos para refugiados, que é como o sistema funciona, não é nada libertador”, afirma.

Afinal, uma pessoa não se define apenas pela sua sexualidade, mas por uma série de fatores que se interseccionam e influenciam o processo migratório, como classe social, gênero, raça e idade, lembra Silva. “Um homem gay rico e branco tem condições de vivenciar o processo migratório com mais facilidade do que uma travesti pobre e negra”, declara.

Um caso emblemático é o da cidade inglesa de Brighton, considerada a capital queer do Reino Unido, com a maior proporção de população LGBTQIAPN+ do país. Numa pesquisa realizada em 2015 com brasileiros LGBTQIAPN+ que se mudaram para a cidade, a doutora em geografia descobriu que, apesar de viverem sua sexualidade com mais segurança e liberdade, havia também aspectos negativos. Além de sofrerem com racismo, xenofobia, isolamento social e a saudade de familiares, “os processos de asilo são longos e nem sempre dão certo, o que traz ansiedade em relação à segurança de obter um trabalho ou moradia digna no país”, revela.

“É como um colega costumava me dizer: Será que entramos no mar? O que vem depois que chegamos à suposta utopia, e ela se mostra realmente problemática?”, reflete Browne. Por isso, considera essencial avaliar previamente se essa nova realidade pela qual a pessoa está abrindo mão da família, da comunidade e do senso de pertencimento realmente vale a pena.

Em certo momento, Navid chegou a se perguntar se tinha tomado a decisão correta ao se mudar para o Brasil. Desde que chegou aqui, em 2019, ele enfrentou barreiras importantes, como o desconhecimento da língua, a falta de dinheiro e de conhecidos no país. Mas afirma ter se encontrado. Apesar de um longo período sem comunicação, ele também já consegue falar periodicamente com a família no Irã e chegou a receber visita deles no Brasil. Hoje, uma de suas principais preocupação é que o conflito entre EUA e seu país natal acabe atingindo seus familiares.

Atualmente, Navid trabalha como orientador de público no Museu da Imigração e conta sua história e a de outros refugiados nos palcos, como protagonista da peça “Anywhere”, que terá nova temporada de 20 de junho a 12 de julho no Espaço Cia da Revista, em São Paulo.

“A cultura é diferente, a comida é diferente, a língua é diferente. Com 29 anos, tive que aprender muitas coisas, mas eu sempre busquei a liberdade. Para mim, liberdade não é só poder beijar ou beber cerveja na rua, mas escolher a roupa com a qual vou sair de casa. Eu sei que temos muitos problemas no Brasil, mas que bom que nós temos voz, que bom que podemos falar sem que depois ninguém venha nos matar.”

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