Você conhece seu pai?
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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

O que você (não) sabe sobre seu pai?

Ainda um desafio para muitos filhos, conhecer melhor a vida e as emoções paternas depende da superação de barreiras familiares e limites internos

Leonardo Neiva 09 de Agosto de 2026

O que você (não) sabe sobre seu pai?

Leonardo Neiva 09 de Agosto de 2026

Ainda um desafio para muitos filhos, conhecer melhor a vida e as emoções paternas depende da superação de barreiras familiares e limites internos

Ao se dar conta de que sabia muito pouco sobre a vida pregressa do pai, que naquele momento estava travando uma batalha contra o câncer, o paulista André Kondo, 51, tomou uma decisão: escreveria uma biografia sobre ele. Após garantir um edital por meio desse projeto literário, o escritor também optou por dividir com o biografado o dinheiro recebido, para que este finalmente topasse contar sua história de vida.

Foi então que Kondo, munido de seu notebook, sentou-se frente a frente com Kazuki, então com 81 anos, para começar do início a escrita do livro. Ou seja, conhecendo a trajetória paterna. “Eu falei: pai, pode começar. Aí ele olhou para mim e disse: o que passou, passou. Eu escrevi isso e fiquei olhando para a cara dele, que não falou mais nada”, lembra o autor.

Claro, “O Silêncio de Kazuki” (Telucazu Edições, 2025), que acabou vencendo o prêmio Jabuti de melhor livro juvenil, não é composto apenas por uma frase seguida de dezenas de páginas em branco. Mas Kondo precisou lançar mão de outras estratégias além de uma simples conversa para adentrar a carapaça paterna.

“Quisera eu que fosse uma biografia, com datas, fatos e fotos. Um registro confiável de quem é meu pai. Uma forma de mantê-lo vivo dentro de um objeto que ele tanto ama”, escreve no capítulo introdutório a respeito do pai, que sempre amou livros e os lê até hoje em japonês. “Meu pai é feito de silêncios. Talvez por isso eu tenha nascido, para ser a sua voz. Ou provavelmente eu só queira acreditar nisso. Aceitei que ter um pai japonês era ter um pai que fala pouco e nunca abraça.”

Arquivo pessoal/André Kondo

Devido à impossibilidade de longos diálogos explicativos, o autor precisou recorrer a fontes alternativas para ir montando as peças do quebra-cabeça paterno. Primeiro, teve que encontrar seu documento de identidade estrangeiro para descobrir que o pai havia nascido ainda durante a Segunda Guerra Mundial, na Manchúria — região do nordeste da China, na época invadida pelos japoneses.

“Por quase toda a vida fiquei sem saber disso”, confessa na obra. Assim como também não sabia que seus avós precisaram se mudar com a criança para Hokkaido e, só em seguida, para o Brasil, após as sucessivas derrotas japonesas no conflito.

Não é segredo que há, no Brasil e no mundo, um problema severo de ausência e abandono paterno. Em 2025, 174 mil recém-nascidos no país foram registrados somente com o nome da mãe, segundo dados do Portal da Transparência dos Registros Civis. Cerca de 7,8 milhões de mães brasileiras criam os filhos sozinhas, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) — um total de 13,4% das famílias do país.

Não é questão de conseguir se abrir com os filhos, mas de sequer ter consciência sobre o que abrir, porque a pessoa nunca parou para elaborar o que sente

Mas, mesmo no caso de pais fora dessas estatísticas, estar presente não significa estar próximo. “Em muitos pacientes que eu tenho, que são homens e pais, não é nem questão de não conseguir se abrir com os filhos, mas de sequer ter consciência sobre o que abrir, porque a pessoa nunca parou para elaborar aquilo que sente”, conta o psicanalista Thiago Queiroz, que é pai, escritor e criador do perfil Paizinho, Vírgula!.

Essa restrição de comunicação pode se apresentar desde bem cedo. Um estudo realizado por pesquisadores de Portugal aponta que, quando a criança tem apenas dois meses, as mães costumam ser mais sensíveis e presentes, além de mais impositivas na vida dos filhos do que os pais. Aos seis, elas já se mostram mais ativas e relaxadas nessas interações na comparação com a presença paterna.

Pesquisas mostram também que os filhos não só costumam se sentir mais próximos afetivamente de suas mães como, com frequência, de todo o lado materno da família. O que pode sim ter muito a ver com ciclos de criação familiar. Afinal, segundo outro estudo publicado na revista Behavioral Neuroscience, tanto pais quanto mães tendem a usar uma linguagem mais carinhosa e próxima com filhas mulheres do que com os meninos.

Essa dificuldade de comunicação em relação aos próprios filhos, na visão de Queiroz, reflete a forma como meninos e homens são socializados. “Existe uma cultura de que menino não fala sobre sentimentos, não demonstra fraqueza, não chora, porque é coisa de mulherzinha”, afirma Queiroz, que acaba de lançar o livro “Amor de Pai” (Paz & Terra, 2026).

“Isso prejudica o homem que cresce e se torna pai, porque ele não tem repertório para falar com os filhos, para se abrir mais sobre qualquer assunto. Essa repressão é treinada e ensinada desde a infância, e depois o adulto precisa passar por um trabalho muito grande para conseguir entrar em contato com as próprias emoções.”

No caso de Kondo, ele precisou, sobretudo, aprender ao longo do tempo a interpretar o silêncio que marcou boa parte da vida paterna para tirar dali as lições que o pai queria lhe passar. Como quando, ainda criança, se recusou a comer daikon, o nabo japonês que a mãe preparava. Em vez de lhe dar uma bronca, Kazuki acordou o filho bem cedo na manhã seguinte e o ensinou a plantar uma semente do vegetal.

“Ele falou: todo dia você vai ter que regar, tirar o mato…”, conta o escritor. Após meses de trabalho diário, Kondo finalmente colheu seu primeiro nabo, que a mãe preparou e serviu em seu prato. “Só naquele momento, meu pai disse: agora, se você quiser jogar fora esse daikon, sem culpa, você pode.”

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Diário do pai

Quais foram suas primeiras palavras? Como você era quando criança? Como conheceu o amor da sua vida? Pense no momento em que descobriu que ia ter seu primeiro filho. Você se lembra de como reagiu ou do que disse?

Será que você saberia responder todas essas perguntas de uma tacada só? Pois elas são somente amostras das centenas de questões presentes no livro “Pai, Quero Ouvir Sobre a Sua Vida” (Fontanar, 2026, trad. Lígia Azevedo), uma espécie de diário que promete te ajudar a contar sua história de vida para seus filhos.

“Eu nunca planejei escrever um livro”, conta Jeffrey Mason, autor não apenas da obra, mas de toda uma série de sucesso intitulada “Quero Ouvir Sobre Sua Vida”, que inclui também outros familiares, como mãe, vó e tia. A origem da proposta foi a luta do próprio pai com o Alzheimer. “Criei algo para mim e a minha família, minha mãe, minhas irmãs, para reunir a história de vida do meu pai antes que ela fosse roubada dele e de nós.”

Arquivo pessoal/Jeffrey Mason

O escritor descreve o pai Tommie como uma figura paterna típica, perfeitamente reconhecível para muita gente. “Ele trabalhava, disciplinava, era o provedor e o chefe da família.” Apesar de vê-lo como uma pessoa gentil e amorosa, Mason admite que o conhecia apenas como seu pai, não como um indivíduo por si só. “Queria conhecer o Tommie, saber como ele era quando criança, adolescente, um jovem apaixonado ou com o coração partido, seus sonhos, objetivos… queria me sentir próximo dele como pessoa.”

O filho que vê um pai agindo sem medo de se mostrar vulnerável pode achar mais fácil se abrir sobre as próprias dificuldades emocionais

Embora muitos pais ainda acreditem que falar sobre emoções pode ser um sinal de fragilidade, desenvolver um repertório socioemocional desde cedo pode ser um dos fatores mais importantes para que uma criança ganhe resiliência frente aos problemas da vida, defende o médico psiquiatra Gustavo Estanislau. Especialista em infância e adolescência, ele também aponta que pais que não costumam falar de suas vidas podem criar filhos muito menos conectados a eles.

“Essas passagens poderiam servir como base para que o filho perceba que, se o seu pai já passou por isso, ele também pode conseguir”, explica o especialista, que é pesquisador do Instituto Ame Sua Mente. Além disso, o filho que vê um pai agindo sem medo de se mostrar vulnerável em certas situações também pode achar mais fácil se abrir sobre as próprias dificuldades emocionais e lidar melhor com os desafios já na idade adulta.

Outro desdobramento dessa dificuldade é a sobrecarga emocional em cima das mães, diz o psiquiatra. Isso, segundo ele, acaba construindo relações familiares em que toda a parte emocional tem como base o ponto de vista materno, uma dinâmica que poderia ser muito mais rica com a participação de ambos.

Sabe aquela cena clássica em qualquer filme família de Hollywood? O pai pergunta aos filhos como foi a escola, eles reviram os olhos e segue-se um jantar silencioso e bastante desconfortável. Estanislau defende uma mudança radical nessa dinâmica: “É muito incomum que o pai chegue em casa falando sobre sua própria vida no trabalho, o que aconteceu ao longo do dia. E essa pode ser uma das estratégias mais interessantes para que o diálogo em casa comece a acontecer com mais fluidez.”

Contatos imediatos

Mas é possível romper os ciclos de reprodução desses comportamentos entre pais e filhos? Na visão de Thiago Queiroz, sim. E essa realidade já vem mudando. “É inegável que hoje existe muito mais abertura, que se vê pais mais engajados em assumir um papel diferente do que os próprios pais tiveram”, afirma. Por outro lado, ele avalia que o tema segue sendo relevante, pois há muitos que ignoram ou rejeitam esse discurso.

O psicanalista traz à tona em seu livro mais recente formas de assumir um lugar de pai que você mesmo não conheceu na sua família. “A paternidade por si só é um processo de cura quando o homem decide dar um mergulho nessa piscina. Mesmo que ainda não saiba, ele vai aprender a nadar.” De forma a abrir brechas nesse escudo paterno, a sugestão de Queiroz não é necessariamente falar, e sim ouvir mais o que a parceira ou parceiro, assim como outros pais, têm para contar.

Mesmo quando o pai foi ausente na infância, a dinâmica pode mudar ao longo do tempo, se ele tiver um olho aberto para a importância [de se abrir]

Um consenso entre os especialistas é que nunca é tarde demais. “Mesmo quando o pai foi ausente na infância, essa dinâmica pode mudar ao longo do tempo, se ele tiver um olho aberto para a importância disso. Aí, essa relação vai se reconstruir de forma diferente”, considera Estanislau. O caminho pode variar, desde uma série de conversas até a busca por psicoterapia. Mas requer, principalmente, reconhecimento dos erros por parte dos pais e humildade para construir esse vínculo. “A partir do momento em que a gente começa a ver os retornos positivos, a conexão voltando a acontecer, o filho podendo desabafar, o caminho tende a se aprofundar cada vez mais.”

Mason hoje escuta o tempo todo dos leitores o quanto estes descobriram a respeito da infância e juventude de seus pais e avós. “Recebi uma mensagem de uma pessoa contando como foi legal enxergar a avó como uma adolescente que frequentava bailes, tinha crushes e usava roupas cool.” O autor, aliás, defende os livros também como forma de aprimorar o autoconhecimento, já que eles levantam questões que costumamos ignorar no dia a dia.

“O Alzheimer já tinha tomado muito do meu pai, mas tive a oportunidade de sentar com minha mãe, meus tios, os amigos do meu pai, e, quanto mais ouvia as histórias deles, mais percebia que o conheciam de uma forma diferente da minha”, conta o escritor. A visão paterna de medo e respeito que construiu na infância cedeu lugar a uma proximidade, na qual Mason passou a enxergar muitas semelhanças — assim como algumas diferenças — em relação a ele mesmo. “O obituário do meu pai tinha uns dois parágrafos, mas sua história de vida poderia encher dezenas de bibliotecas. E essa é a parte dele que eu quero que as pessoas conheçam.”

Ao longo da vida, André Kondo viveu momentos bastante difíceis com o pai, incluindo um período em que os dois deixaram de se falar, e o escritor chegou a morar na rua. Apesar de amar os livros, Kazuki não aceitava a escolha do filho pela literatura como profissão. Nais tarde, os dois acabaram se reaproximando, e Kondo esteve ao seu lado enquanto o pai enfrentava um câncer.

O escritor se mudou recentemente para Taubaté, onde o pai vive, para ajudá-lo em seu dia a dia. Uma das lembranças de família mais valiosas que ele guarda aconteceu justamente em um Dia dos Pais. Na ocasião, Kondo encontrou o pai em sua casa montando mais uma prateleira para livros na parede. Porém, quando questionou se ele queria ir à livraria comprar algumas obras, ele negou: “Essa prateleira é para os seus livros.”

“Aquilo me deixou muito emocionado. Apesar de não verbalizar diretamente, aquela prateleira foi a forma dele de falar que aceita e valoriza o que eu faço.”

Produto

  • O Silêncio de Kazuki
  • André Kondo
  • Telucazu Edições
  • 120 páginas

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Produto

  • Pai, Quero Ouvir Sobre Sua Vida
  • Jeffrey Mason (trad. Lígia Azevedo)
  • Fontanar
  • 160 páginas

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Produto

  • Amor de Pai
  • Thiago Queiroz
  • Paz & Terra
  • 280 páginas

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