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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Os novos fetiches estão mais violentos?

Práticas que geram debate nas redes sociais trazem riscos à saúde e podem ser influenciadas pela lógica da pornografia e discursos da “machosfera”

Leonardo Neiva 02 de Agosto de 2026

Os novos fetiches estão mais violentos?

Leonardo Neiva 02 de Agosto de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Práticas que geram debate nas redes sociais trazem riscos à saúde e podem ser influenciadas pela lógica da pornografia e discursos da “machosfera”

“Tem que ser agressivo/Quando tá com ela/Te xinga de puta/Dando murro na costela”. Há algum tempo, a letra do funk “Dando Murro na Costela”, do DJ Henrique de Ferraz, vem embalando vídeos no Instagram e TikTok que levantam um debate inusitado, principalmente entre mulheres: levar um soco na costela durante o ato sexual é algo que dá prazer?

Enquanto algumas usuárias se mostram indignadas com a prática — “Esse negócio de bater na cara e dar soco na costela não é cmg não”, diz uma delas, num vídeo com mais de 150 mil likes —, outras dizem ser adeptas. “Nenhum homem é perfeito, mas o que enche minha costela de murro e minha bunda de tapa chega perto disso”, escreve uma usuária do TikTok, que recebeu vários comentários de aprovação. Uma das trends inclui reproduzir o texto “Eu depois de levar 5 tapão na cara, um pisão na cabeça, murro na costela que quase perfurou meus órgãos”, seguido de emojis de paixão, com uma canção de louvor tocando ao fundo.

Alguns posts até reproduzem em tom de brincadeira as marcas deixadas pelo ato: “Como eu me sinto quando levo murro na costela e fica doendo a semana inteira”, diz um deles, ao som do funk do DJ Henrique de Ferraz, enquanto a usuária mostra um grande hematoma roxo. Numa postagem semelhante, mulheres revelam nos comentários o impacto da prática na hora H: “O pior foi eu ir parar no hospital kkkkkk”; “eu passei 3 dias com falta de ar”; “qnd me aconteceu eu xinguei até a alma kkkk odiei”.

Embora sejam ações que envolvem algum tipo de violência ou restrição durante o ato sexual, os murros na costela e pisões na cabeça que hoje surgem nas redes diferem do conjunto de práticas conhecido como o BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) em alguns sentidos. Em primeiro lugar, segundo a psicóloga clínica e sexóloga Mariana Farinas, porque se tratam, em sua maioria, de mulheres muito jovens, que nem sempre entendem de forma consciente o risco que estão correndo.

Mulheres jovens que estão pouco apropriadas da sua identidade sexual e ainda não têm repertório podem entender que essa é a realidade do sexo, e não algo a que elas podem perfeitamente dizer não

Especialista em sexualidade humana pela USP, a psicóloga atende casos relacionados a formas específicas de excitação, como BDSM, kink e uma variedade de fetiches. Ela esclarece que, no BDSM, além de um maior preparo para evitar consequências excessivamente dolorosas, existe uma compreensão ampla sobre os resultados e riscos de determinadas práticas.

Uma chicotada pode deixar uma marca até desejável para alguns, mas também tem potencial para gerar lesões musculares, algo que quase ninguém quer. “Então, tem esses dois pontos: o consentimento e também o consentimento aos resultados possíveis”, explica. Aliás, segundo ela, boa parte da rotina BDSM tem a ver com o aprendizado de técnicas como onde bater ou amarrar uma pessoa, e com qual intensidade, sem gerar grandes danos.

Já em casos como os que têm surgido nas redes, raramente existe um conhecimento tão detalhado. Muitas vezes, o soco até aparece no diminutivo “soquinho”, o que indica a necessidade de suavidade ao lidar com a região, afirma Farinas. “A questão é que um jovem que vê um vídeo na internet pode se apropriar disso como um soco de fato, aí vai testar na relação e acaba não dá certo”, exemplifica.

“É como se eu fizesse um contrato com você sem te informar dos riscos”, analisa a psicóloga. “Aí você assina, e depois se vira se acontecer algo errado.”

@geovanna.tatyelle0 #viralvideo #viraltiktok #engajamento #viral ♬ som original – Neto

Fetiche saudável x risco

Um dos maiores perigos reside justamente nas partes do corpo visadas em alguns desses fetiches. Num gráfico BDSM, a costela, a cabeça ou o pescoço seriam alguns dos pontos menos seguros do corpo humano para se ter como alvo, diz Farinas.

Um soco na costela pode gerar um trauma ou uma fratura, e isso sem sombra de dúvida precisa ser avaliado com cuidado

É aí que se torna necessário estabelecer uma barreira entre sentir algum nível de dor e causar problemas graves à saúde, aponta o médico infectologista e sexólogo Maiky Prata. “Um soco na costela pode gerar um trauma ou uma fratura, e isso sem sombra de dúvida precisa ser avaliado com cuidado.” Especialista em saúde LGBTQIAPN+, ele afirma que a maioria das pessoas ainda compreende pouco seu corpo, além dos próprios limites e expectativas.

“Práticas populares como o ‘pisão na cabeça’ ou ‘soco na costela’ preocupam porque são áreas com risco real de lesão neurológica, renal ou interna”, complementa a sexóloga clínica e psicanalista Lelah Monteiro. “Mesmo com consentimento, o corpo não distingue brincadeira de dano real.”

De maneira geral, os fetiches são parte importante e saudável da sexualidade humana, esclarece a especialista. Há inclusive uma conexão biológica e psicológica comprovada entre prazer e dor, aponta Monteiro, em que tanto a dor quanto o medo e a excitação sexual ativam sistemas fisiológicos semelhantes: adrenalina, cortisol e endorfinas.

Mesmo com consentimento, o corpo não distingue brincadeira de dano real

Além disso, de acordo com a sexóloga, assumir um papel de submissão tem potencial para gerar uma percepção de alívio da responsabilidade que pode se mostrar muito prazerosa. O problema é quando isso envolve violência física real, sem simulação, sem controle de intensidade e sem possibilidade de interrupção. “Aí deixa de ser fetiche saudável e passa a ser risco.”

Teatro de gênero

A lógica da pornografia tem uma participação importante em todo esse cenário, na visão do psicanalista e pesquisador André Alves. “A gramática da violência está muito presente nos games, nos filmes e séries, nos canais dos creators e também na pornografia”, aponta Alves, cofundador da Float Vibes.

“Se a pornografia faz uma espécie de deseducação sexual que tende a montagens bastante fetichistas para obter prazer, a cultura, de forma geral, confirma isso”, diz o psicanalista, que apresentou recentemente um episódio do podcast Vibes em Análise focado em fetiches contemporâneos. Para Alves, essa gramática da violência está presente em muitos objetos culturais que consumimos desde cedo na vida.

No ano passado, os artistas cuiabanos MC Mestrão e DJ B7 viralizaram com a música “Pisada na Cabeça”, que virou coreografia de TikTok e pano de fundo de vídeos de conteúdo sexual. A canção chegou a ser compartilhada até pelo jogador Lamine Yamal, do Barcelona. No entanto, durante as apresentações nos palcos, Mestrão criou um hábito que gerou revolta nas redes: pisar na cabeça de uma fã enquanto interpretava a letra do funk, “Fodeu, tomou pisada na cabeça”.

A gramática da violência está muito presente nos games, nos filmes e séries, nos canais dos creators e também na pornografia

Muitos acabam absorvendo esses discursos que chegam prontos e são repetidos à exaustão em vídeos online, só que sem o diálogo necessário, diz a psicóloga Mariana Farinas. “Mulheres jovens que estão pouco apropriadas da sua identidade sexual e ainda não têm repertório podem entender que essa é a realidade do sexo, e não algo a que elas podem perfeitamente dizer não”, explica. O que acaba sendo um problema, especialmente num momento de formação dessa identidade.

“Por que um homem tem que dominar a ponto de causar dor? Será que isso não tem a ver com machismo, com patriarcado e até com racismo?”, questiona o médico Maiky Prata. Coincidência ou não, a tendência chega num momento em que discursos misóginos encontram público cada vez maior na chamada “machosfera” e em fenômenos como os red pill. O especialista lembra que vivemos numa cultura profundamente cis-heteronormativa, em que a regra é a dominação e a supremacia masculina sobre outros corpos. “Isso pode estar normalizando essa violência de homens com mulheres, e precisa ser discutido.”

E essa necessidade de dominação e violência não se restringe necessariamente a relacionamentos heteronormativos. Prata conta que, em certas relações LGBTQIAPN+, a lógica passivo/ativo também cria uma aparente autorização de superioridade de um sobre o outro.

“Isso atravessa questões de gênero e até mesmo o machismo, porque aquele que parece mais viril, mais potente, acredita poder mais sobre o corpo do outro. E, para o outro ser validado, acaba aceitando”, reforça o médico. Segundo ele, há uma diferença considerável entre essas práticas e o fetiche consensual e saudável, que requer comunicação direta e clara entre as partes. “Já vi muitos casos em que o ativo parece estar autorizado a fazer qualquer coisa, e o passivo precisa suportar para que seja desejado e atraente.”

Alves enxerga em relações LGBTQIAPN+ a reencenação de modelos clássicos de gênero, com homens encarnando uma suposta masculinidade excessiva e agindo de forma dominadora e agressiva. “Tantas coisas se transformam, mas outras seguem nos acompanhando: roteiros sexuais, afetivos, que são meio transgeracionais e vão se transmitindo de geração para geração, inclusive entre os jovens.”

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Com sentimento

Outro problema do pensamento fetichista, segundo Alves, é reduzir a complexidade do sexo a um roteiro fixo, que não admite imprevistos. “É uma estratégia eficiente até demais”, avalia o psicanalista. “A questão é quando isso aliena o sujeito em relação ao outro, com o parceiro passando a ser apenas um instrumento usado e manipulado para obter o prazer.”

É muito diferente de quando esse desejo vem de dentro da própria relação. “Eu já estive com esse outro, vi como ele reage e consigo perceber quando estou passando do limite. Então, essa construção de percepção de intensidade e limites acontece em tempo real”, descreve Farinas. Já quando a fantasia chega com roteiro pronto e lacrado, o parceiro pode se sentir um figurante e não saber como reagir. “Às vezes fica até um medo de falar não, para, não quero, e perder o parceiro ou criar uma situação desconfortável.”

Num momento em que agendar uma sessão de sexo com um desconhecido está à distância de um aplicativo, a psicóloga adverte contra investir de cara numa prática sexual mais intensa ou arriscada. Não por questões moralistas, mas para dar tempo suficiente de conhecer o outro e entender com quem você está lidando.

“Saia com essa pessoa uma, duas, três vezes para ver qual a capacidade de escuta dela e como ela lida com a frustração quando você diz não”, aconselha Farinas, que compara o sexo a uma droga, um período em que você entra num estado alterado de consciência — e no qual, portanto, as coisas podem sair do controle com mais facilidade. “Se a pessoa já demonstra uma intolerância à frustração, no sexo ela não vai ficar mais atenta e acolhedora. Pelo contrário, isso pode se agravar.”

Para Alves, além da questão básica do consentimento, cada casal precisa configurar internamente os próprios limites e deixar claro o que é aceitável do ponto de vista da agressividade. O psicanalista lembra também que toda relação é um organismo vivo, cujos desejos e interesses vão se modificando ao longo do tempo.

No caso de uma usuária do TikTok, que preferiu não se identificar, a mudança veio bem na hora em que recebeu seu primeiro soco na costela, aplicado pelo namorado com o consentimento dela. Embora tenha postado, como brincadeira, uma foto da marca roxa estampada em sua pele, ela revela que, na verdade, ficou muito mal e precisou interromper a relação sexual por conta da dor. “Eu não conseguia respirar. Briguei com ele, nem ele nunca mais quis fazer aquilo.”

No sexo, afirma Alves, há sempre uma janela pela qual as coisas podem fugir das nossas mãos. “O consentimento, muitas vezes, é a tentativa de estabelecer um controle que nem sempre dá para manter, porque o encontro sexual é uma valsa com a surpresa.”

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