Como anda a sua espiritualidade?
Icone para abrir
Ilustração de Isabela Durão

3

Depoimento

Quando você se reconectou com a sua espiritualidade?

Confira experiências que partem de diferentes crenças e sentidos para o tema

30 de Agosto de 2026

Quando você se reconectou com a sua espiritualidade?

30 de Agosto de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Confira experiências que partem de diferentes crenças e sentidos para o tema

  • Imagem
    Foto de Catarina Ribeiro

    “Minha busca nunca foi por uma religião, mas por um lugar onde eu pudesse compreender melhor a vida e a mim mesma”

    Yohama Eshima, atriz, interpreta a personagem Elza na novela “Quem Ama Cuida”, da TV Globo

    “Desde criança, sempre me senti muito sensível à espiritualidade e à minha conexão com o todo. Minha família sempre incentivou a mim e aos meus irmãos a frequentarmos a igreja. Fiz catequese, crisma, mas, antes da adolescência, percebi que aquele não era exatamente um lugar onde a minha espiritualidade se sentia à vontade ou contemplada naquilo que a minha sensibilidade buscava.

    Na juventude, comecei a estudar o xamanismo e diferentes caminhos que nos aproximam da natureza, da terra, da água e do universo. Fui conhecendo outras formas de olhar para a existência e percebendo o quanto é vasta a nossa potência interna e o quanto existe uma relação profunda entre a nossa vida e tudo aquilo que nos cerca. Essa busca nunca foi exatamente por uma religião, mas por um lugar onde eu pudesse compreender melhor a vida e, principalmente, a mim mesma.

    Foi o sofrimento que me aproximou ainda mais da espiritualidade. Diante da dor emocional e de algumas adversidades, percebi que talvez não pudesse escolher tudo o que acontecia comigo, mas poderia escolher como me colocaria diante daquilo. Quando comecei a praticar e estudar o budismo, entoar o mantra, meditar e exercer o silêncio, fui percebendo que a transformação precisava começar em mim.

    Passei a compreender o sofrimento de outra maneira. A imagem budista da flor de lótus, que nasce na lama e ainda assim floresce, me toca muito. Não precisamos esperar que tudo fique perfeito para florescer. Podemos transformar aquilo que vivemos em causa para criar algo novo. Hoje, espiritualidade para mim é um estado de vida: estar presente, fortalecer a própria vida e, a partir dessa transformação, tocar e transformar também a vida ao redor.

  • Imagem
    Divulgação

    “A vida vai passando e a gente vê o óbvio: a realidade não dá conta das questões existenciais”

    Pedro Tourinho, comunicólogo, escritor e Oju Omi do terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Aganju, em Lauro de Freitas (BA)

    “Turbulência sempre foi, para mim, gatilho para Pai Nosso. Nunca fui católico-católico, mas fiz catequismo, e até hoje rezo esse mantra quando o negócio balança. E aquilo me dá uma sensação de que estou fazendo minha parte para o avião não cair. Fora da emergência, sempre fui um jovem que se gabava de ser ateu, humanista, cético e pragmático. Mas a vida vai passando e a gente vê o óbvio: a realidade não dá conta das questões existenciais. Nessa caminhada, a espiritualidade foi entrando em minha vida de forma pragmática, mas fui passo a passo sendo tomado pelo seu mistério. Espiritualidade e religião são vitelinos, mas diferentes. Vejo a religião como um código que desvenda outras dimensões da nossa realidade, os segredos. É como um filtro para enxergar além da lógica, para encontrar não um sentido, mas um sentir acima do que a razão nos ensina. Escolher uma religião é também escolher uma forma de entender e lidar com o mundo, a vida e a natureza da vida. Espiritualidade lato sensu é acreditar no mistério, nas infinitas possibilidades e dimensões que nossas existências nos dão para viver. É celebrar a ancestralidade, quem veio antes e buscou a direção da razão e do espírito. A exploração curiosa dos aspectos do sentimento, do místico, da métrica, da razão, da emoção, da idade, dramas e alegrias da vida, a transformação disso em algo justo. A espiritualidade traz outras peças para a equação da vida, e tudo fica mais intenso, vivo, colorido e potente.

  • Imagem
    Foto de Gabriel Cavalcanti

    “Graças ao Candomblé, pude me entender como sujeito coletivo”

    Lua Viana, artista, fundadora das bandas Antropoceno e sonhos tomam conta

    “Tive uma criação muito católica, mas, sendo LGBT, o cristianismo nunca fez sentido pra mim. Por isso, me tornei ateia muito cedo, por volta dos 14 anos de idade. Levei a maior parte da minha vida com convicção dessa identidade. Desde o ano passado, essa percepção mudou radicalmente. O Candomblé se colocou na minha vida num momento muito difícil e me acolheu como ninguém mais pôde. Acabei me reconectando com uma tia com quem não falava havia anos — assim como eu, ela é LGBT e macumbeira — e descobri que toda a família do meu pai tinha ligações com religiões de matriz africana, apesar de terem se afastado. Passei a entender que tinha herdado uma responsabilidade de cuidar de certas questões ancestrais e, aos poucos, fui me deixando levar. Neste ano, me tornei abiyan numa casa de axé a que devo enorme gratidão por ter cuidado muito bem de mim. O Candomblé é uma tecnologia muito sofisticada de resistência negra ao colonialismo e dá apoio a pessoas marginalizadas que não tem mais aonde recorrer. Graças ao Candomblé, pude suprir uma demanda essencial dentro do meu ser: me entender como sujeito coletivo.”

  • Imagem
    Divulgação

    “A espiritualidade é o que me ajuda a viver nesse mundo louco”

    Silvana Aluá, sommelier da Confraria das Pretas

    Eu me conectei com a espiritualidade quando pequena, desde que eu me entendo por gente, com a minha família. Primeiro com a minha mãe, que é extremamente católica e que começou a me levar em benzedeiras e na igreja. E depois, quando comecei a me conectar com outras coisas e com a espiritualidade africana foi quando que me encontrei de verdade, com uma espiritualidade que passou a guiar os meus passos. Hoje, eu sempre estou fazendo minhas práticas, minhas conexões. Dentro da minha crença, eu pratico muito junto com a natureza, com ervas e banhos — além das rezas, que são extremamente importantes. Eu acredito muito que a espiritualidade é o que me ajuda a viver nesse mundo louco, de caos, em que a cada hora aparece uma tormenta na área mundial, uma doença, uma guerra, uma pandemia. O que me ajuda é a espiritualidade, são as rezas e as crenças, a gira e o passe. É o que me tranquiliza. Tenho ela como uma válvula de escape e um complemento da vida.”

  • Imagem
    Foto de Allex Barbosa

    “Pessoas que passavam pela vida religiosa, mas Deus não passava por elas – me incluindo nisso”

    Tito Leite, poeta, ex-monge beneditino e autor de “A Casa dos Malditos” (Companhia das Letras)

    “Houve uma grande influência católica na minha formação e, desde criança, sempre senti o desejo de ter essa conexão com a espiritualidade. Quando entrei no mosteiro, queria buscar a Deus no silêncio e na solidão. Mas a forma como eu queria viver a minha espiritualidade, de repente, não era a forma como o mosteiro experimentava a dele. O que eu presenciei muito na época eram pessoas que passavam pela vida religiosa, mas Deus não passava por elas — me incluindo nisso. Quando se fala em espiritualidade, eu não vejo apenas alguém conectado a esse mistério que é Cristo, mas algo maior que nos tira da nossa imanência e do nosso senso comum. Então, eu continuo tendo uma espiritualidade, eu ainda acredito em Deus, mas não consigo viver a minha fé como antes. Eu vivo uma experiência com o sagrado longe dos bancos das igrejas, das religiões, das doutrinas e dos dogmas. Busco a Deus na minha convivência com os meus pais, com os meus irmãos, com as coisas que estão ao meu redor. E eu me sinto mais próximo dele, por incrível que pareça.”

  • Imagem
    Divulgação

    “A espiritualidade está mais presente no detalhe, nas miudezas, e é isso que me encanta tanto”

    Òkun, artista visual

    Eu me reconectei com a minha espiritualidade quando passei a honrar a história da minha família. Cuidar e zelar daqueles que estão aqui também é uma forma de cuidar de quem veio antes. Passei por alguns processos de adoecimento mental muito nova e pensava em desistir da vida. A espiritualidade chegou me tirando desse lugar e me mostrando novas possibilidades com abundância de amor. Gosto de pensar que ganhei uma chance de recomeçar, de viver experiências que me motivam a ter sonhos, de desejar o amanhã. Quando tive a oportunidade de ver meus familiares sob uma nova perspectiva, com mais carinho, comecei a entender a importância da ancestralidade que me guia. Através disso, me reencontrei nas religiões de matriz africana aos 19 anos, onde aprendi sobre respeito e comunidade. Hoje, compreendo que a espiritualidade está em todo lugar, no prato que a gente come, na planta que a gente colhe, no banho de rio que a gente toma, no olhar, nas trocas, nos momentos bons e ruins. Aí é quando a gente percebe que a espiritualidade está mais presente no detalhe, nas miudezas, e é isso que me encanta tanto.”

Um assunto a cada sete dias