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Semana

Discos guiados por fé, espiritualidade e ancestralidade

Uma seleção de trabalhos musicais recentes que exploram diferentes tradições, crenças e formas de relação com o sagrado

Amauri Terto 30 de Agosto de 2026

Discos guiados por fé, espiritualidade e ancestralidade

Amauri Terto 30 de Agosto de 2026

Uma seleção de trabalhos musicais recentes que exploram diferentes tradições, crenças e formas de relação com o sagrado

  • “Equilibrivm” (2026), de Anitta

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    Depois de colocar o funk carioca em rota internacional e alcançar números inéditos para uma artista brasileira no exterior, a popstar deixou os holofotes em busca de equilíbrio e autoconhecimento. Devota do candomblé por incentivo do pai e filha de mãe católica, Anitta retornou às raízes com este projeto de grande porte (são 32 músicas no total), dividido em duas partes — Equilibrivm e Equilibrivm II —, além de um registro audiovisual, que reúne um panteão de estrelas nacionais, de Liniker a Maria Bethânia, para cantar sobre fé, ancestralidade e cura. Uma obra ecumênica que vai do mantra à celebração de orixás.

  • “Lux” (2025), de Rosalía

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    Fenômeno global do pop em 2025, com passagem da turnê pelo Rio de Janeiro em agosto deste ano, o recente álbum da cantora e compositora espanhola aborda a espiritualidade a partir da devoção das mulheres. Rosalía passou alguns anos pesquisando a vida de figuras religiosas e místicas, como Santa Teresa de Ávila, Santa Clara de Assis e a monja budista Ryōnen Gensō, trazendo para suas composições temas como o transe, a dor emocional, o êxtase e a busca pelo divino. O resultado é uma obra experimental e complexa, pop e sinfônica, cantada em 13 idiomas diferentes, que conecta de forma bem particular o sagrado e o profano.

  • “No Ritmo da Terra” (2026), de Antropoceno

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    O álbum mais recente do projeto autoral da compositora Lua Viana é a segunda parte de uma trilogia inspirada no pensamento do líder indígena, ambientalista e filósofo Ailton Krenak. A partir do conceito de “Futuro Ancestral”, ela toma saberes ancestrais como ponto de partida para pensar um futuro que o humano não perca a conexão com a natureza. Cantado em português, iorubá e tupi antigo, o disco aproxima cantos de candomblé e capoeira de costuras sonoras de post-rock, afoxé e avant-garde metal, além gravações de campo da Amazônia e participações de Gabi d’Oyá e Pai Viny.

  • “New Blue Sun” (2023), de André 3000

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    O rapper americano, metade do duo Outkast (responsável por “Hey Ya!”, megahit dos anos 2000), quebrou um hiato de 17 anos sem lançar material inédito com este disco totalmente instrumental. Com mais de duas décadas de estudos com flautas de madeira, o artista troca a microfone pelo sopro em oito faixas, que somam quase 90 minutos de improviso ao lado de músicos que usam sinos, pratos e até percussão feita com plantas. O trabalho ecoa a tradição do jazz espiritual e é descrito como um “organismo sonoro vivo”.  Em entrevista à NPR, André 3000 contou que uma experiência com ayahuasca foi o pontapé inicial para o trabalho.

  • “Iboru” (2023), de Marcelo D2

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    O título do nono álbum solo de Marcelo D2, uma saudação em iorubá, anuncia uma mudança de abordagem do rapper carioca. Em vez de incorporar o samba ao rap, como em trabalhos anteriores, o artista mergulhou na tradição e cultura de terreiro para criar um disco de samba autoral com a atitude do hip-hop: repleto de colagens, interlúdios e trechos de diálogos. O repertório reúne participações que vão de Alcione a Mateus Aleluia, passando por Metá Metá, Zeca Pagodinho e Xande de Pilares, e articula ideias sobre ancestralidade e fé de matriz africana, celebrando a identidade afro-brasileira.
  • “Y’Y” (2024), de Amaro Freitas

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    O aclamado pianista e compositor pernambucano investiga a ancestralidade indígena e os sons da Amazônia em seu quarto álbum de estúdio, que traz no título uma palavra em Nheengatu para “água”. Amaro Freitas se afasta do ritmo mais acelerado dos trabalhos anteriores e transforma seu instrumento de trabalho em um novo ecossistema, por meio da técnica de piano preparado, usando sementes e objetos para reproduzir sons e ritmos da floresta.  Dividido entre faixas solo e colaborações com nomes do jazz internacional, como Shabaka Hutchings e Brandee Younger, o álbum conecta o jazz contemporâneo às raízes ancestrais do Brasil.
  • “Everybody Scream” (2025), de Florence + The Machine

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    Uma experiência de quase-morte da vocalista britânica Florence Welch deu origem a este sexto álbum de sua banda. Nele, a cantora e compositora usa o grito, a dança e referências ao paganismo como formas de exorcizar traumas e de celebrar a sobrevivência. Em clima que transita entre o sombrio e o ritualístico, com vocais expressivos e arranjos orquestrais dramáticos — característicos do grupo —, o trabalho reflete sobre dor física, luto e transcendência, apontando uma busca pelo divino longe de igrejas tradicionais e mais perto do próprio corpo e da vontade de viver.

  • “Vanguardah” (2026), de Vandal

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    Pioneiro no Brasil do grime e do drill, subgêneros enérgicos da música urbana, o rapper baiano lançou seu trabalho mais recente propositalmente no Dia de Santa Dulce dos Pobres (13/8) — santa da qual é devoto por influência da avó, Neuza, e por vivência própria no Hospital Santo Antônio, das Obras Sociais Irmã Dulce — e que aparece tanto identidade visual quanto no corpo do disco. Em dez faixas, Vandal aborda fé, memória e identidade em um cruzamento de rap, grime e drill com pagodão baiano, samba-reggae e o som da Orquestra Afrosinfônica. Nesse rico caldeirão sonoro participam também Russo Passapusso, Josyara, Livia Nery, Giovani Cidreira, Hiran e KL Jay.
  • “M.I.7” (2026), de M.I.A.

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    Com show em São Paulo marcado para o próximo mês de novembro, a cantora e produtora britânica de origem tâmil (etnia do Sri Lanka) usa o livro bíblico do Apocalipse como inspiração para seu disco mais recente. Nome de vanguarda nas décadas de 2000 e 2010, M.I.A. chocou sua base de fãs nos últimos anos, tanto pela conversão ao cristianismo evangélico quanto pela postura anti-vacina e adesão a teorias da conspiração. No disco, ela relaciona profecias bíblicas ao avanço da inteligência artificial e ao controle digital, criando um manifesto de roupagem eletrônico que mistura fé e visões conspiratórias para pensar o colapso do mundo moderno.
  • “Segunda-feira” (2024), de Sued Nunes

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    Natural de Sapeaçu, no Recôncavo Baiano, a cantora e compositora faz de Exu, associado aos caminhos, comunicação e transformação, o eixo de seu segundo disco de estúdio — a começar pelo título, que remete ao dia da semana regido pelo orixá. Ao longo de dez faixas, Sued Nunes canta sobre questões do amor, ancestralidade e da fé de matriz africana em arranjos que mesclam tambores de terreiro, samba de roda e batidas eletrônicas. É um trabalho que traz à tona os vínculos entre a Bahia negra e o continente africano, contando ainda com participações de Dona Dalva do Samba e do grupo nigeriano Kabusa Oriental Choir.
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