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Bloco de notas

Audiolivros para escutar a dois

No carro ou antes de dormir, veja sugestões de obras para ouvir ao lado de quem você ama

Audiolivros para escutar a dois

Leonardo Neiva 19 de Julho de 2026

No carro ou antes de dormir, veja sugestões de obras para ouvir ao lado de quem você ama

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    No contexto político instável do Egito da década de 1980, dois homens vivem um romance secreto e conflituoso na cidade do Cairo. Narrativa central de O Que Sei de Você” (Supersônica, 2026, trad. Letícia Mei), do canadense Éric Chacour, agora é possível acompanhar a história de Tarek e de seu ajudante Ali na voz do ator Johnny Massaro, numa nova versão em audiolivro. A obra revela aos ouvintes os conflitos internos do protagonista, que integra uma família matriarcal religiosa, com potencial para gerar debates profundos sobre o impacto das expectativas familiares e a impossibilidade de fugir dos próprios desejos. Inclusive, Chacour e Massaro debatem o livro na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), às 16h do dia 25 de julho, com mediação da editora da Supersônica, Maria Carvalhosa. O evento acontece na Casa Sete Selos + Gama, Megafauna e Supersônica, na loja Flavia Aranha, no coração de Paraty.

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    Se quiserem acompanhar também fora das telas a nova adaptação épica do cineasta Christopher Nolan, uma boa pedida é escutar a dois a versão recém-lançada em audiobook da “Odisseia” (Penguin-Companhia, 2026, trad. Frederico Lourenço), de Homero. São mais de 18 horas de áudio, na voz do ator Gustavo Falcão, para ouvir de preferência em doses homeopáticas diárias. Afinal, a viagem do rei de Ítaca, Odisseu — ou Ulisses, em latim — de volta ao lar é narrada em mais de 12 mil versos. Passando pela batalha contra o ciclope Polifemo, a perigosa atração das sereias e a prisão na ilha de Calipso, trata-se de uma das jornadas mais impactantes da literatura, que imortalizou personagens como a esposa Penélope e a feiticeira Circe. E cujo título ainda hoje é usado para descrever qualquer viagem longa e repleta de aventuras.

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    Nada como redescobrir alguns contos de Machado de Assis ao lado de quem a gente gosta. Melhor ainda se for uma seleção com cinco das melhores histórias sobre amor e relacionamentos escritas pelo maior dos autores brasileiros. Na coletânea “O Amor em 5 Contos” (Supersônica, 2023), a atriz Sandra Corveloni, vencedora do prêmio de Melhor Interpretação Feminina em Cannes pelo filme “Linha de Passe” (2008), interpreta contos clássicos de Assis, como “A Cartomante” e “Missa do Galo”. Organizado pela diretora Daniela Thomas, o audiolivro evoca as paixões, atrações e relações entre homens e mulheres, com personagens que, frente ao abismo que é o amor, acabam se apoiando na sorte, na ignorância, no cuidado e até, em último caso, nos sentimentos mais obscuros da alma.

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    Trabalhando como garçonete em um restaurante na região da Avenida Paulista, a protagonista de “Tudo Pode Ser Roubado” (Todavia, 2024), de Giovana Madalosso, levanta dinheiro nas horas vagas roubando roupas de grife e objetos de valor das casas de pessoas aleatórias. Até que, certo dia, um desconhecido lhe oferece uma bolada para furtar um livro — mas não um livro qualquer, e sim uma obra raríssima: a primeira edição de “O Guarani”, de 1857. Uma daquelas histórias impossíveis de largar, a obra ganha urgência ainda maior narrada pela voz da própria autora. Enquanto a personagem mergulha num estranho submundo de milionários, drogas, sexo e Bar Mitzvahs de luxo, o desafio mesmo vai ser vocês dois concordarem em dar uma pausa e deixar a continuação dessa narrativa viciante para o dia seguinte.

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    Antes de doar sua afeição a terceiros, o amor próprio e o conhecimento de si mesmo são pré-requisitos. Por isso, escutar a dois qualquer audiolivro que levante esses pontos é sempre uma atividade muito bem-vinda. O clássico “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” (Rocco, 2024), de Clarice Lispector, narra justamente a jornada de amadurecimento e autodescoberta vivida por Loreley — Lóri para os íntimos — e sua espera até se entregar para Ulisses. Novamente, a célebre escritora aplica aquilo que faz de melhor: explorar a alma da protagonista, professora primária, além da viagem que faz para dentro de si, neste caso com a mentoria do experiente professor de filosofia, à procura da autenticidade e dos prazeres da vida. Na voz da atriz, cantora e dramaturga Beth Goulart, é uma sessão perfeita para ouvir sobre um amor mais pleno, maduro, e todos os estranhamentos que vêm embutidos, especialmente quando se está ao lado de um parceiro ou parceira.

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    Pouca coisa lembra mais as raízes e tradições familiares do que a comida. É por causa dela que você encontra a cantora e escritora Michelle Zauner soluçando em um corredor do H Mart, rede de mercados norte-americana especializada em ingredientes asiáticos. Em “Aos Prantos no Mercado” (Fósforo, 2024, trad. Ana Ban), a autora e protagonista surge num momento de luto pela mãe, em que se questiona se ainda pode se considerar coreana e lamenta por não ter alguém para quem perguntar qual marca de alga desidratada comprar. Uma obra perfeita para ouvir em casal, porque toca em temas profundos sobre família e tradição, o relato pessoal da vocalista da banda de indie pop Japanese Breakfast coloca em perspectiva as divergências do passado e lembra que a comida pode ser um tipo de linguagem repleta de afeto e pertencimento. Com narração de Tatiana Ye Ni Choi, o livro é capaz de gerar tanto lágrimas quanto risos ao tratar de maneira sensível do distanciamento e da reconexão com nossas origens.

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    Para os casais que acreditam em um afeto rígido e com moldes pré-instaurados, sem mudanças na rota, a escritora, ativista e psicóloga indígena Geni Núñez traça outras possibilidades. Segundo a autora, também conhecida pelo sucesso de “Descolonizando Afetos” (Paidós, 2023), ser, estar e se relacionar não possuem fórmulas, muito menos uma única forma correta. “Felizes Por Enquanto” (Planeta, 2026), narrado por Núñez e pela atriz e contadora de histórias Gabriela Lois, reflete sobre as imposições geradas por normas sociais que persistem desde a colonização e encara os relacionamentos amorosos com carinho e atenção — leia também um trecho do livro aqui.

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    Para discutir e aprender juntos sobre temas centrais, como ancestralidade negra e as raízes de todos nós brasileiros, o audiolivro “Filosofias Africanas: Uma introdução” (Civilização Brasileira, 2025), escrito pelos ganhadores do Prêmio Jabuti Nei Lopes e Luiz Antonio Simas, é uma oportunidade única de dar um profundo mergulho no pensamento tradicional do continente além-mar. Com narração de Lorran Costa, a obra evidencia a complexidade e sofisticação da filosofia africana e contraria, de maneira bastante didática, a hierarquização de uma vertente intelectual eurocêntrica que insiste em colocar a África como mera discípula. Além disso, traz ensinamentos da oralidade, saberes ancestrais e sua preservação nos provérbios populares, muitos dos quais foram atualizados por autores como Achille Mbembe, Frantz Fanon e Kimbwandènde K. B. Fu-Kiau.

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    Atuando num dos gêneros mais tradicionais da literatura brasileira, em “Mas em Que Mundo Tu Vive?” (Todavia, 2023), o escritor José Falero cria crônicas que misturam ficção, ensaio e crítica, convocando desde o título os ouvintes dispostos a questionar sua própria realidade. Em textos sobre e para o dia a dia, feitos sob medida para escutar e debater em pequenas porções, o autor introduz momentos reflexivos à rotina a partir de sua indignação, lirismo e perspicácia característicos. Narradas pelo próprio Falero, estas crônicas retratam o cotidiano na periferia de Porto Alegre, o mundo do trabalho e a busca dos personagens por um rumo na vida, expandindo o universo de “Os Supridores” (Todavia, 2020), seu primeiro romance.

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    A simples paixão ganha contornos muito mais densos através da escrita límpida e direta da vencedora do Nobel Annie Ernaux. Por outro lado, a voz da atriz e dramaturga Isabel Teixeira empresta à narrativa autoficcional de “Paixão Simples” (Supersônica, 2024, trad. Marília Garcia), a respeito de um amor quase indescritível vivido pela autora, doses de uma profundidade melancólica. Publicado originalmente em 1992, o livro relembra o momento em que, divorciada e mãe de dois filhos, a escritora francesa se viu enamorada por um homem estrangeiro e casado. Com pouco mais de uma hora de duração, ouvir esta obra pode gerar excelentes reflexões em casal sobre o ato de se apaixonar e a capacidade inata do amor de transformar até mesmo nossa percepção sobre o tempo.

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