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Reportagem

Ficar offline é mesmo o novo luxo?

Na era da hiperconexão, experiência offline passa a ser vista como privilégio e até produto de grife… mas será uma questão de escolha?

Leonardo Neiva 05 de Abril de 2026

Ficar offline é mesmo o novo luxo?

Leonardo Neiva 05 de Abril de 2026

Na era da hiperconexão, experiência offline passa a ser vista como privilégio e até produto de grife… mas será uma questão de escolha?

Se, por um algum milagre, alguém decidisse reviver a extinta MTV Brasil, não seria difícil atualizar o antigo slogan do canal que marcou a música no país: “Desligue a TV e vá ler um livro”. Com a audiência da televisão em queda livre, provavelmente a frase seria repensada como algo do tipo: “Desligue o celular e vá ler um livro” ou “saia das redes e vá ler um livro”.

Verdade que, com o recente ponto final definitivo dado aos canais da MTV no Brasil e no mundo, esse cenário é quase impossível. Mas, mesmo sem a emissora, ouvimos cada vez mais alertas como esses por todos os lados, conforme Instagram, TikTok e agora a IA são mais e mais vistos como inimigos da nossa saúde mental e até da capacidade de raciocinar de forma plena. E, por mais que pareça improvável na era da hiperconectividade, parece que os avisos têm dado resultado.

Ano passado, o fenômeno conhecido como “feed zero” desafiou o que acreditávamos saber sobre a progressão constante do online nas nossas vidas. Após duas décadas de crescimento do domínio das redes, houve uma queda abrupta no número de postagens. Segundo uma pesquisa da Morning Consult, mais de um terço dos usuários afirmaram estar postando menos do que no ano anterior. E a maior queda ocorreu entre adultos da geração Z.

Ao mesmo tempo, expressões como “detox digital” e “redução do tempo de tela” passaram a fazer parte do nosso vocabulário como uma sutil resistência à vertiginosa cavalgada das novas tecnologias. Esse movimento, na visão do comunicador e consultor André Carvalhal, especialista em design sustentável, acontece num cenário em que estar cronicamente conectado responde por uma série de outras desconexões nas nossas vidas: com as outras pessoas, com a natureza e até com nós mesmos.

O psiquiatra Arthur Guerra, especializado em dependência, saúde mental e medicina do estilo de vida, concorda que hoje existe uma procura constante por viver mais offline. O ambiente em geral bastante tóxico das redes, afirma, torna natural querer se distanciar com alguma frequência. No entanto, essa busca nem sempre é bem-sucedida. Afinal, o online está em quase tudo: ele dá as cara do momento em que ligamos o celular até quando arriscamos uma simples espiada no relógio.

E há outro problema ainda mais enraizado na cultura contemporânea, aponta o psiquiatra: “A gente vive numa cultura onde o modelo é ser mais produtivo. A cultura do nosso mundo é ter mais conhecimento, mais atendimento, mais dinheiro, mais poder, tudo.”

Com um pano de fundo como esse, é praticamente impossível vivenciar hoje um momento de desconexão total, afirma Carvalhal, autor do livro “A Alegria em Ficar de Fora” (Agir, 2025), sobre os prazeres de viver menos através de telas. Então, sem almejar o desaparecimento completo do online, “desconectar-se seria desligar o excesso e promover uma conexão equilibrada. Esse é um movimento que tem crescido cada vez mais”, complementa o especialista.

Para Carvalhal, a busca tem sido até maior entre as gerações mais novas, que já nasceram nesse mundo e sofrem desde cedo com a sobrecarga da hiperconexão, ao mesmo tempo em que casos de dependência vêm crescendo entre os mais velhos. Guerra também reforça que, entre os jovens, o movimento acompanha a busca por uma maior qualidade de vida, tendência hoje bastante identificada com a ideia de passar mais tempo fora das telas.

Um dos maiores desafios para quem quer abandonar as redes, ainda que por um curto espaço de tempo, é a pura necessidade: muitos de nós não temos escolha a não ser nos conectarmos dia após dia seja para estudar, pesquisar, se manter atualizado, buscar emprego ou produzir mais etc. “Num mundo dominado por IA, pela escassez e uma série de crises, ter a chance de escolher qualquer coisa, seja estar offline ou o que comer, é um privilégio”, resume Carvalhal. Nesse contexto, se antes estar ausente das redes ou não postar no feed era visto como um descompasso com o mundo real, hoje isso pode ter virado não só um privilégio, mas talvez um luxo reservado para poucos.

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Ostentando tempo livre

É o luxo, no seu sentido literal, que a revista norte-americana Fortune usa para descrever a valorização das experiências offline entre os super-ricos — tendência que já vem causando estragos no caixa de marcas tradicionalmente voltadas aos endinheirados, como Dior, Versace e Burberry. Enquanto o mercado é inundado por imitações baratas e outras alternativas para bolsas ou acessórios que custam milhares de reais, reduzindo o valor simbólico de mercadorias de grife, a reportagem lista a privacidade, o tempo offline e o lazer como os novos indicadores de status e luxo.

“Com cada vez mais pessoas presas num loop crônico, rolando o feed noite e dia, desconectar-se vira ostentação”, aponta o consultor de estratégia de marca e criador de conteúdo Eugene Healy num vídeo destacado pela publicação. O texto enfatiza que até não precisar da eterna corrente de informações online para se informar sobre as últimas tendências ou a respeito dos melhores restaurantes pode ser uma forma de distinção:

Com cada vez mais pessoas presas num loop crônico, rolando o feed noite e dia, desconectar-se vira ostentação

“Quando uma pessoa ainda conhece todos os restaurantes cool e marcas estilosas, mas não os encontrou na internet, ela mostra uma proximidade genuína com a riqueza. Não é preciso pesquisar pelos melhores bares de coquetéis; essas pessoas existem numa faixa salarial que já frequenta os lugares mais badalados.”

A consultora Tamara Lorenzoni, especializada em concepção e gestão de marcas de alto padrão, reforça essa tendência, destacando que não se trata exatamente de uma rejeição à tecnologia, mas sim a possibilidade de escolher os momentos em que ela entra e sai de cena em nossas vidas. A especialista aponta que viajantes de luxo são de duas a três vezes mais propensos a dizer que viajam para se desconectar dos dispositivos digitais e conhecer novas pessoas, na comparação com representantes do turismo em massa, segundo pesquisa da consultoria McKinsey. “Ou seja, na linguagem do luxo, o offline começa a ganhar valor justamente porque virou escassez.”

Quando o acesso ao consumo visual se democratiza, o que volta a diferenciar é a capacidade de proteger o próprio tempo e escolher como vivê-lo

Se antes o status estava intimamente ligado àquilo que se podia mostrar aos outros, Lorenzoni revela que essa realidade vem migrando na direção contrária: “tempo livre, autonomia sobre a agenda, privacidade, silêncio e a possibilidade real de se ausentar” se tornam os principais marcadores de luxo numa alta sociedade que hoje foca em longevidade, saúde e bem-estar. “Quando o acesso ao consumo visual se democratiza, o que volta a diferenciar é a capacidade de proteger o próprio tempo e escolher como vivê-lo”, afirma.

Detox de grife

Prova disso é que um mundo mais dependente da vida online transforma em luxo, especialmente nas áreas de grande urbanização, coisas que antes pareciam simples como o contato direto com a natureza, diz a especialista em tendências Iza Dezon, sócia-fundadora da agência de consultoria estratégica DEZON.

“Hoje, com a produtização do bem-estar, a noção de desconexão é um símbolo de algo muito escasso e exclusivo”, declara. Assim, a noção de isolamento digital, no princípio associada a questões negativas, passa a trazer consigo uma aura de exclusividade e interesse. “Parecem ser pessoas que estão se dedicando profundamente a alguma coisa e podem se permitir o luxo de evitar esse ruído imperativo de estar conectado.”

Quem assistiu à última temporada da série “The White Lotus” (2021-) vai lembrar que todos os recém-chegados são instados a deixar seus celulares na entrada do luxuoso resort tailandês onde a narrativa se passa. Por mais que a imposição tenha causado problemas a um certo empresário na série, a prática hoje não é nada incomum entre os super-ricos.

Parecem ser pessoas que estão se dedicando profundamente a alguma coisa e podem se permitir o luxo de evitar esse ruído imperativo de estar conectado

Experiências relacionadas a hospitalidade, cruzeiros e fine dining cresceram acima da média em 2025, segundo relatório da consultoria global Bain. Lorenzoni reforça que é visível a procura pela desaceleração, pela criação de memórias afetivas e a reconexão humana, que passam a ser parte central desse valor. A especialista ainda cita exemplos como o da rede de hotéis Mandarin Oriental, do resort norte-americano Amangiri e do Four Seasons, que, assim como o ficcional White Lotus, já oferecem aos hóspedes experiências variadas de detox digital.

Mas não só isso. Até marcas tradicionais do luxo vêm expandindo sua atuação para experiências mais amplas de estilo de vida: “Gucci com restaurantes, Chanel com os eventos art of living e a controladora da Louis Vuitton avançando em experiências de viagem curadas”, exemplifica Lorenzoni.

Mas há escolha?

Na temporada do Oscar, Wagner Moura surpreendeu muita gente por não ter perfil oficial nas redes — e se mostrar plenamente feliz com a escolha. Mas o fato não causou tanto estranhamento assim em Hollywood, onde atores como Scarlett Johansson, Denzel Washington, Ryan Gosling e Margot Robbie também permanecem ausentes da vida online. Entre as celebridades, aliás, o tal detox digital é bem comum aqui no Brasil, com famosos como Luísa Sonza, Boca Rosa e Whindersson Nunes já tendo anunciado pausas para focar na vida offline.

Para Carvalhal, o exemplo de Moura rompe a supervalorização do número de seguidores para conseguir projeção e até um emprego em diversas áreas, em especial as artísticas. “A gente viu o exemplo de uma pessoa que não precisou disso, teve o seu trabalho reconhecido e uma grande presença digital por conta da grande campanha de outros artistas e fãs“, aponta.

Outro fenômeno curioso evocado por Dezon, que ilustra um movimento semelhante, é o interesse crescente por séries situadas num passado “em que a gente não tinha telefone, onde, se você tinha um compromisso, só tinha aquele compromisso”. Devido a tendências como essa, ela acredita que, num futuro ainda ainda mais conectado, também devemos passar a valorizar cada vez mais os momentos de respiro e ilhas de desconexão pelo caminho.

A especialista evoca uma experiência reveladora, em que um amigo confessou que estava havia dois anos off no Instagram. “Um jornalista que estava com a gente respondeu: ‘Que luxo! É meu sonho'”, narra Dezon. “E é realmente um tipo de luxo se desconectar, não ter um smartphone e ainda manter um trabalho se permitindo ficar de fora desse circuito que se criou de relevância, ou pseudorrelevância, do digital.”

É realmente um tipo de luxo se desconectar, não ter um smartphone e ainda manter um trabalho se permitindo ficar de fora desse circuito

Por outro lado, Carvalhal acende um alerta importante. Ele hesita em associar diretamente a vida offline a um privilégio representado apenas por pessoas ricas, que em sua maioria não precisam se expor nas redes para buscar dinheiro ou trabalho. “Acho essa uma relação perigosa, porque denuncia um senso comum de que as redes deixaram de ser sociais e passaram a ser só comerciais.” Ou seja, seria aceitar que elas existem apenas para publicidade e autopromoção.

O comunicador lembra que há muitas pessoas que não são ricas e, mesmo assim, não têm necessidade de estar cronicamente online, pois suas áreas de atuação não dependem disso. Mas, adverte, elas ainda devem ser protegidas das redes, “que foram criadas para viciar, para modificar nosso sistema neural de recompensa, de engajamento e de felicidade.” Em muito desses casos, o problema não é estar online por necessidade, mas sim um impacto calculado das redes na vida das pessoas, para as quais se desconectar deixa de ser uma questão de escolha, considera Carvalhal.

“Quando a gente fala sobre a importância de estar offline, de encontrar um equilíbrio e também ter políticas públicas e uma responsabilização das plataformas, são todas coisas que fazem parte dessa nova consciência digital que precisamos assumir. E não valem só para pessoas cujo trabalho depende das redes.”

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