Como vencer o vício no celular, nas redes sociais, no mundo digital? — Gama Revista
Vício em telas?
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Artur Debat / Getty Images

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Semana

Somos todos viciados digitais?

Com os celulares ao nosso alcance quase todo o tempo, a sensação é de que sim  — mas nem todos os casos são de dependência extrema e pequenas atitudes podem prevenir esse quadro

Mariana Payno 25 de Outubro de 2020

Somos todos viciados digitais?

Mariana Payno 25 de Outubro de 2020
Artur Debat / Getty Images

Com os celulares ao nosso alcance quase todo o tempo, a sensação é de que sim  — mas nem todos os casos são de dependência extrema e pequenas atitudes podem prevenir esse quadro

“Só não tenho uma tela na minha frente quando estou no banho”, me disse uma amiga por esses dias, quando debati em alguns grupos o tema deste texto. A impressão de quase todas as pessoas com quem conversei era parecida: “Acho que sou levemente viciada em internet, mas talvez um pouco mais do que isso” — eu mesma me identifiquei com a amiga que só descansa os olhos dos pixels quando embaixo do chuveiro. Por aquelas conversas, parecíamos uma horda de viciados digitais, sobretudo nestes tempos em que muitos ainda estão trabalhando de casa, sem encontrar amigos e familiares fisicamente. Mas será que podemos nos considerar assim, viciados? Qual é a fronteira entre o uso desmedido e o diagnóstico real de dependência da internet?

Embora ainda não seja reconhecido pela Organização Mundial de Saúde +, o Transtorno de Vício em Internet é identificado pela Associação Americana de Psicologia como uma dependência análoga à de substâncias como álcool e drogas. Estima-se que 50 milhões de pessoas no mundo sofram dele; no Brasil, esse número pode chegar a 4,3 milhões, já que somos o terceiro país no ranking de horas diárias gastas na internet — em média, os brasileiros passam nove horas e 17 minutos por dia navegando online +. E a dependência em internet se bifurca por várias abas: games, redes sociais, compras, pornografia, bolsa de valores e sites de aposta são algumas das atividades que podem prender o usuário à rede por horas a fio.

Se há sacrifício de atividades básicas do dia a dia para permanecer conectado, é hora de levantar uma bandeira vermelha

Pode ser que, a esta altura da leitura, você se sinta parte das milhões de pessoas acometidas por esse mal — afinal, a impressão é a de passar muito mais tempo do que deveria apegado ao seu celular ou computador. Mas calma: há alguns critérios para fechar o diagnóstico de dependência grave. “Para considerar que o uso está se tornando dependência precisamos ter pelo menos três características: um padrão de alto envolvimento, prejuízos sociais, acadêmicos ou profissionais e sintomas de abstinência”, explica Fernanda Calixto, doutora em psicologia e pesquisadora no Paradigma, Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento.

A plataforma de conteúdo Contente.vc, criada pela jornalista Daniela Arrais e pela publicitária Luiza Voll, propõe reflexões sobre uma vida digital mais atenta e conscienteContente.vc / Tereza Bettinardi

Se há sacrifício de atividades básicas do dia a dia — comer, dormir, se exercitar, ir às aulas ou ao trabalho — para permanecer conectado, é hora de levantar uma bandeira vermelha, segundo Hilarie Cash, co-fundadora da clínica Restart, em Bellevue, nos EUA. “Tem a ver com a perda de controle”, diz ela a Gama. Cash é pioneira no tratamento dos vícios digitais, principalmente os relacionados a videogames — ela lida com casos assim desde meados dos anos 1990 e abriu a clínica, a primeira do tipo nos EUA, na virada do século. A psicóloga conta que muitos dos seus pacientes também desenvolvem quadros de ansiedade e depressão. “Eles sentem que estão falhando em suas vidas.”

O vício sorrateiro

Mesmo sem corresponder a esse diagnóstico mais sério, muitas vezes temos a sensação de que estamos viciados — coisa que o publicitário e professor de cultura digital Felipe Teobaldo, 33, percebeu muito antes de a maioria dos brasileiros ter um smartphone. Em 2012, ele criou um experimento, batizado de “100face”: 100 pessoas tentariam ficar 100 dias sem usar o Facebook e relatariam suas experiências em um blog. “À medida que os textos iam entrando, fazíamos uma qualificação das palavras. Há quase dez anos, já estava claro que aquelas que definiam a experiência eram ‘recaída’, ‘vício’, ‘ausência’, ‘depressão’”, conta.

A pior parte, diz ele, é que a maioria dos participantes eram pessoas que não queriam mais usar a rede social, mas não conseguiam sair — Teobaldo foi o único que aguentou até o centésimo dia. “E voltei absolutamente deprimido, isolado. Imagina que você está em uma sala grande e confortável, com tudo que você quer, mas no quarto ao lado está rolando uma festa e dá para ouvir todo mundo ali, se divertindo, menos você. Não é uma questão de contemplar o próprio espaço, mas de sentir angústia por não participar.”

Do outro lado da tela, estão engenheiros cujo objetivo é fazer com que você navegue por mais tempo do que imaginou

“O que acontece é que essas plataformas não são neutras”, observa o psicólogo Cristiano Nabuco, coordenador do grupo Dependência de Internet, um braço do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas para tratar o transtorno. “Do outro lado da tela, estão engenheiros cujo objetivo é fazer com que você navegue por mais tempo do que imaginou. São mecanismos que atuam de forma silenciosa, atualizados continuamente, então a gente não consegue se proteger.” Quem se impressionou com o documentário “O Dilema das Redes”, lançado recentemente pela Netflix, que o diga: no filme, ex-funcionários das maiores empresas de tecnologia do mundo explicam os artifícios de redes como o Facebook e o Youtube para manter os usuários conectados pelo maior tempo possível.

O professor de história Bruno dos Santos, 33, é um dos que às vezes cai nesse buraco negro, dando um play atrás do outro em vídeos do Youtube. “Na época em que eu estava escrevendo meu doutorado, quando me dava conta, estava assistindo um vídeo sobre qualquer coisa. O Youtube vai me sugerindo coisas e eu vou assistindo”, diz. Ele imagina que passa cerca de duas horas por dia na plataforma e que o gatilho são os momentos de descanso entre uma atividade e outra da rotina. “Às vezes vou dar uma pausa de dez minutos e, de repente, passou meia hora e ainda estou no Youtube. Isso acaba me atrapalhando um pouco.”

Uma das discussões levantadas pela Contente.vc é sobre o tempo de uso de telas pelas crianças. Afinal, a dependência de internet pode começar desde cedoContente.vc / Tereza Bettinardi

Sem tédio, com dopamina

Parte do problema é justamente essa: ao toque do dedo, temos milhares de estímulos para ocupar cada segundo do nosso tempo livre — e não exatamente de uma forma saudável. “Muitas vezes é uma sensação de estar passando o tempo de maneira apática, no automático. O tédio acaba sendo ocupado por atividades que não seriam necessárias se nós tivéssemos o costume de fazer nada, que pode, sim, ser confortável”, observa Fernanda Calixto. E o perigo é que, aos poucos, os aparentemente relaxantes e inofensivos momentos de rolagem de feed podem causar problemas. “Não é preciso estar em um quadro de dependência para ter prejuízos de sono, humor, produtividade”, diz a psicóloga.

A jornalista Daniela Arrais, 37, criadora da Contente.vc, plataforma de conteúdo para uma vida digital consciente, tem refletido cada vez mais sobre o uso excessivo e “empobrecido” da internet — mesmo assim, muitas vezes ela se pega nesses momentos de preencher o vazio checando o Instagram. “A atividade que mais toma meu tempo acontece quando eu abro uma rede social só para lidar com o tédio ou com o cansaço”, conta ela. “Estou cheia de coisa para fazer, fiz algumas, aí abro o Instagram para dar aquele respiro, ou para obter aquela recompensa depois de terminar uma tarefa, uma dose de dopamina. Quando faço isso com intenção, é legal, um respiro, tipo o recreio da escola.”

Nós somos seres viciados e conforme surgem coisas potencialmente prazerosas, novos vícios vão surgir

Não é à toa que Arrais busca pequenas porções de alegria nas redes sociais: essa é, afinal, a explicação biológica para todos os tipos de vício. “Nós somos seres viciados e conforme surgem coisas potencialmente prazerosas, novos vícios vão surgir”, explica Calixto. Acontece mais ou menos assim: ao fazermos uma coisa que nos dá prazer — e aqui cabe de tudo, do uso de substâncias ilícitas ao consumo de comida ultraprocessada, passando pelos videogames, pornografia e likes —, ganhamos uma injeção de dopamina (o “hormônio da felicidade”) e agradamos nosso cérebro, que fica querendo mais e mais daquilo, podendo chegar ao ponto de desenvolver uma dependência bioquímica.

O prazer, no entanto, pode ser passageiro, e aí vem o famoso rebote — aquele arrependimento que bate quando sabemos que a coisa toda já começou a nos fazer mal, mas seguimos presos ali sem saber direito por quê. É aí que o recreio da escola dá lugar à sensação de tempo perdido; e a dopamina, à ansiedade. “Quando me perco com o dedinho nervoso entre feed e stories e de repente já nem sei o que estava fazendo ali, me sinto vítima da minha ansiedade e também do desenho das redes, do modelo de negócios que elas adotam, sugando nossa atenção e nosso tempo o tempo todo”, diz Arrais.

O uso apático da internet, que muitas vezes nos toma um tempão, é outro questionamento proposto por Daniela Arrais e Luiza Voll na Contente.vcContente.vc / Tereza Bettinardi

Ainda mais na pandemia, quando as telas viraram o lugar onde quase todas as coisas da vida acontecem. Mesmo para aqueles que, saturados das plataformas mil, tentam dar um tempo é fácil ter uma espécie de “recaída”. “Depois de fazer alguns ‘detox’, fui entendendo que não adianta muito criar esses momentos de privação, porque depois é fácil voltar a um fluxo igual ao anterior”, avalia a jornalista. “Para mim vale mais trazer a consciência para o dia a dia, criar pequenas estratégias que fazem diferença. Duas coisas que faço que me ajudam muito: deixo o celular em modo avião ao menos uma hora antes de dormir, também deixo ele assim uma hora depois que acordo. Tem dia que não consigo? Claro. Mas já virou um hábito.”

As dicas de Arrais vão ao encontro das recomendações dos especialistas ouvidos por Gama. Enquanto a maioria das nossas tarefas e atividades segue mediada pelas telas, é difícil não cair na tentação e naquele sentimento, que descrevi no começo do texto, de que estamos nos transformando pouco a pouco em uma multidão de viciados digitais. Mas há esperança: pequenas atitudes podem prevenir que o uso excessivo não se torne uma dependência grave.


  • Esqueça seu celular em alguns momentos

    Desligue as notificações e evite checar o celular a cada minuto. Além disso, deixe o aparelho de lado, de preferência longe do seu alcance, quando estiver concentrado em outras atividades, como uma entrega do trabalho ou refeições.

  • Crie regras para as redes sociais

    Estabeleça períodos específicos para checar suas redes sociais e tente diminuir a frequência para uma vez por hora ou algumas vezes por dia. Também pode ser interessante se esforçar para fazer uma checagem rápida: entrar, responder às notificações e fechar, sem ficar muito tempo zanzando pelo feed.

  • Enriqueça o ambiente das crianças

    Para não estimular a dependência desde cedo, o ideal é que as crianças tenham o acesso às telas, para o lazer, restrito: antes dos dois anos, nada de telas; depois disso, no máximo meia hora por dia, aumentando gradualmente até duas ou três horas conforme elas crescem. Para não entediá-las, crie um o ambiente com atividades offline que também possam dar prazer — montar um quebra-cabeça, jogar um jogo analógico, ajudar os pais na cozinha.

  • Viva períodos mais longos sem telas

    Experimente viver um dia da semana totalmente sem telas — pode ser um domingo, por exemplo. Depois, tente um fim de semana completo uma vez por mês. Se quiser ir além, uma semana de férias por ano.

As imagens que ilustram o texto foram cedidas a Gama pela Contente.vcContente.vc / Tereza Bettinardi