Como estão as férias das crianças?
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Férias escolares: como reduzir o uso de telas?

Depois de um semestre sem celulares nas escolas, as crianças estão de folga neste mês e o celular, alertam especialistas, não pode ser sinônimo de passatempo

Tereza Novaes 13 de Julho de 2025

Férias escolares: como reduzir o uso de telas?

Tereza Novaes 13 de Julho de 2025

Depois de um semestre sem celulares nas escolas, as crianças estão de folga neste mês e o celular, alertam especialistas, não pode ser sinônimo de passatempo

As férias de inverno chegaram e são as primeiras desde que os celulares foram banidos das escolas. É bom lembrar que esse banimento significa ao menos um período do dia, para as crianças e adolescentes que têm o aparelho, sem a presença dele. Será que durante a pausa das aulas também dá para manter alguma distância dessa e de outras telas?

Para especialistas, é importante, sim, esse distanciamento. O pediatra Daniel Becker, que se tornou uma das principais vozes no país contra o uso de celulares por crianças e adolescentes, é categórico sobre o impacto nocivo.

“Quando eles têm o celular na mão, aquele bicho passa a ser o centro da vida. Todo o resto perde importância. Os aplicativos fazem um trabalho muito sério, com grande investimento — bilhões de dólares mesmo — em neurociência, em programação, para que eles sejam viciantes. Para uma criança com celular na mão, todo o resto perde a graça.”

É claro que não dá para ficar totalmente alheio às telas, então, a melhor alternativa é sempre usá-las com parcimônia e consciência. O celular, no entanto, não deve ser encarado como um brinquedo.

Para uma criança com celular na mão, todo o resto perde a graça

“Dar um celular para uma criança está errado já em princípio”, pontua Becker. “Criança não deve ter acesso ao celular, de preferência, até os 14 anos – se não for possível, a idade mínima é 12. Se ela já tem, é preciso estabelecer um limite bastante restrito, algo como uma hora por dia. Videogame é OK, mas também por determinado tempo, duas horas por dia, no máximo”, avalia.

Priorizar um filme na TV em família ou um desenho na companhia de um adulto, para que haja mediação e interação com outra pessoa, ao vivo, favorece a troca e ajuda a tirar as crianças da passividade que as telas impõem.

“Na época em que os desenhos só passavam na TV, as crianças tinham que esperar o horário para assistir, hoje é tudo muito fácil, está à disposição nos streamings para a criança ver quando e quantas vezes quiser. Acho que, nesse sentido, cabe ao adulto criar uma certa dificuldade. A criança precisa de exemplo, direcionamento e limite. Com a tela, vem muito dessa falta de limite”, aponta a psicóloga infantil Geovanna Falcão.

Nas férias, em vez das telas, o ideal é incentivar brincadeiras, atividades ao ar livre e leitura. “Quando as crianças estão brincando, áreas importantes do cérebro são ativadas, principalmente no pré-frontal, ligadas às funções executivas — que têm a ver com memória, atenção, controle de impulsos e planejamento. É um componente fisiológico fundamental para o desenvolvimento”, afirma a fonoaudióloga Claudia Nassim, especialista no atendimento de crianças.

Aliás, pais e cuidadores precisam dedicar tempo de qualidade para as brincadeiras que são importantes para a construção de vínculos afetivos e ajudam inclusive quem é crescido a relaxar do estresse do dia a dia. Não é apenas uma questão de dar o exemplo e ficar sem celular, tablet ou TV por perto. Por que, afinal, será que são só as crianças que estão saturadas e ansiosas com tantas telas?

A seguir, Gama reúne cinco dicas para buscar descanso das delas para crianças, pais e cuidadores.

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    Faça combinados sobre tempo de tela  – É importante que a tela não seja a regra e vale até colocar esse momento como algo especial do dia, com hora para acabar. “Sugiro para os pais dos meus pacientes que ofereçam fichas com tempo de tela, de 20 minutos, por exemplo”, explica Geovanna Falcão. A psicóloga infantil recomenda que a família mude a dinâmica em relação ao uso da tela como uma espécie de babá. “O problema não é ver TV, é como isso acontece”, afirma. Para ela, assistir televisão é melhor do que deixar um tablet na mão da criança. “O aparelho fica mais distante, os pais podem controlar ou ver mais fácil o que está passando. O tablet tem todos os comandos ali e os conteúdos são mais rápidos: shorts do YouTube, Instagram, TikTok. Isso tudo libera muita dopamina.” Ela afirma ainda que, depois de receber tantos estímulos, as crianças têm dificuldade quando o tablet é tirado, porque essa dopamina é cortada de forma abrupta. “Isso em geral leva à birra, a criança estava em um estímulo muito alto, e isso foi tirado. Além disso, essas crianças são mais ansiosas e querem tudo para ontem.” A mediação de um adulto sobre o que está sendo visto também é importante. “Até desenhos como a Peppa, por exemplo, trazem temas que não são legais, como briga entre irmãos, coisas que as crianças podem reproduzir. Por isso é fundamental que, mesmo conteúdos infantis, sejam vistos juntos e comentados.” Daniel Becker pondera sobre os videogames do tipo console, que podem ser uma boa opção, mas, claro, sempre com limite de tempo definido. “Esse tipo de jogo pode engajar a criança e trazer um pouco mais de coordenação motora fina e de raciocínio rápido, como os que simulam futebol e basquete.” Já os de violência, especialmente aqueles em que o jogador simula atirar, devem ser limitados ao máximo. “Os meninos adoram jogar e isso pode trazer algum dano. Além disso, existe a possibilidade de interação pelo chat com estranhos, o que pode ser muito perigoso.

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    Incentive a leitura e proponha atividades manuais e de imaginação – Muitas famílias já têm o hábito da leitura conjunta, especialmente antes de dormir, mas durante as férias podem ser criados outros hábitos, como deixar a criança escolher um livro de sua preferência e, depois de lido, haver a proposta de alguma atividade. “Dá para conversar, mudar o final, imaginar outra história, além de criar brincadeiras, fazer fantoches, marionetes, desenhar os personagens preferidos. O livro traz milhões de possibilidades”, afirma Claudia Nassim. Outra ideia que ela indica é criar o próprio livro no papel. O adulto pode escrever a história, criada em conjunto, e a criança desenhar, por exemplo. Os trabalhos manuais e artísticos de forma geral sempre são uma boa opção, destaca a fonoaudióloga. “Desenho, pintura, construir jogos. As crianças no consultório amam montar o próprio jogo. Pegamos um papel grande, desenhamos a trilha, escrevemos nossas regras. Também pode ser confecção de máscaras, pulseiras ou escultura em massinha, argila. Tudo isso trabalha a motricidade, concentração e criatividade. Além de ser prazeroso, cria novas conexões e novos aprendizados.”

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    Conviva em família e com outras crianças – As famílias têm cada vez menos filhos e, nesse sentido, Geovanna lembra a importância de estar também na companhia de outras crianças. “A criança precisa do mundo dela, o mundo da criança. Não pode viver só no mundo dos adultos. Se não tem muito contato com outras crianças, é bom equilibrar”, adverte. Especialmente no caso de filhos únicos, ela afirma ser importante estimular esse convívio. “De forma geral, é bom estimular. Se a criança é tímida, a mãe pode ficar junto no começo, e depois vai saindo aos poucos, para ela desenvolver autonomia e autoestima. Para ela perceber que consegue se relacionar sozinha, sem ficar presa à barra da saia da mãe.” A psicóloga infantil ressalta que tudo depende muito da dinâmica familiar e cabe aos adultos achar o equilíbrio, inclusive para quem costuma deixar os pequenos em cursos de férias na escola. “Deixar uma ou duas semanas e, na outra semana, fazer algo em família pode ser uma opção interessante. Ter esse momento de dedicação para eles.” Becker aconselha quem tem crianças pequenas a cultivar amizades com outros pais, sejam da creche ou da escolinha, que tenham filhos na mesma faixa etária.“Sempre recomendo que as famílias desde cedo construam comunidades de famílias. Procure fazer amizade com pessoas que já são da turma do seu filho. São amizades que para os adultos podem durar uma vida e são boas principalmente para as crianças.” Essa comunidade acaba se transformando ainda em uma importante rede de apoio, com as famílias recebendo as crianças em um momento de aperto dos pais. Por fim, ele destaca que dentro dessas comunidades fica mais fácil criar combinados em relação à posse de um celular. “Na hora que todo mundo estiver pedindo, porque todo mundo já tem – é o principal motivo pelo qual os pais dão o celular para os filhos –, se há um grupo de sete, oito meninas ou meninos sem o aparelho, eles vão estar juntos, vão sofrer menos, vão ficar menos de fora. Eles vão brincar, estudar e aprender juntos.”

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    Reserve um tempo com as crianças, de preferência ao ar livre – A primeira coisa é conseguir, dentro da sua rotina, reservar um tempo de qualidade para ter essa interação com a criança, essencial para o desenvolvimento. A ideia é deixar um tempo dedicado somente para isso, deixando de lado o celular. Ao brincar com os pais ou cuidadores, a criança desenvolve comunicação, escuta, troca e recebe incentivo. “Isso fortalece o vínculo afetivo, vai gerar conversas, desenvolvimento linguístico até a resolução de problemas — em um jogo, por exemplo, quando é preciso criar soluções. O brincar junto ao adulto gera muitos efeitos positivos e constrói memórias afetivas. A criança também tem a oportunidade de observar atitudes do adulto, imitar e transformar em novos aprendizados”, afirma Nassim. Mais do que isso, os três especialistas são unânimes sobre a importância de brincar ao ar livre e o mais próximo da natureza possível. “A natureza é o território essencial da criança e é fundamental para tudo no desenvolvimento”, afirma Becker. “Criança que brinca na natureza vai ter mais defesa contra infecções e tem menos chance de ter alergias”, exemplifica. “Além desse contato trazer inúmeras habilidades.” De acordo com Becker, todos os aspectos são favorecidos: físicos, incluindo, sono, memória, atenção e foco, a inteligência e até o social, como cooperação, colaboração e elaboração de regras, e viver de acordo com elas. O fato de poder olhar e perceber o ambiente, coisas simples, como uma nuvem ou um passarinho, são cruciais na vida de alguém que está crescendo. “É o poder de se maravilhar com o mundo, a admiração e a harmonia, interna e externa, que a natureza propicia.” Ele receita inclusive “doses” para esse contato. Diariamente, ficar ao menos uma hora na rua, mesmo que não seja o local mais arborizado, isso já faz toda a diferença. Ele recomenda ainda que se não for possível durante a semana, ao menos no sábado ou domingo, a criança frequente uma praça. Além disso, mensalmente é importante passear em um parque estadual ou uma praia e, anualmente, passar alguns dias em uma área mais selvagem, como uma floresta. “Brincar na natureza é muito importante para a criança. E as férias são um excelente momento para poder viver isso”, finaliza Becker.

  • 5

    Aproveite para também fazer um detox do celular – Já que brincar junto é fundamental, por que não aproveitar esse tempo para ficar realmente desconectado do celular? Essa atitude serve como exemplo positivo para a criança e também beneficia o adulto, que consegue sair um pouco da rotina e aliviar a carga de estresse. “Não tenho dúvida que o celular está fazendo mal para todo mundo. Todo mundo está viciado e também mais ansioso, com menos capacidade de estar junto, perdendo habilidade de conversação, foco, atenção e memória”, afirma Becker. Então, a dica para pais e cuidadores pode ser brincar de faz-de-conta e fingir que foi para o resort tailandês da série “White Lotus”, onde todos eram convidados a deixar o celular no cofre durante uma semana. Assim, eles também podem se desligar da polifonia e dos problemas que, muitas vezes, só existem quando o aparelho está ativado. Quanto menos o adulto estiver no celular, melhor para todos. “Se puder tirar férias e estar plenamente com os filhos, em família e com outros amigos também, é maravilhoso. Mas não precisa ser uma viagem, um programa na cidade, como um piquenique ou ir à praia, ou mesmo só deixar as crianças brincando e conversar, é muito bom para todo mundo.”

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