Tá impossível ficar offline?
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Ilustração de Isabela Durão

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Depoimento

A última vez em que estive offline

Gama ouve artistas e gente que pensa a internet para saber o que se ganha quando o celular está longe

05 de Abril de 2026

A última vez em que estive offline

05 de Abril de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Gama ouve artistas e gente que pensa a internet para saber o que se ganha quando o celular está longe

O que ganhamos quando nos desconectamos? É cada vez mais raro se sentir totalmente offline e, portanto, muito difícil de responder a essa pergunta. Gama ouviu um escritor, uma atriz, músicos e outros profissionais para saber o que aprenderam ao ficar totalmente offline.

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    “Dá a mesma sensação de uma dieta de suco verde, de um jejum”

    Tiê, cantora e compositora

    “Offline mesmo faz tanto tempo que nem sei, mas detox de redes sociais eu faço uma vez por ano. A sensação é ótima, dá a mesma sensação de uma dieta de suco verde, de um jejum. Hahaha. Você zera, equilibra, e depois começa a se intoxicar de novo.”

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    “Ganho mais presença, um olhar mais atento e mais calmo”

    Giulia Costa, atriz e comunicadora, apresenta o podcast Pé no Sofá Pod com a mãe Flávia Alessandra
    “A última vez que fiquei offline foi na quarta-feira passada. Consegui tirar uma manhã de folga, fui na academia, fiz uma trilha e fui à cachoeira com meu cachorro. Fiquei sem celular desde a noite anterior, por volta de 23h, até umas duas da tarde. Foi difícil, principalmente por ser um dia de semana, porque dá uma sensação de que você está perdendo alguma coisa, como se o mundo fosse acontecer sem você ou surgisse alguma emergência. Março foi um mês muito corrido pra mim, então tenho tentado me forçar a parar, mesmo que seja por algumas horas. Pra isso, preciso colocar o celular no modo avião, porque senão acabo olhando sem perceber. Mas o que eu ganho é mais presença, um olhar mais atento e mais calmo, conseguindo reparar em coisas simples que passariam despercebidas se eu estivesse no celular.”
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    “Não sentíamos que devíamos tirar mais fotos. Aceitávamos que tudo seria esquecido”

    Odorico Leal, escritor, autor de “Nostalgias Canibais” (Ed. Âyiné, 2024), pelo qual levou o APCA de contos

    “Não lembro a última vez que consegui ficar offline de verdade. Talvez tenha sido numa noite perdida em Belo Horizonte, por volta de 2008. Saímos em busca de uma festa. Deu tudo errado. Percorremos a cidade, e, no meio da madrugada, quando cruzamos uma esquina, um caminhão municipal de dedetização passou e nos dedetizou insolicitadamente. Eu me prostrei no meio da rua. Não ocorreu a ninguém tirar uma foto. Não sentíamos que devíamos tirar mais fotos. Aceitávamos que tudo seria esquecido. Talvez preferíssemos assim. Vivíamos para entregar tudo ao esquecimento. Não éramos fontes de dados para nada. Éramos pobres de dados. Para tirar algum dado de nós teriam de enfiar uma agulha em nosso braço e sugar nosso sangue, de outro modo nada saberiam de nós, seríamos gloriosamente esquecidos. Acho que essa foi minha última época verdadeiramente offline. Não aprendi nada.”

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    Wally Guedes

    “Eu teria uma crise de ansiedade ou efeito relacionado a uma crise de abstinência de internet”

    Tico Santa Cruz, cantor e compositor, vocalista da banda Detonautas
    “Não tenho recordação próxima de algum período que eu tenha conseguido ficar offline, mas sei que não conseguiria ficar offline. É por si só um problema bastante importante, que requer de mim alguma atenção, principalmente no que diz respeito ao tempo de tela. Eu sei que fico muito tempo na tela. Meu trabalho é basicamente monitorar as atividades do Detonautas, criar conteúdos relacionados ao meu trabalho ou a esses tópicos que eu venho fazendo, que estão ligados também à saúde mental. Não sei qual é a sensação de ficar offline. Provavelmente eu poderia ter uma crise de ansiedade ou algum efeito relacionado a uma crise de abstinência de internet. Mas sei que, uma vez isso passado, seria bastante produtivo e proveitoso para que eu pudesse me conectar em outros lugares, com a literatura e a música, por exemplo. Essas sempre foram conexões muito profundas e genuínas, mas com as telas diminuíram bastante e isso me preocupa.”
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    “Quando peguei o telefone, o que tinha de demanda acumulada não está no gibi”

    Rita Batista, apresentadora, jornalista e atriz na novela “A Nobreza do Amor” (2026)

    “A última vez foi um exercício proposto pelo próprio ‘Saia Justa’ (2002-), quando eu fazia parte [Rita integrou a temporada 2024 do programa da GNT]. Na verdade, era para ver quanto tempo a gente ficava online, qual era a nossa média de horas no celular. E aí eu vi que a minha média era de 8 a 10 horas. Eu falei: gente, isso está exagerado. Então, decidi ficar um dia offline, e eu tive mais tempo para as coisas. Mas também, quando peguei o telefone, o que tinha de demanda acumulada não está no gibi.”

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    “Não tinha nada de mágico. Eu só estava sem internet, no meio da natureza, sem distrações”

    André Carvalhal, comunicador, escritor e consultor, autor de “Como Salvar o Futuro” (Paralela, 2021)

    “No início do ano, numa turnê em Portugal para divulgar o livro ‘A Alegria em Ficar de Fora’ (Agir, 2025), fiz alguns percursos em trens mais antigos, que não tinham Wi-Fi. Uma viagem específica passou por uma paisagem muito linda, no meio de vales, lagos, um céu bem azul e um sol lindo. Acabei me conectando muito comigo, com as minhas ideias, respirando. Essa pausa me proporcionou pensar uma série de coisas e, no meio disso, veio a ideia do meu próximo livro. Imaginei a capa, os capítulos, parecia que eu tinha feito um download do livro inteiro. Quando fui dar a palestra, falei que ali eles tinham um caminho mágico, um caminho da criatividade. E as pessoas me olhavam como se eu estivesse maluco, porque elas faziam aquele caminho todo dia. Ali eu me liguei. Não tinha nada de mágico. Eu só estava sem internet, no meio da natureza, de uma paisagem absurda, em total silêncio, sem distrações, conectado comigo. Hoje em dia, é uma conjunção rara como as superluas.”

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    “Pra mim, ficar offline é um modo de equilibrar as coisas, de me trazer pro agora”

    Rael, rapper, cantor e compositor; em março lançou o álbum “Nas Profundezas da Onda”

    “Pra mim, ficar offline é um modo de equilibrar as coisas. Como eu digo, é cansativo ser digital. Você lançar um disco e ter que ficar lá o tempo inteiro: ‘olha eu aqui, olha aqui, olha aquilo lá’. Ou mesmo sem lançar disco, você se mostrar vivo, assim, num universo de alta performance, é cansativo. Então eu prefiro, às vezes, me ausentar, ir pra Serra da Mantiqueira, ficar lá ouvindo os passarinhos, andar descalço em algum lugar. Acho que é o modo de eu me trazer pro agora. Porque esse universo de alta performance, dos números, dos likes, é uma coisa que meio que já deu pra mim, cansou. De ficar ali como se fosse uma Champions League, sabe? De quem vai conseguir ter mais atenção pelo trabalho que fez ou pela foto que postou, pelo vídeo que tá falando. É cansativo.”

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    “Mudou minha relação com o tempo, recuperou uma temporalidade que eu tinha e perdi”

    Vera Iaconelli, psicanalista e escritora

    “A greve das redes que fiz com o Pedro Inoue [diretor de arte], de 24 horas, mudou minha relação com o tempo. Na verdade, recuperou uma temporalidade que eu tinha e perdi. Os finais de semana que fico sem redes sociais me permitem ler, conversar, comer, trepar… sem a angústia de ter que acompanhar as coisas lá fora.”

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    “Precisei criar essas ilhas de concentração no meu dia a dia porque a fuga para as montanhas vai ser esporádica”

    Dani Arrais, escritora e diretora criativa da contente.vc

    “A última vez que fiquei offline foi quando fiz um retiro de escrita de dois ou três dias. Eu pegava o celular para ver se estava tudo bem porque tenho um filho pequeno, mas me concentrei para escrever e ler sem interrupções. Isso contribuiu demais para a escrita do meu primeiro livro [“Para Todas as Mulheres que Não Têm Coragem” (BestSeller, 2024)]. Estamos acostumados a acordar, pegar o celular e já ter um monte de demanda para atender e responder. Muitas vezes, demandas que não são as nossas. Tenho pensado muito em como é que a gente se prioriza num mundo que exige tanto da nossa atenção. O retiro é o que eu chamo de ‘fugir para as montanhas’. Mas precisei criar essas ilhas de concentração no meu dia a dia porque a fuga para as montanhas vai ser esporádica. Então, o que tenho tentado, além de ficar offline quando dá, é criar momentos de desconexão no cotidiano. Há pelo menos sete meses, durmo com o celular fora do quarto. Umas 21h30, coloco ele em outro cômodo e começo a desacelerar. É muito impactante o quanto faz diferença na ansiedade, no sono, na concentração para ler. Tento também, na primeira hora da manhã, não pegar o celular, mas já é mais difícil. Acredito cada vez mais que é necessário a gente pensar a nossa relação com o digital, com as telas, no dia a dia. Enão só nos momentos em que a gente tem a sorte e o privilégio de poder escapar desse mundo que nos demanda tanto.”

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    “Quando me programo para estar offline, sinto recuperar um pacto com o tempo”

    Isabel Mascaro, estilista e sócia da marca de moda Satiko+Isabel

    “Lembro quando digital era o rádio relógio, julgava o perfil das pessoas pela sua caligrafia e a realidade paralela se restringia à novela das nove até as cenas do próximo capítulo. Conversar por telefone não era um esporte radical, pelo contrário, era natural ser educado e agir de improviso.
    O universo online é controverso. Confiar na nuvem, ser uma espectadora invejosa nas redes sociais, estar sempre alerta às mensagens que pipocam sem cerimônia. Estar em todos os lugares e em lugar nenhum. Excessivamente dispersivo.
    Quando me programo para estar offline, é impossível voltar ao passado, mas sinto recuperar um pacto com o tempo. Propiciando o acaso e o ócio que dão sentido à vida, retomando o protagonismo da minha existência, introspectivamente, abrindo espaço para minha autenticidade.”

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