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Lugares e situações para "esquecer" o celular

No cinema, ou no filminho em casa, à mesa, com amigos, durante o exercício e com as crianças, tirar o smartphone de perto melhora o foco, reforça vínculos e proporciona experiências mais completas

Ana Elisa Faria 05 de Abril de 2026

Lugares e situações para “esquecer” o celular

Ana Elisa Faria 05 de Abril de 2026

No cinema, ou no filminho em casa, à mesa, com amigos, durante o exercício e com as crianças, tirar o smartphone de perto melhora o foco, reforça vínculos e proporciona experiências mais completas

Gente caminhando na rua com os olhos grudados no celular, sem perceber direito o trânsito ou com quem cruza. Uma mensagem banal respondida no meio do filme, bem quando uma cena importante aparece na tela. Um jantar entre amigos interrompido por notificações sucessivas. O exercício físico paralisado toda vez que o telefone vibra. Crianças tentando disputar a atenção dos pais com uma telinha que nunca se aquieta. Essas são paisagens do nosso cotidiano — vivemos assim ou assistimos a isso o tempo todo. O smartphone foi se entranhando de tal forma na rotina contemporânea que, muitas vezes, o que está diante de nós perde espaço, não é visto ou sentido.

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Nem sempre isso é percebido de imediato. O uso desse pequeno dispositivo hoje parece natural, quase automático, uma extensão do corpo, que é só depois de algum tempo que a pessoa constata que se distraiu da conversa, não sentiu direito o gosto da comida, perdeu nuances da história ou durante um passeio inteiro não reparou no entorno.

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Para a designer e especialista em bem-estar digital Vivi Tavares, fundadora da Lab Sensível, parte dessa relação está ligada a hábitos que se tornaram automáticos. Já a neurocientista Ana Carolina Souza, cofundadora da Nêmesis Neurociência Organizacional, alerta para os efeitos dessa atenção fragmentada sobre o foco, a percepção e o vínculo com os outros.

Sem transformar o celular em inimigo absoluto — afinal, não dá mais para ter um olhar maniqueísta para a tecnologia —, as profissionais propõem outro movimento: observar em que momentos ele empobrece as experiências e rouba a nossa presença. Com a ajuda das duas, Gama lista cinco situações cotidianas em que deixar o aparelho um pouco de lado pode mudar bastante o que se vive.

  • 1

    No cinema ou vendo um filme em casa, mergulhe na história –
    Assistir a um filme é uma das atividades em que a distração provocada pelo uso do celular fica bem nítida. Seja no cinema ou no sofá de casa, basta uma olhadinha na tela para a história perder força e sentido. Ana Carolina Souza observa que, quando a atenção é fragmentada, muita coisa passa despercebida. “Você talvez perca uma pista sutil que apareceu no canto da cena”, diz, lembrando que esse corte no processamento cerebral reduz a qualidade da compreensão e empobrece a fruição. Não é que a pessoa deixe de entender tudo, conforme explica, mas entende menos camadas, ironias e nuances. Isso faz com que muita gente opte por narrativas mais simples, um storytelling mais básico ou obras parecidas. “A pessoa vê sempre o mesmo tipo de coisa porque já sabe como entender aquilo, não vai ter tanto trabalho de compreensão e não vai precisar se concentrar muito. Ou seja, ela fica menos disposta a experimentar o novo e a assistir a um conteúdo de outra cultura, por exemplo. Quando perdemos esse processamento, perdemos também repertório”, analisa. Segundo Souza, o cérebro está sempre construindo a realidade a partir do que recebe como informação, no entanto, se as informações passam a ser limitadas, superficiais ou fragmentadas, há um limite do que a pessoa consegue reconhecer ou recriar da realidade. Há ainda um efeito adicional: quanto mais o cérebro se acostuma à troca rápida entre estímulos — olho no feed, olho no filme, olho na mensagem, olho na tevê —, mais difícil fica sustentar a concentração. Por isso, acompanhar uma trama do começo ao fim sem checar o WhatsApp ou as redes sociais também é um treino de atenção. Para tornar isso viável, Souza sugere deixar o aparelho fora do alcance, no silencioso, em outro cômodo ou apenas com os contatos de emergência liberados.

  • 2

    Ao cozinhar e nas refeições, perceba melhor a comida –
    Há uma grande diferença entre se alimentar e apenas abastecer o corpo comendo. Quando a hora da refeição é disputada com dispositivos eletrônicos, como o celular, a televisão ou o computador, sobra menos espaço para sentir sabor, aroma e textura, notar o que está no prato e se atentar ao próprio ato de comer. Vale, então, uma regra simples vinda do mindful eating, a prática de comer com atenção plena: parar o que estiver fazendo e se dedicar à refeição. Isso inclui olhar para a comida com mais calma, pensar de onde ela veio, quem a preparou, como foi feita e o que existe ali além da função de matar a fome. O mesmo vale para o cozinhar. Em vez de transformar esse momento em mais uma atividade feita no automático, dá para usá-lo como uma pausa concreta no dia para cortar, mexer, provar, observar o tempo de preparo. Parece pouco, mas muda bastante a relação com a comida e com o próprio corpo. A neurocientista Ana Carolina Souza lembra que a tela oferece visão e som, ou “processamentos auditivo e visual”, mas deixa de fora outras dimensões decisivas da experiência. “Ela não traz cheiro, tato, paladar. Você pode até ter uma resposta sinestésica de olhar alguém cheirando uma comida no Instagram e imaginar o cheiro da comida, mas não é cheirar a comida”, sintetiza. A indicação aqui é não deixar o telefone à mesa — “porque se ele estiver ali em algum momento eu vou pegar”, comenta — e, caso precise dele por perto, vire-o com a luz para baixo e deixe o mais longe possível do alcance das mãos.

  • 3

    Esteja 100% disponível nos encontros –
    Quem nunca saiu para conversar com amigos, familiares ou um crush e, no meio do encontro, viu o assunto ser entrecortado por notificações de redes sociais e checagens rápidas no e-mail ou no WhatsApp? O problema não está só na interrupção que o celular causa, mesmo que rapidinha, mas na mensagem implícita de que sempre pode haver algo mais importante, ou interessante, do que a pessoa sentada à frente. Vivi Tavares, fundadora da Lab Sensível, plataforma que ajuda as pessoas a terem uma relação mais saudável com a tecnologia e propõe a desaceleração da vida online, conta que, quando recebe amigos em casa, evita ao máximo pegar o celular, porque quer estar “disponível para eles 100%”. “Estudos da neurociência comprovam que o celular, só de estar perto, já funciona como um dreno cerebral. Com ele longe, a gente consegue ter outra relação com a tarefa que escolhemos fazer”, pontua. Para ela, trata-se de uma escolha pequena, mas poderosa porque o outro deixa de se sentir preterido por algo que compete pela atenção. Ana Carolina Souza, da Nêmesis, fala que, se parte da atenção vai para a tela, falta tempo e sensibilidade para captar as expressões faciais, a respiração, qualquer hesitação e mudanças no olhar, tudo aquilo que ajuda a entender o que o outro diz e também o que não diz. “Se eu divido a minha atenção, uma parte foi tirada das minhas relações sociais”, resume. A conversa fica mais rasa, e o encontro termina com a sensação de falta. “Eu não me conecto com a pessoa. Talvez não entenda ou demore a entender que ela está triste ou avoada e precisando conversar sobre alguma coisa. Perdemos as pistas que permitem fazermos uma leitura mais profunda do outro.” De acordo com a neurocientista, essa dinâmica ativa — de parar o que está fazendo a qualquer barulhinho do celular — cria nas pessoas um viés de urgência, como se tudo fosse relevante ou perigoso. “Aí você fica em alerta, só que, na verdade, é apenas a sua tia mandando bom dia. Não é um predador, mas o seu cérebro interpreta como algo acontecendo. Ao se desconectar e focar nas pessoas, parece que nada aconteceu [quando você volta a checar os aplicativos], mas você está ali, naquelas relações palpáveis, tangíveis, e processando tudo no tempo presente.”

  • 4

    Durante o exercício, sinta mais o seu corpo — e aproveite para descansar a cabeça –
    Caminhar, correr, pedalar, dançar ou treinar na academia podem até acontecer com uma música rolando ao fundo no fone de ouvido e algum apoio do smartphone, como apps que rastreiam os exercícios físicos. O problema se dá quando o aparelho vira um meio de interrupção constante. A cada vibração, o movimento é quebrado e o corpo deixa de ser o centro da atividade. Essa interferência parece pequena, mas muda bastante a experiência. Para Ana Carolina Souza, esse tipo de fragmentação desgasta a capacidade de sustentar a atenção e dificulta até momentos simples de relaxamento e cuidado com o corpo. “Está tudo bem só dar uma caminhada”, diz ela, ao defender pausas que não precisem ser tão estimulantes o tempo todo. Vivi Tavares chama a atenção para outra perda: quando o celular atravessa esses momentos, a relação com o ambiente também muda. Caminhar olhando para a tela não é a mesma coisa que caminhar olhando a rua, as árvores, a luz, o movimento ao redor. Segundo a especialista em bem-estar digital, tirar o aparelho do centro da vida, e sobretudo das mãos e dos olhos, ajuda a recuperar o contato com “a textura do mundo real” e a notar que existe “um corpo para andar, viver, dançar”. “A gente começa a ter outro olhar para a vida e volta a recuperar o olhar de maravilhamento”, afirma. “No celular, vivemos um mundo achatado de experiências, vemos coisas pasteurizadas, geladas, duras e achamos que a vida é aquilo. Quando desligamos esse dispositivo ou quando ele fica sem bateria, começamos a expandir a nossa visão para o mundo lá fora”, completa. Na prática, a mudança pode ser simples como deixar o celular guardado durante uma parte do treino, resistir à vontade de responder mensagens no meio do caminho ou escolher um momento do exercício para estar só ali.

  • 5

    Com os filhos, guarde o celular e esteja presente por inteiro –
    Perto de crianças pequenas, o uso do celular pesa de um jeito particular. Não se trata apenas de uma distração corriqueira, mas da repetição de ausências no meio da rotina. Numa fase em que o mundo ainda está sendo organizado, pequenas atitudes fazem diferença. Em entrevista a Gama sobre os perigos das telas para os pequenos, a psicanalista Julieta Jerusalinsky, especializada em estimulação precoce, atenta para um fenômeno cada vez mais comum: pais e mães fisicamente presentes, mas psiquicamente ausentes, com a atenção atrapalhada o tempo todo pelo smartphone. Para crianças em estruturação, esse ambiente fragmentado reduz o espaço da conversa, da brincadeira, do tédio e das pequenas trocas cotidianas que ajudam a sustentar vínculos e a dar contorno à experiência. “Às vezes, os adultos pensam no que fazer para que uma criança fique, sem a tela, sentada à mesa de um restaurante. Que tal desligar essa tela? Pode surgir uma conversa, uma brincadeira com palitinhos, com giz de cera. As pessoas têm horror do vazio. E quando se produz um certo vazio porque o celular preenche tudo — sempre tem uma notícia a mais para ler, uma foto para dar like —, coisas novas podem surgir, em vez da compulsividade digital que tem produzido ansiedades, distrações e insônias”, avalia Jerusalinsky. A neurocientista Ana Carolina Souza compartilha que a própria filha a chama de volta quando ela pega o celular durante um filme ou no jantar. O exemplo mostra que vale combinar com os filhos momentos sem tela, deixar o aparelho longe por um tempo e aceitar que nem todo silêncio precisa ser preenchido. O ganho, comenta, aparece na qualidade da atenção, na convivência e na possibilidade de estar de fato junto.

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