Trecho de livro

Descontente

Em seu romance de estreia, jornalista espanhola Beatriz Serrano reflete as desesperanças de uma geração numa personagem frustrada com a inutilidade de seu trabalho

Leonardo Neiva 02 de Outubro de 2026

Vamos ser sinceros? São poucas as pessoas que, em pela segunda-feira, despertam animadas para mais uma semana de trabalho árduo e, muitas vezes, infrutífero. No entanto, do ponto de vista de Marisa, protagonista de “Descontente” (Record, 2026, trad. Alexia Gonçalves), a coisa vai além: para ela, a rotina profissional soa como um tipo de tortura particularmente perverso. Aos 32 anos e já ostentando o título enganosamente imponente de head of creative strategy — sim, em inglês mesmo —, a publicitária parece ter a vida dos sonhos, arrematada ainda por um apartamento num bairro supermoderno de Madri e pelas noites tórridas e sem compromisso com o vizinho sexy.

Mas a jornalista e escritora espanhola Beatriz Serrano constrói esse contexto aparentemente bem-sucedido com o mesmo tom de armadilha oculto em muitos perfis felizes e solares que por vezes encontramos nas redes sociais. Na verdade, por trás da fachada de sucesso e felicidade, Marisa sofre com crises de ansiedade a cada toque do despertador, droga-se diariamente com lorazepam e doses cavalares de vídeos engraçadinhos do Youtube, e se vê incapaz de escapar das garras de uma rotina corporativa que só faz intensificar sua angústia.

Em seu romance de estreia, a jornalista do El País, que escreveu para veículos como BuzzFeed, Vogue e Vanity Fair, traça não só a história de uma mulher cansada. Desenvolve também, com humor afiado e honestidade brutal, o retrato de uma geração que se mostra cada vez mais desencantada com a realidade profissional, a rotina solitária e a busca árida por sentido no mundo contemporâneo. Assim como Marisa, que se arrasta todos os dias até o escritório mais para economizar com o ar-condicionado do que por vestir a camisa da empresa, Serrano espelha a realidade de muitos que se sentem presos a ciclos sem fim de expectativas frustradas, pontuados por momentos cada vez mais longos de anestesia diária.

Leia a seguir um trecho da obra.


Coloco o notebook, um copo de água e um bloquinho de notas em uma mesa grande localizada em um ponto onde bate luz natural no meu rosto. Se tem uma coisa que aprendi com os youtubers foi como posicionar a câmera em uma reunião. Gosto de reservar essa sala porque ela tem um fundo neutro. Depois dessa reunião, eu poderia gravar um vídeo reagindo a reels de gatos tendo ânsia de vômito ao cheirar um brócolis, ou mesmo um tutorial de maquiagem que servisse tanto para uma entrevista de emprego como para um primeiro encontro romântico. Eu me permito, segundos antes de me conectar, imaginar como cumprimentaria meus seguidores, mas não consigo pensar em nada que não me faça parecer uma idiota.

Na hora marcada, as mulheres da equipe de contas se conectam à reunião, então começa aquele festival de amenidades que precede todas as reuniões em todas as empresas do mundo. “Como estão, meninas?” “Estão em Madri ou…?” “Trabalhar na praia é como não trabalhar.” “Muita correria, mas agradeço.” “Minha vida está ótima.” “Muito trabalho, isso é bom.” “Já dá pra notar meu bronze.” “Isso tem que sair de qualquer jeito.” “Estou disponível para vocês vinte e quatro horas por dia.” “Seus filhos estão por aí? Cadê? Queremos ver. Que lindos!” Sorrio, participo, invento. Falo dos planos de verão que não tenho com gente que não existe. Uns dias em Marbella na casa da minha amiga Pitu. Outros em San Sebastián com meu namorado, mesmo sem ter certeza se é muito cedo para chamá-lo de “namorado”, declaro de forma misteriosa. Sim, digo, ele é basco, sempre gostei de caras com uma vibe meio lenhador, sabe como é… E todas riem. Piadas bobas, clichês que servem como uma bebida refrescante, mesmo que sem álcool, para alongar as reuniões sem necessariamente entrar na pauta.

Alguém toma as rédeas. “Bem, meninas, ao trabalho.” A reunião começa oficialmente. Falam de prazos de entrega, de fluxos de ideias, de pensar um pouco sobre isso ou aquilo, do efeito “UAU”, de fazer algo viralizar, alguém até menciona a palavra disruptivo. Falam do que o cliente espera de nós esse ano, que sempre é “muito”, mas nunca é nada concreto. Comentam também que esse ano a cam panha de Natal é a mais importante de todos os tempos. Trabalho nessa empresa há quatro anos e sempre escuto isso sobre a campanha de Natal. Concordo, com o cenho franzido, e digo: “Pode repetir, Mônica?”, enquanto, com a caneta, desenho na minha Moleskine um pênis com bracinhos na cintura. “Temos mais algum briefing sobre o batom?”, pergunto e deixo que elas briguem entre si por mais dez minutos tentando decidir quem entrará em contato com o cliente para pedir essa informação, da qual na verdade nem preciso.

O trabalho é só um papel que você precisa interpretar, e aprendi a interpretá-lo com perfeição

Sem perceber, já estamos aqui faz quarenta minutos. Brincar de escritório é fácil se você sabe as regras. O trabalho é só um papel que você precisa interpretar, e aprendi a interpretá-lo com perfeição: sei as piadinhas que sempre funcionam para quebrar o gelo. Sei o que tenho que perguntar para parecer atenta e interessada. E sei o que tenho que dizer para que o tempo passe mais rápido, sem fazer nada de verdade até as seis da tarde.

Enquanto debatem entre elas, abro o X, vejo, tirando o som, o vídeo de um guaxinim comendo um bolo de aniversário que fizeram especialmente para ele. Tem três velas, e ele parece assustado com o fogo, então um humano sopra as velas por ele, e o guaxinim começa a comer o bolo com suas mãozinhas que parecem humanas. Dou um retuíte. Procuro no Google se seria possível ter um guaxinim em um apartamento em Madri. Depois pesquiso quantos anos vivem os guaxinins e leio que um guaxinim selvagem pode viver entre dois e três anos, e sinto uma súbita pontada de tristeza

— Quando você acha que poderíamos ver algo, Marisa? — pergunta uma delas.

Fecho a guia do guaxinim e volto a ver a tela da reunião. Na verdade, olho para mim mesma em um quadradinho à direita da tela e confirmo que, de fato, essa luz seria perfeita para gravar um vídeo que mostrasse minha rotina de beleza.

— Em quatro semanas — respondo.

— Quatro? Em três semanas estaremos no fim de setembro, e o cliente quer ver algo para já ir aprovando orçamentos — diz outra.

Gostaria de responder que não dou a mínima, como faria qualquer ser humano com a sorte de poder viver dos rendimentos de seus antepassados, mas, em vez disso, viro as páginas em branco da Moleskine que tenho ao meu lado num gesto cerimonioso. Sussurro um “deixa eu ver umas coisas aqui”. Desenho outro pequeno pênis em uma das páginas. “Me dá duas semanas”, digo finalmente, e todas ficam felizes. O truque é sempre dizer uma data imediatamente e logo depois dar a data que você tinha estimado desde o início, como fazem os trapaceiros ou os vendedores espertos do mercado El Rastro, para que você acredite que fez um ótimo negócio.

Nós nos despedimos com sorrisos e muitos “Obrigada a todas” e alguns “Bora!”. Eu me desconecto do Zoom. Minha garganta está tão seca que é difícil engolir até saliva. Ao me ver sozinha no reflexo da minha tela, penso de novo em Marina Joyce. Acredito que, se alguém tivesse aumentado o volume do notebook, também teria escutado uma vozinha dizendo “help me” e teria chamado a polícia.

Tenho trinta e dois anos e há oito trabalho com publicidade, quatro deles nessa mesma agência. Comecei como estagiária, depois fui contratada como redatora e agora ocupo uma posição de liderança gerencial, com pessoas sob minha supervisão, e um cargo com um nome absurdo em inglês que serve para me deixar bem na fita no LinkedIn e para responder perguntas “quebra-gelo” no Tinder. A verdade é que não sei fazer nada em especial e não tenho ideia de como cheguei até aqui. Suponho que tenha sido aperfeiçoando a brincadeira de escritório até que os demais foram acreditando que sou uma grande profissional.

A verdade é que não sei fazer nada em especial e não tenho ideia de como cheguei até aqui

Meu trabalho consiste em ser simpática e vender ilusões. Leio o briefing de um produto de merda que é como todos os outros produtos de merda: um batom vermelho, um perfume com notas florais, um aspirador de pó com um bocal pequenininho que você pode enfiar nos cantinhos da casa porque tem uma forma triangular. Então penso nas bobagens que preocupam as pessoas comuns, a qualquer um, por mais que nos achemos as ovelhas mais inteligentes do rebanho: ser feia, chegar ao fim do dia cheirando mal, ter uma casa suja. O mercado gera necessidades, e é meu trabalho traduzi-las para a linguagem comum dos mortais. Não estou vendendo um batom vermelho, e sim a ideia de causar impacto, de ser bonita, de ser lembrada, de deixar uma marca no colarinho da camisa de um homem bonito. Não estou vendendo um perfume, mas a ideia de que se lembrem de você pelo cheiro, de que você possa impressionar, deixar de ser uma pessoinha comum e sem graça que gasta duas horas da vida por dia indo de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Eu vendo a possibilidade de que hoje, sim, justo hoje, com a ajuda desse perfume de notas frutadas, algo extraordinário vai acontecer. Não estou vendendo o enésimo aspirador do qual nenhum lar precisa, e sim a ideia de ter uma casa bonita e limpa, de poder tirar fotos desse cantinho tão fofo que você decorou à la Pinterest para postar no Instagram e receber muitas curtidas. Então lanço uma ideia criativa que é como todas as ideias cria tivas anteriores e posteriores, como tudo que veio e que virá depois. The lipstick effect. O cheiro das lembranças. A
casa da sua vida. Compram, pagam, recebo parabéns e começa tudo de novo.

Há oito anos faço a mesma coisa e sei que não serve para nada. Sei que o mundo seria um lugar melhor se trabalhos como o meu não existissem. Sei que me aproveito das inseguranças das pessoas e de seus desejos de prosperar em uma sociedade na qual não se pode ascender. E sei disso porque eu mesma, depois de uma jornada de oito horas e de inúmeras “conversas de elevador” que me provocaram uma série de ideações suicidas de baixo risco (como grampear minha mão para sair de uma reunião sobre compreender o verdadeiro sentido e a magnitude da palavra infinito, ou jogar em mim mesma a água fervente da chaleira do escritório para passar uns cinco ou dez dias com os pés para o alto), muitas vezes acredito que a solução para todos os meus problemas está feita sob medida para mim em um vestido florido da Zara fabricado em Bangladesh que apareceu para mim o dia inteiro em todos os sites que visitei e que, com toda a certeza, será usado por milhões de mulheres na próxima estação. Esse vestido poderia me transformar em outra mulher, em uma versão primaveril, alegre e despreocupada de mim mesma. Sei que, quando você compra alguma coisa, paga pela promessa de uma vida melhor. Sei também que me aproveito da mediocridade e do dinheiro dos clientes, para os quais o maior ato de criatividade é colocar uma célula a mais em uma planilha do Excel.

O mundo seria um lugar melhor se trabalhos como o meu não existissem. Sei que me aproveito das inseguranças das pessoas e de seus desejos de prosperar em uma sociedade na qual não se pode ascender

Meu trabalho é medido por algo tão incalculável quanto um “impacto”. O “impacto” pode ser fazer algo viralizar, fazer todo mundo falar daquilo. Ou criar um jingle que não saia da cabeça e que todo mundo cante. Ou ganhar um desses prestigiosos prêmios de publicidade que só importam para os publicitários e para os clientes que pagaram um dinheirão nesse anúncio com uma modelo que, na verdade, só quer um hambúrguer e um abraço.

Produto

  • Descontente
  • Beatriz Serrano (trad. Alexia Gonçalves)
  • Record
  • 256 páginas

Caso você compre algum livro usando links dentro de conteúdos da Gama, é provável que recebamos uma comissão. Isso ajuda a financiar nosso jornalismo.

Quer mais dicas como essas no seu email?

Inscreva-se nas nossas newsletters

  • Todas as newsletters
  • Semana
  • A mais lida
  • Nossas escolhas
  • Achamos que vale
  • Life hacks
  • Obrigada pelo interesse!

    Encaminhamos um e-mail de confirmação