Os homens estão perdidos?
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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

A solidão dos homens: por que é tão difícil para eles construir redes de apoio

Compromisso excessivo com a virilidade e recusa de qualquer nuance de feminilidade afetam saúde mental masculina

Tereza Novaes 21 de Junho de 2026

A solidão dos homens: por que é tão difícil para eles construir redes de apoio

Tereza Novaes 21 de Junho de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Compromisso excessivo com a virilidade e recusa de qualquer nuance de feminilidade afetam saúde mental masculina

“A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti”, escreve Valter Hugo Mãe, no romance “A Desumanização“.

A importância dos outros na nossa vida não é apenas tema recorrente na arte, mas também objeto de estudos na área da saúde. Pesquisadores já traçaram um cenário muito claro sobre o papel das conexões sociais na saúde mental: elas ajudam a reduzir o impacto de experiências estressantes, diminuem o risco de depressão e de comportamento suicida, e aumentam a chance de quem sofre em buscar ajuda profissional.

Um estudo que acaba de ser publicado pelo “Journal of Personality and Social Psychology” confirma isso: a solidão aumenta o risco de declínio cognitivo grave e de morte. A pesquisa faz uma distinção entre isolamento social e solidão, e é a última, descrita como um sentimento subjetivo de estar desconectado, que pesa mais. A pesquisa acompanhou mais de 175 mil pessoas acima de 50 anos.

Nós, humanos, não teríamos chegado até aqui sem a convivência com o outro“, afirma o psicólogo e psicanalista Lúcio Artioli dos Santos. Ele lembra ainda que cultivar amizades e estar com pessoas é importante até para aprender a lidar com o que nos difere dos demais.

Entre mulheres, é mais comum pertencer a um grupo ou a vários. Bater papo com as amigas costuma ser algo corriqueiro para a maioria e as trocas, não raro, passam por angústias e dúvidas em relação à vida.

Isso fica visível em uma outra pesquisa, realizada nos EUA: apenas 21% dos homens dizem receber apoio emocional de um amigo, índice que sobe para 41% entre as mulheres. Quase metade das mulheres (48%) teve, na semana anterior à entrevista, uma conversa mais pessoal, na qual compartilhou seus sentimentos. Já entre os homens, esse número caiu para menos de um terço (30%). O levantamento foi realizado pela organização sem fins lucrativos Survey Center on American Life, em 2021, e ouviu 2.019 adultos.

Por que essa discrepância? Como os homens constroem suas redes de apoio e as mobilizam?

Para tentar responder a essas questões, o psicólogo clínico Yan Menezes Oliveira propõe olhar primeiro para a formação da masculinidade. “Nos constituímos como homens, como corpos masculinizados, com uma carga inerente de solidão. Pela nossa posição de gênero, de base muito competitiva, na qual é necessário se provar para poder ser homem.”

Nos constituímos como homens, como corpos masculinizados, com uma carga inerente de solidão. Pela nossa posição de gênero, de base muito competitiva, na qual é necessário se provar para poder ser homem

Ele evoca o “pacto da masculinidade”, conceito desenvolvido pela antropóloga Rita Segato, uma rede de proteção e silêncio entre os homens que ajuda a perpetuar o sistema patriarcal. A masculinidade é validada não perante as mulheres, mas diante dos pares masculinos.

Esse pacto, por outro lado, estabelece uma competição acirrada que dificulta as trocas reais entre homens. “Estamos muito sozinhos nesse lugar para nos fazer provar. Não é um processo colaborativo, é muito competitiva essa formação”, destaca Oliveira, que é e doutor em Psicologia Social Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Negação do feminino

Lúcio Artioli destaca outra questão a partir do livro “A Dominação Masculina” (1990), do sociólogo Pierre Bourdieu. Para Artioli, a obra analisa a forma como os homens aprendem a definir a virilidade pelo seu negativo, ou seja, pela negação de qualquer traço de feminilidade.

“Isso é muito problemático, porque os homens têm traços do feminino que são parte do masculino de alguma forma”, explica o psicanalista. Segundo ele, Bourdieu mostra ainda que os homens têm muita facilidade de formar confrarias, as mesmas que estruturam o pacto da masculinidade. “E nesses espaços há uma preservação dessa virilidade, essa proteção para que o feminino não entre.”

E nesses espaços há uma preservação dessa virilidade, essa proteção para que o feminino não entre

Assim como é muito difícil uma mulher participar desse tipo de grupo, porque ou ela entra como objeto de desejo ou se masculinizando para fazer parte, o psicanalista lembra que esse espaço também pode ser desafiador para os homens.

Em ocasiões comuns de sociabilidade masculina, como assistir futebol, jogar uma pelada ou em uma mesa de bar, dificilmente há espaço para falar de temas mais pessoais. “Essa atitude pode ser lida pelo grupo como um traço não viril”, ressalta Artioli.

Em um momento em que a sociedade vive sob um imperativo de eficiência e competitividade e em grande desconexão, a experiência com isolamento e solidão também cresce – sobretudo entre o sexo masculino.

“Para os homens, que muitas vezes já têm o campo emocional e afetivo muito atrofiados, a experiência de sofrimento e de pressão, não chega a ser nem percebida, ela é naturalizada”, pontua Oliveira. Para ele, o primeiro cuidado a se fazer, tanto com homens quanto com meninos, é dar acesso a outros níveis de sensibilidade e de troca emocional.

Vulnerabilidade e terapia

“Sou da década de 80, e recebi uma educação com resquícios de ditadura. Herdei isso de forma automática, principalmente do meu pai, para quem homem não podia chorar e expressar seus sentimentos. Isso cria uma casca para ser aceito como uma figura masculina na sociedade. Expressar sentimentos ou algo parecido com vulnerabilidade era sinônimo de fraqueza, de derrota”, conta Homero Ligere, que atua e co-assina o texto da peça “Primeira Pessoa“, em cartaz no teatro Glaucio Gill, no Rio.

O monólogo faz um paralelo entre essa experiência de formação repressora e as possibilidades contemporâneas de expor a fragilidade masculina com mais atenção.

Adepto da terapia, que, importante lembrar, também é uma forma de criar uma rede de apoio, o ator e dramaturgo sente que é uma exceção entre os amigos nesse quesito. Para Ligere, a dificuldade em buscar acompanhamento psicológico está na indisponibilidade para mexer em feridas e mergulhar no próprio interior, o que muitas vezes vem acompanhado de dor.

Independentemente de quem seja, todo mundo tem traumas. E imagina isso para um homem que vive dentro de um nicho, no qual nem sequer é possível expressar seus sentimentos por uma questão social

“Independentemente de quem seja, todo mundo tem traumas. E imagina isso para um homem que vive dentro de um nicho, no qual nem sequer é possível expressar seus sentimentos por uma questão social.”

Embora na sua prática clínica Artioli considere que tem um número relevante de pacientes do sexo masculino, os homens ainda são minoria nos consultórios. “Realmente, de maneira geral, são mais as mulheres que procuram os cuidados de si”, atesta o psicanalista.

Geração Z no divã

O Índice Instituto Cactus-Atlas de Saúde Mental (iCASM), criado pela entidade filantrópica de promoção do bem-estar psíquico Cactus, monitora o assunto no país e, em sua primeira coleta de dados, em 2023, constatou que apenas 5% dos brasileiros faziam psicoterapia — sendo mulheres, jovens, estudantes, brancos e pessoas de maior renda e escolaridade os grupos com maior representatividade entre os que buscam ajuda especializada.

Aqui entra também um componente geracional, não apenas de gênero: o tabu de homens mais velhos com a terapia. “Além da enorme dificuldade de colocar algumas questões da masculinidade, há uma resistência dos mais velhos em relação à terapia”, afirma. E, ele lembra, muitos dos problemas que são dos homens aparecem, na realidade, na fala das mulheres que fazem terapia. “São elas que trazem isso.”

Por outro lado, conforme a importância dos cuidados com a saúde mental ganha visibilidade na Geração Z, Artioli vê a chegada de mais homens jovens ao consultório. O que os move inicialmente, no entanto, são questões desconectadas da subjetividade e mais próximas a problemas do cotidiano e à melhora do desempenho.

“Mesmo que a porta de entrada seja mais ligada à questão da performance, seja sexual ou no trabalho, os jovens entendem que há um incômodo e isso tem a ver com saúde mental.”

Em qual idade eles se sentem mais sozinhos?

Yan Menezes Oliveira reflete sobre as fases do homem e sua relação com o pacto da masculinidade para pensar sobre os momentos de maior solidão masculina.

Para o psicólogo, o adulto funcional idealizado, que trabalha, é reconhecido, tem uma parceira fixa ou múltiplas, define um modelo para os homens dentro do pacto da masculinidade. Nesse espectro, entre os 25 e os 60 anos, Oliveira aponta que a funcionalidade de ser homem está muito atrelada à capacidade laboral, de produzir valor, de ser reconhecido e bem-sucedido, com os problemas que a competitividade e a virilidade trazem para as relações e a saúde mental.

Entre os mais velhos, o problema é o esvaziamento desse lugar. Com a aposentadoria, um importante ambiente de socialização que é o trabalho deixa de existir. “As pessoas podem até tentar se encontrar, mas já não há mais um assunto, daí tudo vira nostalgia”, diz Oliveira.

Ele destaca ainda outro ponto: o etarismo dessa lógica. “Esse ideal de masculinidade está colocado sobretudo na faixa entre os 25 e os 40 anos, antes dela você tem uma grande sobrecarga de se provar homem. E cada vez mais há estatísticas mostrando como a masculinidade para os jovens, globalmente, tem sido um tema forte”, destaca Oliveira.

A ideia de afirmação e referência de masculinidade se refletem em valores e nos espectro político, de viés conservador. “Essa sobrecarga, ao invés de ser recusada, até porque há pouco recurso para recusar (‘Se não for ser homem, vou ser o quê?’), é reiterada, inclusive por mecanismos como a internet com a proliferação de movimentos como os red pills.

Outro sintoma desse fenômeno são os “cursos” como o oferecido pelo ator Juliano Cazarré, que se tornou polêmica em abril. Chamado de “O Farol e a Forja”, foi descrito pelo seu idealizador como “o maior encontro de homens do Brasil” , a partir da “recusa em ficar calado”, diante do que Cazarré classifica como o enfraquecimento dos homens.

“Ele trabalha nessa intensificação do ideal viril, a virilidade como algo positivo — e há aspectos positivos, não se trata de demonizá-la. Mas, da forma como ele traz, há uma receptividade maior do que quando a proposta é para os homens aprenderem a dimensão do cuidado”, aponta Artioli.

Masculinidade contagiosa para outras relações

Essa funcionalidade e capacidade de se provar atribuída à masculinidade não é só uma tendência política ou social que desrespeita os homens. “Ela é muito contagiosa, no sentido de raça e classe também”, afirma.

Oliveira observa a questão pela ótica do feminismo interseccional. Para ele, a lógica de independência que sustenta a masculinidade contemporânea se espalha por outras camadas sociais, e quem tem mais recursos consegue se livrar dela com mais facilidade. “Mulheres com maior poder aquisitivo pagam outras mulheres para exercer a consideração pelo outro, com os filhos, com o jantar, com o trabalho reprodutivo.”

“O que tenho pesquisado é como essa lógica das masculinidades, de uma independência construída em torno de uma capacidade, se transforma em indiferença com o outro e se alastra socialmente. Ela atinge mais os corpos masculinizados, mas não respeita só a eles. Quando pensamos no modelo de sucesso, nunca pensamos na avó que cuidava de todo mundo e alimentava as pessoas, pensamos no executivo independente, autônomo, que não precisa de ninguém.”

Isso reflete, ele destaca, não só nos papéis de gênero, mas no tipo de sociedade que estamos construindo. “A gente não tem mais tantos centros culturais quanto antes, os espaços das praças estão esvaziados”, observa. O modelo atual coloca a independência em relação aos demais e uma competência baseada no individualismo acentuado como finalidade, o que, em uma palavra, pode ser resumido em isolamento.

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