Trecho de livro

Vermelho Delicado

Finalista do Prêmio Oceanos 2025, a portuguesa Teresa Veiga, cuja identidade real permanece um mistério, cria estranhamento a partir de situações cotidianas em novo livro de contos

Leonardo Neiva 11 de Setembro de 2026

“Da autora Teresa Veiga pouco se sabe, uma vez que não dá entrevistas nem revela a sua verdadeira identidade.” A descrição que a Wikipedia traz da autora portuguesa é suficiente para aguçar a curiosidade de qualquer leitor afeito a mistérios literários à la Elena Ferrante — este, talvez, já elucidado. Sabe-se que Teresa Veiga é pseudônimo para uma mulher talvez nascida em Lisboa em 1945, possivelmente formada em direito e filologia românica, acredita-se que ex-funcionária de um cartório. E é com os termos “afastada da exposição pública”, mas também “uma das autoras mais singulares e consistentes da literatura contemporânea” que a editora Tinta-da-China Brasil apresenta “Vermelho Delicado” (2026), seu novo livro.

Apesar do mistério em torno de sua identidade, a autora é muito bem conhecida e reconhecida entre os leitores de Portugal. Única a vencer três vezes o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, contemplada com o PEN Clube Português de Ficção e finalista do Prêmio Oceanos 2025 com este novo livro, a escritora é considerada uma das grandes contistas lusitanas da atualidade. Sua trajetória de mais de quatro décadas e quase uma dezena de livros publicados começou em 1980 com “Jacobo e Outras Histórias” (ainda sem edição no Brasil). Por aqui, aliás, ela só publicou os livros de contos “Uma Aventura Secreta do Marquês de Bradomín” (Companhia das Letras, 2011) e “As Enganadas” (7Letras, 2006).

Caracterizada por um forte domínio da linguagem, uma prosa elegante e um senso de humor por vezes cruel, a escrita de Veiga é marcada por protagonistas mulheres que circulam em ambientes tradicionais, mas acabam se deparando com acontecimentos surpreendentes. Nos setes contos reunidos em “Vermelho Delicado”, personagens singulares se veem em situações em que a realidade escapa levemente do eixo. Misturando humor, melancolia e um estranhamento típico da obra da autora, o livro cria ambientes fascinantes que lembram que, apesar do segredo que ronda sua identidade, a escritora já apresentou várias vezes ao mundo sua principal credencial: o talento para narrativas breves.

A seguir, você lê o trecho inicial de um conto de “Vermelho Delicado”.


Carlota, a louca

Quando me perguntam sobre o meu trabalho e eu digo que dou explicações de línguas ao domicílio não há ninguém que não comece por esboçar um sorriso incrédulo até perceber que estou mesmo a falar a sério e foi essa profissão arcaica que escolhi para ganhar a vida. Enfim… escolher não é o termo exacto, digamos que me foi imposta pelas circunstâncias quando saí do Reformatório com um diploma de Cambridge depois de ter frequentado vários cursos por correspondência, sempre com as melhores notas, como atesta a classificação final.

Apesar de não ter a segurança de um emprego fixo, a minha situação não é tão má como parece, pois deixa-­me uma margem maior de liberdade para planificar as lições, seleccionar os alunos e decidir até que ponto estou disposta a sacrificar a minha liberdade para lá do patamar da subsistência.

Um esclarecimento adicional: os meus métodos e uma certa energia magnética que emana de mim conseguem níveis de êxito surpreendentes e o sistema de passa­-palavra tem­-se revelado eficaz, dispensando­-me de recorrer a anúncios, ao contrário da maioria das minhas colegas e concorrentes. Já para não falar nos preços módicos, é claro.

Por isso, quando recebi um telefonema de um senhor que queria contratar uma professora de inglês para a filha e começou imediatamente a discutir as condições num inglês fluente, respondi naturalmente na mesma língua, sem mostrar surpresa nem fazer comentários.

Seria que ele queria confirmar que eu era tão competente como dizem? Ou simplesmente cedia à tentação de me deslumbrar com o seu acento very british que só podia ter sido adquirido in loco? Ea exibição continuou logo no primeiro dia em que me apresentei para dar início às lições.

— Chega dez minutos antes da hora — disse em inglês do alto das escadas onde me esperava de relógio na mão, a sua figura frágil e desequilibrada a erguer­-se lá em cima como um enorme gafanhoto.

A filha, a quem se referia como “aquela cabeça no ar”, “aquela barata tonta”, ainda não tinha chegado da escola e era frequente “perder­-se” pelo caminho

Não gostei da frase nem do tom e disse secamente que podia esperar ou ir­‑me embora, se preferisse. Amansou logo. Que nem pensar, era precisamente por respeitar muito o meu trabalho e o meu tempo que me chamava a atenção para o desperdício de chegar antes da hora. Afilha, a quem se referia como “aquela cabeça no ar”, “aquela barata tonta”, ainda não tinha chegado da escola e era frequente “perder­-se” pelo caminho, pelo que o horário já tinha em conta uma certa margem para os atrasos. Tirou­‑me o casaco das mãos e foi pendurá­‑lo no bengaleiro.

— Como vê — disse — sou o porteiro, o criado e outras coisas mais. Dantes também era o marido.

Fiquei a saber que a mulher estava internada pela enésima vez numa clínica de repouso que já começava a tornar­‑se a sua segunda casa. Ele, antes de casar, vivera muito tempo em Inglaterra, até que em má hora regressara para gerir os negócios da filial da firma em Lisboa e o resultado estava à vista: um casamento tardio falhado e uma filha que herdara o feitio impossível da mãe.

Continuava a exprimir­-se em inglês, como se fosse o seu primeiro idioma. Mas, se sabia assim tanto e estava assim tão disponível como o demonstravam o vestuário descuidado e os chinelos de pano, porque é que não utilizava algum do seu tempo a ensinar a filha?

Quis oferecer­-me uma bebida. Recusei, alegando que eu e o álcool não éramos lá muito compatíveis, depois, para ele não pensar que estava armada em moralista, expliquei que qualquer bebida alcoólica me paralisava os músculos da face.

— Que pena! — lamentou ele. — Tão nova e já privada de um dos maiores prazeres da existência!

Quis oferecer­-me uma bebida. Recusei, alegando que eu e o álcool não éramos lá muito compatíveis

Não sei porquê, comecei a detestá­‑lo. Para mudar de assunto e dar à conversa um tom profissional, mostrei­-me interessada no aproveitamento escolar da minha aluna. Só tinha dificuldades em inglês, ou…? Aresposta do homem, longe de me elucidar, só veio aumentar a minha desconfiança. Carlota não era o tipo de estudante comum, com os seus pontos fortes e as suas fraquezas. Na mesma disciplina tanto podia ter nota máxima como passar à tangente, em dias maus calava­-se ou entregava os testes quase em
branco e os professores tinham de fazer malabarismos para não lhe dar zero. No entanto, em relação ao inglês, parecia ter uma fobia particular e por causa disso estava em riscos de perder o ano lectivo. Uma qualidade ninguém lhe negava: a inteligência. Embora cultivasse uma certa preguiça mental não tinha nada de estúpida, sob certos aspectos era até esperta demais. Tão esperta que aos quinze anos já tinha toda a lábia e sedução de uma mulher.

Nesse momento a campainha da porta tocou. Um toque arrastado, irritante, propositadamente prolongado. Ohomem levantou­-se de um salto ainda de copo na mão, dirigiu­-se à porta, voltou atrás para pousar o copo à beira da mesa, correu novamente para a porta e retaliou premindo o botão durante um longo minuto.

Do alto das escadas, onde o sabia debruçado sobre a caixa-­de-­ar, a sua voz chegava até mim, chocarreira e risonha, sem o verniz de civilidade que lhe dava a língua inglesa:

— Éstu, princesa? Outra vez na vadiagem? Oque é que andaste a fazer para te cansares tanto? Sobe depressa que já tens a professora à espera.

Voltou à sala e murmurou­‑me quase ao ouvido embora os passos dela ainda ressoassem ao longe, compassados e lentos:

— Vai ser óptimo para as duas. Carlota só tem quinze anos mas não lhe falta estilo; uma cabeça cheia de serradura num corpo de mulher feita. Você, com o seu jeito, a sua paciência de professora, vai ter a honra de descer ao fundo daquele poço de segredos. Pode conversar com ela metade da aula que eu não me importo. Desde que a outra metade seja em inglês…

Ainda me passou pela cabeça ir­-me embora mas a necessidade de ganhar dinheiro falou mais alto

Decididamente, o homem inspirava­-me asco. Ainda me passou pela cabeça ir­-me embora mas a necessidade de ganhar dinheiro falou mais alto. Eentretanto os passos continuavam a ouvir-­se à distância, vigorosos e cadenciados, irritantes e solenes, uma progressão levada a cabo com uns vagares que até a mim já começavam a bulir com os nervos. Finalmente a minha aluna surgiu no limiar e bastou­-me um instante para perceber que ali quem dava cartas era ela.

Produto

  • Vermelho Delicado
  • Teresa Veiga
  • Tinta-da-China Brasil
  • 144 páginas

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