Trecho de livro

Histórias de Fantasma

Livro de memórias da escritora Siri Hustvedt relembra a vida com o marido, o autor Paul Auster, e reflete sobre a convivência com o vazio deixado por ele

Leonardo Neiva 18 de Setembro de 2026

Do primeiro encontro em 1980 à morte do autor em 2024, a romancista, poeta e ensaísta Siri Hustvedt passou mais de quatro décadas ao lado do marido Paul Auster, um dos autores mais influentes da literatura contemporânea. Também foi a principal parceira e testemunha da longuíssima batalha do autor de “A Trilogia de Nova York” (Companhia das Letras, 1999) e “A Invenção da Solidão” (idem, 1999) contra o câncer. Ao lado de posts sobre política, arte e literatura, a norte-americana de ascendência norueguesa chegou a fazer de suas redes sociais um diário da existência nas trincheiras da “Cancerlândia” e da dor de conviver com o fim iminente de quem se ama. Em “Histórias de Fantasma” (Companhia das Letras, 2026, trad. Ana Guadalupe), seu livro mais recente, ela reúne memórias cotidianas da doença, do luto, da arte e da vida com Auster.

“Todos morremos, mas só alguns de nós sabem que nossas vidas podem acabar em pouco tempo”, ela escreve. Um dos resultados do diagnóstico do câncer de pulmão que acabou matando o escritor foi que Hustvedt passou a pensar com muito mais frequência em como seria sua existência sem o marido. “O que eu não imaginava era que, depois da morte do Paul, o tempo ficaria tão desorganizado que se tornaria irreconhecível”, admite na obra.

A partir de relatos escritos durante a convivência com a doença, emails e cartas trocados ao longo do tempo e as últimas páginas inacabadas do autor, endereçadas ao neto recém-nascido, a escritora tece uma investigação sobre aquilo que fica quando alguém se vai — ou melhor, morre, para evitar um eufemismo que costumava enfurecer a mãe de Hustvedt. Significa, por exemplo, conviver com uma biblioteca criada a quatro mãos, com uma casa que de repente parece gigantesca e solitária, com as roupas, o cheiro e até os arranhões deixados no chão de madeira pela pessoa amada.

Numa conversa direta com a obra de Auster, que se aprofundou em temas como o acaso, a solidão e a busca por sentido, a autora descreve de forma sensível, mas não sentimental, a experiência de viver ao lado dos vazios deixados por uma outra pessoa. E retoma, a partir do lento caminhar do luto, reflexões sobre o amor, o casamento e a velhice que já haviam dado as caras em alguns de seus melhores livros, como “O Verão Sem Homens” (Companhia das Letras, 2013) e “O Que Eu Amava” (idem, 2004).

Você lê a seguir um trecho de “Histórias de Fantasma”.


No começo da nossa relação, Paul e eu íamos a cinemas espalhados pela cidade inteira.

Uma memória que sempre volta: em 1981, não muito depois de termos nos conhecido, Paul e eu vimos Laços humanos no extinto Thalia, um cinema precário e fedorento, mas muito simpático, que só projetava filmes antigos, na esquina da 95 com a Broadway, um lugar que nós dois já frequentávamos antes de virar um casal. Será que estava vazio ou lotado? Era tarde ou noite? Eu não lembro. Lembro, sim, que eu estava completamente apaixonada por ele, eletrizada com sua presença ao meu lado, mas também atenta ao filme. Em uma das cenas a jovem heroína, Francie, pega a caneca que seu falecido pai usava para se barbear. Não sei se Paul fez um barulho ou respirou fundo, mas me virei para olhar meu novo amor e vi seu rosto coberto de lágrimas, as gotas brilhando sob a luz que vinha da tela. Desviei o olhar na mesma hora e me perguntei: Quem é essa pessoa?

Eu não sabia quem era aquela pessoa. Anos depois eu diria a ele: “Você chora com a ficção. Eu choro com a vida”.

Não faço a mínima ideia de como se usa o DVR, embora seja fácil aprender olhando instruções na internet. Não é a minha ignorância que me impede de ver um filme todas as noites. Desde que o Paul morreu, tenho lido livros ou artigos científicos durante a noite, com concentração irregular. Tenho escutado rádio. Tenho ligado num canal de TV público sem comerciais, de preferência uma série de detetive britânica meio ruim, à qual dedico só uma parte da minha atenção. Mergulhar num filme seria reviver uma experiência recorrente que agora tem buracos. Paul não está aqui para dizer o nome de todos os atores que aparecem na tela, para me contar uma história sobre a pessoa que dirigiu o filme ou operou a câmera, para explicar como uma cena foi feita.

“Quero morrer na biblioteca. Penso em colocar uma cama de hospital aqui”, ele me disse muitíssimo antes de a cama de hospital chegar e muito antes de descobrirmos que o câncer tinha voltado. Ele sabia que queria morrer naquele espaço cheio de luz. À medida que sua morte se aproximava, a luz foi se tornando cada vez mais importante para ele.

Mergulhar num filme seria reviver uma experiência recorrente que agora tem buracos. Paul não está aqui para dizer o nome de todos os atores que aparecem na tela

Tenho dormido do meu lado da cama. Até agora não me vi ocupando mais espaço do que ocupava antes. Quando acordo, não espero que ele esteja ao meu lado. Não espero que ele entre no quarto. Sei que não posso invocá-lo, ainda que quisesse muito. Passei tempo demais sentindo medo de sua morte iminente. Ocupo o mesmo espaço da cama onde a gente se encontrava e dormia, ano após ano. É a cama dos roncos dele, e também dos meus, ainda que com menos frequência, a cama dos murmúrios semiconscientes de seus últimos meses de vida, que eu sempre tentava decifrar, mas quase nunca conseguia, à exceção da vez em que ele disse “meloxicam” — um AINE (anti-inflamatório não esteroide) que ele teve que parar de tomar porque talvez tivesse causado uma queda de níveis de sódio, mas que aliviava consideravelmente a terrível dor nas costas que ele sentia.

Dormimos juntos naquela cama pela última vez no dia 28 de abril, duas noites antes de ele morrer. Spencer levou o Paul até o quarto na cadeira de rodas e me ajudou a colocá-lo na cama. Ele, Sophie e Miles tinham vindo ficar conosco. Depois que eu me deitei na cama com Paul, ele fez carinho na minha mão e no meu braço pelo que pareceu um longo tempo. A gente conversou. Ele queria que eu continuasse viva, que vivesse muito tempo, que escrevesse mais. Acordei várias vezes naquela noite e me aproximei dele para ver se ele estava respirando. Eu fazia isso com a Sophie quando ela era bebê. Agora ela faz com o Miles. Ela olha. “Só quero ver se ele está respirando.”

Quando Paul disse “Está sendo mais rápido do que eu pensava”? (Ele estava falando da morte.) Talvez uma semana antes.

Ele pensava que teria mais tempo. Ele achava que tinha meses. Eu tinha quase certeza de que esse não era o caso, mas não disse nada. Ninguém sabe ao certo quanto tempo de vida alguém tem, afinal de contas. Por que eu diria um palpite em voz alta? Em março, Paul começou o que ele esperava que fosse um livro curto, Cartas para Miles. As trinta e cinco páginas que existem contêm quase exclusivamente histórias sobre os pais do Miles, Sophie e Spencer. Ele ia contar histórias sobre nós dois e outros membros da família, mas a forma exata que as cartas iam tomar, eu não sei.

Paul não conseguiu continuar. Ele escreveu a última carta para o neto no começo de abril.

No dia 17 de maio, acordei assustada. Onde eu estava? Depois de vários segundos de angústia intensa, entendi que minha cabeça estava nos pés da cama e minhas pernas encostadas nos travesseiros. No dia anterior, eu tinha escrito uma declaração intempestiva: “Tenho dormido do meu lado da cama”. Será que meu eu do sono tinha se rebelado? Não, você não está dormindo do seu lado da cama. A vida virou do avesso e você foi junto. Olha, você está esparramada no território dele, roubando um espaço morto.

Esta é a casa das nossas conversas curtas e longas, das nossas discussões e declarações de amor, a casa do nosso sofrimento com fatos que não podíamos controlar nem prever

Resolvi chamar meu estado de “fragmentação cognitiva”. Parece um termo que cientistas inventariam para o luto e suas confusões.

Desculpe, estou tendo uma crise de fragmentação cognitiva. Faz pouco tempo que meu marido morreu. A casa, a cama e o meu corpo estão pifando.

Esta é a casa em que a gente chamava um ao outro entre os andares; em que a gente lia os manuscritos um do outro em voz alta nas cadeiras verdes na sala; em que a gente sentava no jardim, em que eu apontava para as tulipas recém-abertas ou para as rosas desabrochando no jardim porque eu tinha medo de ele esquecer de olhar e perder o momento. Agora as rosas estão desabrochando sem ele. Elas são cor-de-rosa e lindas e estão se abrindo inteiras sem ele. Esta é a casa das nossas conversas curtas e longas, das nossas discussões e declarações de amor, a casa do nosso sofrimento com fatos que não podíamos controlar nem prever. Um raio cai. Outro raio cai. Esta é a casa de um longo diálogo contínuo sobre coisas grandes e pequenas, um diálogo que agora acabou.

O tempo está passando. Ele passa à minha revelia, aparentemente. Quero estar nele? Ou essa paralisia temporária é algo de que preciso?

No dia 19 de maio, um domingo, fiz a seguinte anotação: “Siri Hustvedt anda pela casa e fala sozinha. Ela faz uma pergunta e responde à pergunta. A mulher que agora sustenta um diálogo sozinha vive um colapso intermitente. Meros segundos depois de rir com um comentário inteligente que tinha feito para si mesma, ela olha para uma cadeira na sala de jantar, a cadeira azul em que ele tomava café todas as manhãs e jantava todas as noites, a cadeira sob a qual há arranhões no assoalho porque ele sentava com todo seu peso e às vezes se mexia mesmo estando sentado. Os arranhões que a incomodavam antes de ele morrer agora são marcas do peso de seu corpo vivo depois de ele morrer. Ela se agacha e, com os braços contra o peito, grita com as paredes insensatas: ‘Volta pra mim. Volta pra mim’.”

O luto não é constante. Consigo me proteger da tempestade por dias, mas depois o vendaval vem e me derruba.

Chegam mais cartas de condolências, mas agora em menor número. A grande pilha de cartas fica sobre a lareira na sala de jantar. Meus pêsames pelo “falecimento” do Paul. Todo mundo usa essa palavra. Pelo que entendi, ninguém mais “morre”. Só “falece”. Quando eu era criança, ouvia as pessoas dizerem “Ele se foi”. Minha mãe detestava esse eufemismo. “As pessoas não se vão”, ela dizia. “Elas morrem.” A voz da minha mãe até engrossava de tanta convicção. Essa é a voz que agora ouço na minha cabeça. Esse “se foi” praticamente desapareceu. Também há a ideia de “passagem”, e a primeira definição que encontrei do verbo “passar” no dicionário é: “Mover ou causar um movimento numa determinada direção”. Como substantivo: “Um ato ou processo de passar por ou atravessar alguma coisa”. Não faz nenhum sentido.

Paul certa vez disse: “Se a gente morasse junto por mais cem anos, viraríamos a mesma pessoa”

Estou morando numa casa mal-assombrada, e nela mora um fantasma que eu e o Paul criamos juntos, um “nós” que já não existe, não no presente, pelo menos, mas que impregnou todos os cômodos. É uma figura dupla do passado que abraça, toca, faz amor, dá risada, acalma, briga e fala baixinho com piadas internas e referências que só “nós” conhecemos.

Paul certa vez disse: “Se a gente morasse junto por mais cem anos, viraríamos a mesma pessoa”.

Produto

  • Histórias de Fantasma: Memórias
  • Siri Hustvedt (trad. Ana Guadalupe)
  • Companhia das Letras
  • 360 páginas

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