Trecho de livro

Feiura

Ao narrar sua revolta contra a própria aparência na juventude, a afegã Moshtari Hilal questiona características que consideramos típicas da feiura

Leonardo Neiva 25 de Setembro de 2026

O que torna alguém feio? Um nariz grande demais, a abundância de pelos grossos, os dentes tortos… A presença dessas características fez com que, desde muito jovem, Moshtari Hilal tivesse uma certeza: havia nascido excepcionalmente feia. A partir do momento em que a frase se transformou em convicção, a escritora e artista visual afegã fez de sua meta de vida traçar sucessivos combates contra o que acreditava separá-la de tudo que era belo. Uma batalha em que os pelos, que nasciam espessos e grossos por todo o rosto, acabaram se tornando alvo ideal e seu principal bode expiatório.

Embora Hilal narre com detalhes em “Feiura” (Dublinense, 2026, trad. Gisele Eberspächer) sua luta perdida contra esse inimigo de recursos infinitos, o livro vai muito além de sua história pessoal. Especialista em estudos islâmicos e ciência política, a artista tem também uma vivência acadêmica com foco em teoria de gênero e decolonialidade. Aqui ela combina memórias, reflexões poéticas e análise cultural, partindo da rejeição que sentia contra o próprio corpo para questionar características físicas consideradas indesejáveis, repulsivas e até perigosas — e como elas podem mudar, dependendo do contexto.

Primeira publicação ensaística da artista, cofundadora do AVAH (Afghan Visual Arts & History), coletivo e plataforma multimídia dedicado à cultura visual afegã, “Feiura” recebeu o Prêmio Literário de Hamburgo de não ficção. Na obra, os narizes proeminentes e pelos corporais escuros que povoam as memórias da infância e juventude de Hilal servem de ponto de partida para tratar de temas que vão da xenofobia à teoria da evolução, passando por questões como os salões de beleza de Cabul e a imagem de Kim Kardashian.

Abaixo, você lê um trecho da obra.


Bela fuça

O que é que se escondia por trás dessa sua bela fuça?
Eram sempre rostos como o seu
que aproveitavam para fazer caretas,
como se a simetria permitisse.

Um sorriso
ficava de guarda
quando nossos olhares
passavam por vocês.

Sua beleza me perseguia.
Mas que saudade é essa
que anseia uma aparência e um corpo
que me ofendiam na sua simplicidade,
mas prometiam validação no seu eco.

A ausência, a presença
de lacunas e curvas,
da escuridão da nossa testa,
da densidade das nossas bochechas peludas,
será que apenas isso determinaria
quem receberia olhares indulgentes
e quem passaria despercebido?

Fiquei vermelha de vergonha
pela minha devoção a uma beleza
que era sua,
não minha.

O que é que se esconde por trás dessa sua bela fuça,
em cuja contradição residimos.

Deixar os outros viverem e prosperarem
com a própria rejeição,
que constrangedor.

Fiquei vermelha de vergonha/
pela minha devoção a uma beleza/
que era sua,/
não minha

Cartografia da minha feiura

A cartografia da minha feiura era um desenho cínico, uma representação na qual trabalhei dia e noite enquanto meu corpo passava pela puberdade. Me examinava e acrescentava linhas ao desenho onde não havia nada no dia anterior. Olhava no espelho e apagava e desenhava sobre as linhas anteriores, que pareciam mais pronunciadas e grotescas a cada dia que passava. Dividi meu pequeno corpo em territórios inimigos. Descolorantes químicos eram aplicados do quadril para cima; a lâmina de depilar, do quadril para baixo.

Lá estava minha cabeça, grande e instável, num pescoço magro e num corpo pequeno e baixo. O rosto era uma bagunça, mal tinha espaço. Dei a mim mesma um nariz pontudo e frio, como uma lâmina afiada, como um lugar do qual qualquer um que se aproximasse demais se cortaria.

Meus olhos eram vidrados e cansados, os globos oculares grandes e intensos, as olheiras sob eles profundas e marcadas. E minha boca ficou muito pequena e insignificante, seca e solitária.

Esse era o desenho — um acerto de contas cínico com meu corpo, ao mesmo tempo matemático e militar. Uma análise honesta, com o objetivo de me preparar de forma realista para mim mesma. Não tinha como eu ser bonita.

Mas será que eu precisava ser excepcionalmente feia? Uma coisa era ser baixa, magra e distinta, mas ser baixa, magra, distinta e peluda — isso era insuportável. Meu plano de ação mirou nesse último elemento.

Meus pelos se tornaram o bode expiatório.

Meu bigode era bem visível e, ao contrário da maioria das outras partes do meu corpo, não podia ser escondido. Quando eu falava, cada palavra era emoldurada por pelinhos. E esses pelinhos me privavam da minha feminilidade. Meu bigode era mais espesso e mais grosso do que a penugem no queixo e nas bochechas. Eu poderia ter descolorido para deixar menos perceptível, mas aí teria que fazer isso no rosto todo. De que outra forma eu poderia explicar a transição da penugem loira para os pelos pretos que brotavam de todos os folículos da minha sobrancelha e do resto do meu corpo?

Não tinha como eu ser bonita. Mas será que eu precisava ser excepcionalmente feia?

Quando minha irmã tinha vinte e cinco anos, a ginecologista dela acariciou seu rosto e a parabenizou: “Estou vendo aqui que o seu cabelo tende para o loiro, então, se tiverem sorte, talvez os gêmeos também sejam loiros”. Não tive a sorte de nascer loira, muito menos a minha irmã, que me ensinou a passar um creme azul fedorento no rosto e abaná-lo com uma revista até a pele parar de arder. O produto costumava queimar alguns pontos no queixo e ao redor da boca. Então, em vez de pelos, eu tinha pequenas feridas por toda parte. Às vezes eu me perguntava o que preferia: feridas ou pelos?

O efeito loiro não durava muito tempo. As raízes eram pretas, mesmo com as pontas loiras ainda brilhando. Meu rosto parecia anti-higiênico, sujo. Às vezes, eu me perguntava o que preferia: sujeira ou pelos?

Se raspasse o bigode, ele crescia de novo e parecia uma barba por fazer em dois ou três dias. Se raspasse com muita frequência, corria o risco de ter uma irritação causada pela lâmina. Em momentos de total desespero, eu me perguntava o que preferia: uma irritação ou pelos?

Dessa forma, continuava mapeando meu corpo e declarava guerra à minha pele. Muitas dessas ofensivas me ensinaram estratégias defensivas. Uma mão no rosto para me esconder quando falava, um espasmo em público, uma hesitação, um afastamento abrupto de um interlocutor sob o sol escaldante. Sempre que alguém olhava para mim, eu sentia um medo agitado do bigode por fazer, da impureza, da feiura. Estava envolvida numa batalha tão repetitiva quanto entediante. Teria ficado furiosa com o desperdício de tempo e energia se já não tivesse esgotado ambos em cada um dos pelinhos. Quando removia os pelos dos braços, onde deveria parar? No cotovelo, no ombro, no pescoço? Onde terminavam os pelos ilegítimos e começavam os legítimos? Eu poderia arrancar, depilar com lâmina ou com cera, fazer tratamento a laser, depilação profissional permanente. Mas, por mais que meus pelos me atormentassem, não conseguia me livrar da sensação de que não ganharia nada por erradicá-los.

Sempre que alguém olhava para mim, eu sentia um medo agitado do bigode por fazer, da impureza, da feiura. Estava envolvida numa batalha tão repetitiva quanto entediante

Produto

  • Feiura
  • Moshtari Hilal (trad. Gisele Eberspächer)
  • Dublinense
  • 224 páginas

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