Artigo

Os lutos de Thallys

No ensaio autobiográfico “Filho”, o jornalista Thallys Braga acessa memórias duras da infância e juventude, e reflete sobre o difícil gesto de partir

Pedro Ângelo 15 de Setembro de 2026
Foto de Diego Bresani

Dois dos fatos mais marcantes da vida do escritor e jornalista Thallys Braga aconteceram entre seus 13 e 20 anos. A descoberta de sua homossexualidade pela mãe, em 2013, e a morte dela, em 2019. O luto, a orfandade, a homofobia e a pobreza são alguns dos fios condutores do livro “Filho”, publicado neste mês pela Companhia das Letras.

Na capa da obra, está a silhueta do autor, em que só é possível ver os seus contornos. Não conseguimos distingui-lo. Não conseguimos ver seus olhos, sua expressão. Na medida em que abrimos o livro e avançamos, o recheio daquela silhueta vai se revelando e conseguimos observar com nitidez, com clareza, com riqueza não só o rosto de Thallys, mas também o seu íntimo, seu interior.

O ensaio autobiográfico é separado em três partes: Infância; Juventude e Este verão. E, apesar de o sumário sugerir uma cronologia, Braga se desloca com habilidade entre o passado distante, o recente, o presente e o futuro, e nos convida a mergulhar junto com ele nesse oceano imenso e profundo chamado memória.

No livro “Sobrevivência dos Vaga-lumes” (trad. Vera Casa Nova e Márcia Arbex, Editora UFMG, 2011), Georges Didi-Huberman escreve: “Se a imaginação – esse mecanismo produtor de imagens para o pensamento – nos mostra o modo pelo qual o Outrora encontra, aí, o nosso Agora para se liberarem constelações ricas de Futuro, então podemos compreender a que ponto esse encontro de tempos é decisivo, essa colisão de um presente ativo com seu passado reminiscente”.

Didi-Huberman usa a luz breve e frágil dos vaga-lumes como metáfora para falar a respeito da resistência e da esperança em tempos difíceis. Em discussão com o poeta italiano Pier Paolo Pasolini, o filósofo francês apresenta a ideia de que, mesmo sob luzes fortes e opressoras, pequenas formas de liberdade ainda conseguem existir na escuridão.

O relato de Braga se relaciona com a ideia de Didi-Huberman na medida em que o escritor carioca tenta encontrar maneiras de sobreviver às opressões que lhe são impostas. Ele conta no livro que perdeu sua virgindade no início da adolescência com um menino do bairro. “Me habituei a viver entre quatro estados: o desejo, a realização, a culpa e o desespero pelo perdão”, escreve e, mais adiante, conclui: “Decidi descrever as cenas porque elas são importantes para compreender os acontecimentos que se seguirão no relato, mas, sobretudo, porque sinto um profundo orgulho de ter honrado o meu desejo enquanto o bairro operava para asfixiar quem eu era”.

Arquivo pessoal/Thallys Braga

Nascido em uma família pobre, o escritor viveu a maior parte da infância e juventude na casa dos avós, em Inhoaíba, no subúrbio do Rio de Janeiro. O espaço era dividido entre ele, os avós, a mãe e dois tios. Em 2013, em uma manhã de maio (“a manhã do trauma”), sua mãe descobriu que o filho era gay ao ligar o computador e se deparar com as redes sociais dele abertas. “Ela se tornou uma mulher impiedosa. ‘Sua vida agora vai ser ir para a escola e voltar para casa.’ Eu estava proibido de acessar a internet e de ligar para qualquer pessoa”, conta Thallys sobre o período que chamou de “meu isolamento”.

O autor faz um caminho parecido com o de outros escritores, trânsfugas de classe que usaram os estudos como alternativa para se distanciar da origem pobre

“Eu não pensava em cura para a homossexualidade. Sabia que era impossível, depois de ter passado anos na igreja pedindo, em vão, o socorro divino. Pensava em mudar de vida, conseguir independência financeira. Dizia para mim mesmo que precisava ser paciente e fazer as coisas certas: estudar e trabalhar para ter condições de ir embora, viver longe dali”. Aqui, o autor faz um caminho parecido com o de outros escritores contemporâneos, como os franceses Didier Eribon, Annie Ernaux e Édouard Louis, trânsfugas de classe que usaram os estudos como alternativa para se distanciar da origem pobre. Mais do que uma ascensão econômica, o termo – presente na obra do sociólogo francês Pierre Bourdieu – foca nos impactos psicológicos, emocionais e culturais dessa transição.

No livro, Braga conta de um relacionamento que teve com um rapaz identificado somente pela letra G, nascido em uma família com boas condições financeiras. Braga guarda na parte dedicada a G momentos bonitos de carinho e afeto, descritos com uma sinceridade que nos aproxima dos dois. Apesar de o autor ter sido bem recebido e acolhido pelos pais do namorado, as diferenças entre eles impossibilitaram a continuidade da relação. “Embora eu o amasse, sabia que G nunca poderia entender metade do que eu sinto. Dividimos tristezas, mas só um de nós conheceu a pobreza, a morte e o desespero”.

Um filho sem pais

O autor parte da biografia de si e da mãe para investigar o que significa ser um filho sem pais. A mãe morreu há sete anos, em 2019, depois de um infarto agudo do miocárdio, conforme a descrição em sua certidão de óbito. “Com certeza a obesidade contribuiu para o infarto, mas eu poderia dizer que a minha mãe morreu de pobreza. Que, aos quarenta e um anos, vivia à beira da loucura porque as contas não paravam de chegar (…)”.

Uma década antes da morte de Luciana, Marcelo, o pai ausente, um homem negro e dependente químico, morreu assassinado quando Thallys tinha apenas dez anos.

Luciana passou a vida buscando a independência financeira para sair da casa dos pais com o filho e alugar “um cantinho” para os dois. Conseguiu realizar esse sonho brevemente em raros momentos em que teve condições de arcar com o aluguel de uma quitinete, mas a conquista logo se desfazia e eles voltavam para a casa dos avós.

Ao longo de sua breve vida, Luciana se dividiu entre o trabalho como empregada doméstica em apartamentos da classe média da Barra da Tijuca, a alfabetização de crianças em igrejas evangélicas de Inhoaíba e, mais perto de sua morte, cuidando da lanchonete de seus pais, avós de Thallys, e fazendo bolos e doces pra vizinhança para inteirar a renda familiar.

Durante um bom tempo de sua juventude, Luciana passou por longos períodos vivendo de segunda a sábado na casa dos patrões, sem poder cuidar da própria saúde ou encontrar seu filho ao final do dia, depois do expediente.

Não esquecer

O jovem jornalista, formado pela Universidade Federal Fluminense e hoje repórter da revista piauí, escancara as precariedades de se viver com a pobreza, colocando uma lupa sobre o cotidiano dos seus anos de formação, e expõe o íntimo de si e de uma boa parcela da população brasileira.

A aparente contradição é que ele não quer deixar o seu passado de lado. Escreve, no fim das contas, para lembrar, para guardar, para não esquecer

E mesmo hoje, com um salário que o possibilita alugar um apartamento em Niterói e ter uma vida mais confortável, Thallys Braga ainda é invadido pelos fantasmas dos anos de sua infância e juventude. Mas a aparente contradição é que ele não quer deixar o seu passado de lado. O autor escreve, no fim das contas, para lembrar, para guardar, para não esquecer. E ele tem um bom motivo pra isso.

Não é à toa que Braga dedica seu livro ao futuro. Apesar de o passado ocupar maior parte da obra, é olhando para o horizonte que o autor carioca escreve. Colocada no gênero da não ficção, eu não diria que “Filho” é um retrato da vida de Thallys Braga e das pessoas que estão no seu entorno, pois a fotografia como mídia – estática, fixa, imóvel – não dá conta de abarcar a vida que há no texto de Thallys. Eu diria que o livro se aproxima mais de um filme, com um final aberto e em constante trabalho de edição. “Filho” nasce como um livro que ecoa e que não termina com o ato de sua publicação. Por estar tão atrelada à vida do autor, a obra se torna também um organismo vivo, salta das páginas e continua a ser escrita. “Filho” é um gesto literário de permanência no mundo da história de Thallys Braga e de todos que a rodeiam.

Pedro Ângelo nasceu no Rio de Janeiro em 1990 e vive em Belo Horizonte, onde trabalha como professor de Ioga. É jornalista e especialista em Artes Plásticas e Contemporaneidade pela Escola Guignard/UEMG. Colaborou com o Suplemento Literário de Minas Gerais e foi repórter no Portal G1. É autor de “Deixei Flores sobre meu Pai” (Editora 7Letras, 2025).

Produto
  • Filho
  • Thallys Braga
  • Companhia das Letras
  • 232 páginas

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