Nos acostumamos com a desigualdade?
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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

A pobreza de tempo que atinge as mulheres negras

Especialistas afirmam que a falta de horas livres no dia é resultado de uma visão machista sobre o trabalho doméstico e ajuda a perpetuar desigualdades

Leonardo Neiva 20 de Setembro de 2026

A pobreza de tempo que atinge as mulheres negras

Leonardo Neiva 20 de Setembro de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Especialistas afirmam que a falta de horas livres no dia é resultado de uma visão machista sobre o trabalho doméstico e ajuda a perpetuar desigualdades

Imagine a seguinte rotina: você acorda, limpa a casa, prepara e leva os filhos à escola, pega a condução para o trabalho, passa horas no trânsito, mais algumas no trabalho, depois enfrenta um engarrafamento na volta, chega em casa, prepara o jantar, lava a louça, faz as tarefas domésticas, deixa o lanche das crianças pronto para o dia seguinte e cai na cama esgotada, apenas para acordar dali a poucas horas e repetir praticamente a mesma sequência. Reparou que, na lista, não sobra tempo para nada além das obrigações profissionais, domésticas e de cuidado dos filhos? Pois muita gente vive rotinas bastante semelhantes a essa — muitas vezes seis dias por semana, para quem trabalha na escala 6×1 — sem se dar conta de que enfrenta um problema profundo de pobreza de tempo.

Criado em 1977 pela economista norte-americana Clair Vickery, o termo sugere que a pobreza não pode ser medida apenas por fatores financeiros. Ou seja, famílias e indivíduos que, por diversas razões, precisam se manter ocupados bem mais do que as horas de uma jornada de trabalho tradicional acabam convivendo com uma outra face da desigualdade: a falta de tempo livre para descanso ou lazer, essenciais à manutenção da saúde e do bem-estar.

A pesquisadora da USP Letícia Graça Pereira, do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Faculdade de Economia da USP, por sua vez, define o conceito como uma insuficiência de tempo para realizar as atividades necessárias a uma vida digna. Estudos recentes apontam que, no Brasil, são as mulheres negras que mais sofrem com a questão. Um dos motivos é a alta carga de trabalho doméstico e de cuidado, que ainda recai muito mais frequentemente sobre os ombros delas.

“Para pagar pela moradia, alimentação e condições de vida de seus filhos, as mulheres encaram jornadas extenuantes, em situações de assédio, escala 6×1 e transportes que chegam a tomar três, às vezes quatro horas do dia delas, já que precisam cruzar a cidade para ir aonde o dinheiro está – e esse lugar não é onde elas moram. Quando voltam para casa, exaustas, encaram a situação de ainda terem que cuidar da casa, dos filhos, da roupa, da comida e de uma lista interminável e repetitiva de outras tarefas domésticas”, descreve a professora da UFRN e doutora em demografia Jordana de Jesus.

A juíza e pesquisadora de direito do trabalho Bárbara Ferrito pega emprestado o termo “soberania do tempo”, usado pelo escritor Mia Couto, para explicar a situação enfrentada por boa parte das mulheres. “Você não tem soberania sobre o seu tempo, ou seja, não decide como gastá-lo. Por ser mulher, é você que vai cuidar das crianças, lavar a louça, cuidar da casa e gerenciar tudo”, aponta a autora do livro “Direito E Desigualdade – Uma análise da discriminação das mulheres no mercado de trabalho a partir dos usos dos tempos” (Venturoli, 2021).

No mundo atual, muitos de nós acabamos sentindo que falta tempo para assistir a um filme, ler um livro ou fazer algum curso. Para Ferrito, porém, a pobreza de tempo vai além desse sentimento hoje generalizado na sociedade. Ela trata de quem sofre com a falta de horas no dia para realizar atividades fundamentais. “É aquela pessoa que dorme no ônibus, que come no caminho para o trabalho, que não tem tempo, às vezes, para trabalhar nem para dormir”, descreve.

Historicamente, a pobreza atinge principalmente a população negra e as mulheres no Brasil. O Índice de Justiça Econômica Racial (Ijer) aponta que mulheres negras são o grupo que tem os indicadores mais baixos de renda, emprego e moradia por aqui. Elaborada pelo Fundo Agbara, em parceria com a ActionAid e a Fundação Volkswagen, a pesquisa mostra que, em 2023, a renda domiciliar per capita para elas era de R$ 1.191,66, metade da dos homens brancos.

Não sobra tempo para descansar, para dormir, para respirar

A professora da UFRN aponta ainda que, na falta de outros pilares de apoio, como o Estado, o mercado, a comunidade e os próprios maridos, muitas mulheres acabam tendo que contar com as filhas para dividir as responsabilidades domésticas. “Não sobra tempo para descansar, para dormir, para respirar. Não há tempo para fazer atividade física, ficar ao ar livre, sozinhas, para pensar sobre si. Tempo para terapia, para leitura, para estudos ou participação política. Essa é a face cruel da pobreza de tempo”, declara Jordana.

“Mulheres pobres, sobretudo as negras, não dispõem de recursos financeiros para custear serviços de empregada doméstica, cuidadores ou babá, tendo que assumir uma dupla ou até tripla jornada de trabalho, ao alocar o tempo entre trabalho remunerado, não remunerado — trabalho doméstico — e reprodutivo, a criação dos filhos”, afirma a economista e professora da Universidade Federal do Ceará Lilian Lopes Ribeiro, pesquisadora do Laboratório de Estudos da Pobreza. Um trabalho geralmente invisível e, em muitos casos, ainda mais extenso num país em que cerca de 15% dos lares são chefiados por mães solo.

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O dia de 22 horas

Ao falar do assunto, fazer um recorte de raça e classe é fundamental, na opinião de Ferrito. “É importante pensar no racismo geográfico, em que as pessoas negras e pobres estão longe dos centros urbanos. Então, muita gente gasta 2h30 para ir e 2h30 para voltar do trabalho.” Como os ônibus ou vagões de trem estão muitas vezes lotados, não dá nem para aproveitar esse tempo para cumprir outras atividades, como ler, estudar ou descansar.

Mas também é impossível ignorar a relevância e o impacto do machismo estrutural, que impõe às mulheres, de forma sutil ou escancarada, o ônus do trabalho doméstico e de cuidado, lembra Ribeiro. “Metade da sociedade, os homens, está absolutamente confortável com a ideia de que a outra metade está a serviço das necessidades deles. Para que essas necessidades sejam atendidas, trabalham mulheres de todas a idades, desde a infância até a velhice”, afirma Jordana.

As mulheres brasileiras ainda dedicam 9,6 horas a mais — quase o dobro — do que os homens toda semana no trabalho doméstico, segundo levantamento de 2022 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua).

As mulheres brasileiras ainda dedicam 9,6 horas a mais — quase o dobro — do que os homens toda semana no trabalho doméstico

“Eu acho essa estatística muito interessante porque ela dá quase 1h30 por dia”, analisa Ferrito. “Então, quando as pessoas falam que todo mundo tem as mesmas 24 horas, as mulheres na verdade têm 22h30, porque 1h30 elas passam cumprindo papéis de gênero que não querem e para os quais não estavam preparadas.”

Segundo a juíza, o que acontece muitas vezes é que elas acabam deduzindo essas horas do tempo que gastariam num trabalho produtivo e remunerado, intensificando o fenômeno da feminização da pobreza. Isso porque, além de mulheres já ganharem menos devido à desigualdade e ao preconceito de gênero, a tendência faz com que elas acabem trabalhando menos horas no mercado formal. “As mulheres negras representam 27,4% da população, fazem 44,2% do trabalho de cuidados do país e ficam com apenas 14,% do que é pago em salários”, resume Jordana.

Então, se para os homens o trabalho remunerado é prioridade, e ajudar na casa e cuidar dos filhos fica como opção no tempo livre, para muitas mulheres, a equação se inverte: “Primeiro elas têm que dar conta do filho, depois da casa, e o que sobrar é que está disponível ao trabalho produtivo”, afirma Ferrito.

Onde o calo aperta

Com o acúmulo da falta de tempo para descansar ou aproveitar atividades de lazer, uma das áreas mais afetadas da vida é inevitavelmente a saúde mental, apontam os especialistas consultados por Gama. Segundo a professora Lilian Lopes Ribeiro, as vítimas desse problema costumam estar “mais suscetíveis à privação de sono, ao estresse crônico, à ansiedade e à depressão”. E, claro, raramente há tempo ou recursos para buscar atendimento psicológico.

O problema também cria um círculo vicioso capaz de intensificar dificuldades profissionais e financeiras. Ferrito alerta que a falta de tempo pode agravar deficiências do mercado de trabalho, como a ausência de mulheres nas associações e sindicatos. Isso torna ainda mais raro, na visão da juíza, o debate em torno de convenções específicas de gênero na maioria das categorias profissionais.

“Essas normas poderiam prever, por exemplo, um dia de folga para quem tem endometriose, uma licença-maternidade estendida ou uma licença-lactante. Mas esses pontos não são nem discutidos, porque as mulheres não estão no sindicato”, diz a pesquisadora.

Várias áreas da vida acabam sendo tragadas por esse vórtice de escassez, desde o avanço acadêmico, com a impossibilidade de realização de um mestrado ou doutorado, até o tempo que elas poderiam passar com outras mulheres. “Se o homem tem o futebol do domingo, o que as mulheres têm?”, questiona Ferrito. “Muitas vezes, nada.”

A pesquisadora Letícia Pereira dá uma ideia da dimensão desse impacto para a vida de muitas mulheres: “Atinge o tempo que elas têm para estar no mercado de trabalho formal, para acessar a saúde, a educação, a formação profissional, a segurança alimentar e uma alimentação adequada, a cultura, o lazer, então tudo isso está bastante entrelaçado.”

Uma política para o nosso tempo

Ferrito reforça a importância estrutural de iniciativas a exemplo da Política Nacional de Cuidados como um primeiro passo para tirar da invisibilidade um trabalho ainda muito pouco considerado na sociedade. Mas avalia que a legislação brasileira e até mesmo a prática do direito ainda reconhecem somente em casos muito raros o quanto a desigualdade pode afetar o tempo de cada indivíduo. “Quando a legislação passa a achar que todo mundo tem as mesmas 24 horas, ela gera um mercado de trabalho desigual”, declara.

Apesar de descrever a política como audaciosa, a juíza também afirma que o país está engatinhando no caminho para concretizá-la de fato. “Agora a gente precisa de uma mudança de consciência, porque o cuidado está invisibilizado há séculos. Então, trazer essa visibilidade para ele ainda é um trabalho considerável.”

Quando a legislação passa a achar que todo mundo tem as mesmas 24 horas, ela gera um mercado de trabalho desigual

Um dos principais gargalos para construir uma política que reduza de maneira efetiva a pobreza e a desigualdade de tempo é a escassez de dados sobre o tema no Brasil, aponta Pereira. Isso porque, ao contrário de outros países da América Latina, por aqui praticamente não há pesquisas independentes em torno da questão. As informações que chegam até nós ainda dependem da Pnad Contínua, onde o tempo representa apenas um módulo entre vários outros.

“É insuficiente, porque além da pergunta não diferenciar muito as demandas [de tempo], ela é feita de forma que a pessoa precisa lembrar tudo que fez na semana inteira ali, em um único momento”, avalia a pesquisadora. Sem dados precisos, acrescenta, fica muito mais difícil conseguir bases para formular políticas e incentivar o debate público.

Pereira destaca a importância da criação de aparelhos públicos como as cuidotecas, que acolhem crianças como forma de reduzir a sobrecarga de mães, pais e responsáveis. Mas a pesquisadora também considera o orçamento atual muito curto para o tamanho do problema e diz faltarem ações que promovam uma transformação cultural na visão sobre o assunto.

A professora Jordana de Jesus reforça que as conquistas até aqui, incluindo questões como o aumento da licença-paternidade, ocorreram graças à luta das mulheres. Para ela, a nova política de cuidados nasce com muitos desafios, mas também muitas potencialidades. “Olhando para o histórico de luta das mulheres, sabemos que serão elas a lutarem pela continuidade dessa política, pela ampliação do escopo e abrangência territorial até chegarmos a uma realidade para nós.”

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