Trecho de livro

Noite Negra

Uma das presenças mais aguardas na Feira do Livro, Pilar Quintana lança romance que retrata as ameaças em torno da solidão das mulheres

Leonardo Neiva 22 de Maio de 2026

Quando iniciar seu encontro com o público brasileiro no domingo (31) do primeiro final de semana da Feira do Livro, em São Paulo, o mais provável é que Pilar Quintana se veja de frente com centenas de fãs do romance “A Cachorra” (Intrínseca, 2020) — de longe o mais popular da autora colombiana por aqui. Mas a narrativa sobre solidão feminina, o desejo da maternidade e a pobre canídea, que se encontra em meio às emoções conflitantes de sua tutora, agora ganha uma adição de peso na estante da escritora com “Noite Negra” (Companhia das Letras, 2026), com tradução para o português de Elisa Menezes.

Assim como as outras obras de Quintana — por aqui, ela também publicou “Os Abismos” (Intrínseca, 2022) —, o ponto de partida é simples: a protagonista Rosa se despede do marido, que precisa se ausentar por alguns dias do idílico refúgio que os dois construíram longe da vida opressiva da cidade. Uma cabana rústica erguida a quatro mãos e que se equilibra no limite entre a selva e o mar do Pacífico colombiano. Mas esse rápido afastamento, aparentemente banal e inofensivo, acaba revelando uma outra face muito mais sombria do refúgio construído pelo casal.

Em meio à solidão, tudo o que antes representava um cotidiano em harmonia com a natureza passa a oferecer ameaça, dos insetos e animais selvagens aos perturbadores ruídos noturnos. Quintana segue retratando com sucesso as inúmeras consequências que as imposições sociais depositam sobre os ombros das mulheres, assim como o impacto de uma solidão inevitavelmente repressiva. Nada representa melhor essa opressão do que os olhares masculinos em torno da personagem, que se tornam subitamente perigosos assim que o marido sai de cena. Olhares que despertam traumas e violências profundos, e que a autora explora numa escrita urgente, com uma força poética irresistível.


Ela chega rápido em casa, com o maruim na sua cola, espalhado, mas insistente. Deixa a cabaça na bancada do pátio e as botas viradas para baixo, escorrendo, apoiadas em uma estaca. Tira as meias, o xale e o biquíni, torce-os, pendura-os no varal e contorna a casa.

Nua, com o maruim atormentando-a, a lanterna em uma das mãos e o facão na outra, ela contempla a noite. As ilhas parecem rochas em um deserto quase tão negro quanto o céu. Consciente de sua nudez, ela sobe e entra.

Guarda o facão e a lanterna no canto das ferramentas.

Em mais uma visão que a persegue, ao acender o lampião, ela se depara com uma fera no meio do quarto, pronta para atacar, um porco-do-mato, um gato-do-mato, uma ave de rapina, a horrenda surucucu que salta em seu rosto ou, pior, a brava jararaca que ela toureou e que nunca a esqueceu, um animal vingativo que encontrou o que procurava, ela. Quase prefere ficar no escuro. Acende a luz com medo e descansa. Não há nenhuma besta.

Reaplica o repelente e veste a calcinha e o pijama de novo. Pega o pente de madeira e desembaraça o cabelo sem se ver. Eles não têm espelhos. O que trouxeram na mudança chegou quebrado. Sete anos de azar, disse a si mesma ao tirá-lo da caixa. Quando terminaram a prateleira compraram na venda um espelho quadrado de toucador. Não durou nem dois dias. Ela estava se penteando e, quando Gene entrou carregado de ferramentas e pisando forte com as botas, o espelho escorregou da prateleira e se estilhaçou. Mais sete anos de azar. Por superstição, decidiu que não o substituiria enquanto o quarto estivesse em obra.

Ela o contempla. As ferramentas e os sacos de cimento num canto. A prateleira com os livros, o pequeno pulverizador de mão, o repelente, o pente de madeira e o copo para a pasta de dente e as escovas, das quais no momento resta apenas uma. O galho que serve de cabideiro para as capas de chuva, as sacolas de tecido para as compras e o rolo de papel higiênico. O móvel rústico da cozinha, a caixa térmica e as malas. O banquinho de Gene vazio. Os plásticos pretos nas aberturas da janela e da porta.

Entre ela e os vizinhos do penhasco há vastas extensões de selva. Ninguém ouviria seus gritos

Para entrar não precisariam nem rasgá-las, bastaria afastá-las com a mão. O povoado está lá embaixo do outro lado do estuário, e entre ela e os vizinhos do penhasco há vastas extensões de selva. Ninguém ouviria seus gritos.

Deixa a colher com as espinhas do pargo dentro da panela e esta na caixa térmica para que os animais não venham atraídos pelo cheiro, formigas, ratos-do-mato ou gambás. Escova os dentes e cospe os restos no balde preto, onde também urina de cócoras. Seca-se com um pedaço de papel higiênico e o descarta na lata velha de esmalte anticorrosivo em que jogam o lixo. Pega o facão, apaga o lampião e a casa fica negra.

Apoia o facão no mezanino e sobe, escalando as quatro ripas transversais cravadas na coluna da parede. O espaço sob o telhado de duas águas é tão apertado que ela precisa entrar engatinhando. O colchonete de espuma está estendido, emoldurado pela bolsa da barraca, as caixas lacradas do vaso sanitário e de outras instalações para o banheiro e a cozinha. No teto está pendurada uma tela retangular que compraram na venda de seu José, feita de um filó especial tão fechado que impede a passagem até dos insetos mais minúsculos. Está recolhida. Ela a solta, prende-a debaixo do colchonete e se deita com o facão no lugar de Gene.

No mezanino ela se sente segura. É como estar em um moisés. O vaivém do mar e os sons da selva a embalam e ela sente a imensidão lá fora. Passa os dedos lentamente pela lâmina fria do facão. Se eles vierem ela vai fingir que está dormindo até que cheguem lá em cima e então zás!, facão neles. Pega-o pelo cabo e tenta manuseá-lo. Com tão pouco espaço disponível, mesmo não sendo uma lâmina longa como a de Gene, mas sim um facãozinho de jardinagem, é difícil movê-lo e corre o risco de rasgar o filó. Ela se pergunta se uma faca não seria melhor.

Desce. Pega a maior que têm, a que usam para limpar peixe, que é uma peça única e tem a lâmina longa que termina em uma ponta finíssima.

Sobe e se deita. Sente o peso e a rigidez do metal em sua mão. Empunha-o e faz alguns movimentos. Eles que se atrevam, diz ela apunhalando o ar.

Era por causa de Gene que a tratavam com deferência. Eles não a respeitam

Bastou que seu marido saísse para que todos ficassem descarados, até os que pareciam sérios. Mas fica tranquila, Rosita, que a gente vem e consola você. O que mais doeu nela foi seu Israel ter feito vista grossa. Era por causa de Gene que a tratavam com deferência. Eles não a respeitam. Deixaram você sozinha?, perguntou Rodrigo. E ela: nem tão sozinha assim. Foi isso que fez o engenheiro se assanhar. Seu flerte. Se pudesse voltaria no tempo para apagá-lo e ficaria com a cara fechada como quando se despediram. Deixaram você sozinha? E ela muda.

Começa a cair uma chuva fina que não promete nada.

Rodrigo tem a mesma atitude e idade que Fermín teria. Quarenta e dois anos. Parece tanto com ele. Por isso ela sucumbiu. Tem andado excitada desde que o conheceu, com sonhos vívidos e raros, que a tocam, que está no páramo andino e seus ossos são de gelo, que a espionam da floresta.

No dia em que viu Fermín pela primeira vez ele estava fumando do lado de fora do café da universidade com os cachos bagunçados e um hematoma já antigo no olho, amarelado e desinchado. Ele jogou a bituca no chão, despedaçou-a com o sapato e passou pelo grupo em que ela estava com suas colegas, umas bobocas do primeiro ano. Ele, um magrelo experiente. Não passou mais por ela. Nem a olhou. Se não tivessem se esbarrado na festa do fim de semana ela poderia ter seguido muito bem com sua vida.

Rosa tem um fraco pelos caras maus. Que merda, diz ela com a faca na mão e fechando os olhos, mesmo estando tão escuro que não faz diferença mantê-los abertos.

Na festa do fim de semana ele a beijou com a intensidade de uma draga e para ela tudo perdeu a importância, o que as pessoas iriam pensar, o que as pessoas iriam dizer, e perdeu a virgindade no quarto de um dos donos da casa, uns estudantes de fora da cidade, cuja porta nem fechava direito. Não voltou a vê-lo nem a saber dele durante meses, até que ele reapareceu na frente dela na biblioteca da universidade. Fermín, mais magro do que nunca e tão ansioso que os cigarros amoleciam entre seus dedos, tamanha a força de sua tragada. Ela não conseguia tirar os olhos da boca dele.

Rosa tem um fraco pelos caras maus

Foram até a pensão do centro onde ele morava ou passava temporadas, Rosa estava apenas começando a entender os detalhes da vida dele. Os arranhões nas paredes do quarto deixavam o barro cru à mostra, e ele, pelado na cama de metal, o único móvel do cômodo, olhava para as grossas ripas do teto enquanto lhe contava sobre o páramo andino.

Marchavam com seus equipamentos pesados nas costas e afundavam até as coxas nos pântanos. A neblina os cegava. O vento os fazia sentir que estavam andando para trás em vez de para a frente e às vezes parecia que sairiam voando. Dormiam entre os frailejones. Mataram uma anta e a comeram. Chovia, caía granizo, ficavam em silêncio e não havia jeito de se aquecer. Depois de uma geada amanheceram brancos. Parecia que os ossos tinham virado gelo, disse ele, como se o frio não viesse de fora, mas sim do que carregavam dentro de si. Em meio à desolação daquelas terras, com os lábios roxos e tiritando, pensava constantemente nela, em seu corpo quentinho na cama.

Rosa tem certeza de que foi naquela noite que o bichinho da selva a picou.

A chuva engrossa. De uma hora para a outra começa a despencar sobre a casa. É como se alguém jogasse baldes de água no telhado e o chicoteasse com força. Ninguém vai vir num aguaceiro desses. Seca e confortável em seu mezanino, em seu moisés invencível, as precauções que tomou começam a lhe parecer ridículas.

Ela se vê voando do mezanino com o facão erguido tal qual um samurai ou na cama com a faca sorrateira, como uma vilã de James Bond.

Eles vão rir tanto quando ela contar isso para Gene.

Ela o imagina no porto num quarto de hotel barato. Um ventilador gira no teto e Gene, deitado de costas, conta à gringa sobre suas penúrias na selva. Ela o escuta fascinada e, assim como Rosa com Fermín, não consegue tirar os olhos da boca dele. Quase pode vê-la. Tem os olhos azuis como os de Gene e a pele tão branca que se confunde com o lençol.

É melhor afastar a faca e o facão, para que não os enterre enquanto dorme

Quando criança, Rosa pensava que era branca. Sua avó e sua mãe comparavam seus braços com os dela. Olha isso, diziam, branquíssima. Descobriu que não o era na cama com ele e foi como se visse a si mesma pela primeira vez. Os cabelos pretos e crespos. Os quadris e as nádegas fartos. Os mamilos castanhos como os olhos. Ao lado dos dela, os braços dele pareciam de papel de seda. Ele tinha os pelos alaranjados e era preciso olhar com atenção para notá-los. Suas veias eram visíveis através da pele e no púbis, onde o sol não o tocava, havia um mapa rodoviário com longas linhas vermelhas e azuis.

Por favor deixa o recado na quarta-feira, diz ela movendo os lábios, e é melhor afastar a faca e o facão, para que não os enterre enquanto dorme.

Produto

  • Noite Negra
  • Pilar Quintana (trad. Elisa Menezes)
  • Companhia das Letras
  • 208 páginas

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