Trecho de livro

Hipocritões e Olhigarcas

O historiador e escritor português Rui Tavares fala sobre guerras culturais e os monstros contemporâneos em nova obra

Leonardo Neiva 05 de Junho de 2026

“As palavras, a certa altura, já estão gastas, não chegam à enormidade do presente. Vivemos numa época de novos monstros, temos que designá-los com novas palavras”, defendeu o historiador, escritor e político lusitano Rui Tavares durante sua recente participação n’A Feira do Livro. A fala também revela com perfeição a maneira pouco usual com que o autor chegou ao título de seu novo livro: “Hipocritões e Olhigarcas: Passado e futuro das guerras culturais” (Tinta da China Brasil, 2026).

Na visão do autor de livros como “Agora, Agora e Mais Agora” (Tinta da China Brasil, 2024) e “Esquerda e Direita” (idem), hipocritões seriam líderes como Trump, eleitos na esteira de movimentos anticorrupção, mas que seriam facilmente corrompíveis. Portanto, um verdadeiro superlativo da hipocrisia. Por outro lado, empreendedores bilionários como Musk que, em sua cruzada por uma suposta liberdade de expressão, lançam mão dos olhos da vigilância e de seus algoritmos para favorecer determinadas narrativas, ocultando aquelas que não lhes agradam. Esses são os olhigarcas.

Além de definir os motores por trás das guerras culturais contemporâneas, a obra também mostra que estas não são nada recentes. Para isso, traça um panorama de como elas funcionam que vai desde Lutero até Trump, da criação da imprensa às redes sociais. Marcados pela polarização extrema em torno de identidades, valores e narrativas, esses conflitos surgiram em moldes muito diferentes ao longo da nossa história.

Passando por eventos como o mito de Minotauro e o terremoto de Lisboa, o rádio e o nazismo, o impeachment de Dilma Roussef e a ascensão das igrejas neopentecostais, o livro pode servir também como um guia para compreender não só nosso presente, mas também os futuros possíveis e a vida numa sociedade cada vez mais complexa. Como o próprio autor aponta, uma realidade que segue repleta de monstros, mas que ainda carece de expressões para defini-los.


A mudança mudou

Precisamos de novos monstros. Os antigos tinham os ciclopes, com apenas um olho enorme no meio da testa, ou as górgonas de cabelo de serpente, para explicar os medos dos seus tempos. Mas os monstros antigos não chegam.

Precisamos de novas palavras também. As que usamos estão gastas. Considerem, por exemplo, hipocrisia. É para muitos o crime político supremo, mas então que dizer disto? Dois dias antes da sua tomada de posse como presidente dos EUA, Donald Trump lançou uma nova criptomoeda, $TRUMP, que não tem nenhum valor intrínseco e serve apenas como forma de especulação para, claro, tornar Trump ainda mais rico. Ato contínuo, a moeda “valorizou” 7 mil milhões de dólares; no dia da inauguração, a primeira-­dama lançou a sua própria criptomoeda, $MELANIA, que disparou como a do marido. O que isto quer dizer, essencialmente, é que qualquer poder económico ou governo que queira corromper Donald Trump e família nem precisa de se preocupar em estabelecer canais indiretos. Se isto não é hipocrisia, por ser tão despudoradamente escancarado por parte de quem prometia “drenar o pântano” da corrupção, teremos então de inventar novas palavras: é hipocrisérrima. Com a sua hipocriptomoeda, Donald Trump é um hipocritão, um monstro gigantesco feito de metal dourado, com um enorme botão vermelho na testa a dizer: corrompa­-me agora.

Passemos ao seu melhor amigo, o homem mais rico do mundo em dinheiro, e carente de atenção, Elon Musk. Musk tem um departamento inteiro do Estado, o Doge, com o nome de outra hipocriptomoeda, a Dogecoin, que o ajuda a obter ganhos privados monstruosos (antes das eleições, Musk valia 280 mil milhões de dólares; pouco depois, ultrapassou os 300 mil milhões; agora, está nos 455 mil milhões e a caminho dos 500 mil milhões, ou seja, duas vezes o PIB total de Portugal, um país com 10 milhões de pessoas), ainda assim insuficientes para saciar o buraco enorme que tem na alma. Elon Musk é esfomeado pelo poder que lhe dá a atenção das massas, e para isso comprou uma rede social noutra daquelas hipocrisias que, por serem tão gigantescas, já ninguém as vê: para, em nome da liberdade de expressão, poder manipular o algoritmo que garante quais são as ideias que têm exposição e quais as que são remetidas às catacumbas da impopularidade.

Os ciclopes e as górgonas não chegam: vivemos na era dos hipocritões e olhigarcas, os monstros da falsidade e do poder desmedido

Têm chamado a Elon Musk e a outros como ele— Mark Zuckerberg, por exemplo, que já veio pressurosamente garantir que os seus algoritmos seriam retorcidos da maneira que Trump gosta; e Shou Zi Chew, o dono do TikTok que mete o turbo em candidatos putinianos pelo mundo e a que Trump veio dar rédea solta nos EUA— os “oligarcas da atenção”. Mas o que eles são na verdade é arquicensores. Francamente, de que vale o wokismo ou a cultura do cancelamento, de que tantos falam, quando comparado com o poder de determinar a seu bel‑prazer o que veem, e quanto o veem, milhares de milhões de pessoas agarradas aos seus telemóveis o dia todo— e, a título de bónus, saber tudo acerca dos hábitos de consumo dessas pessoas para as (para nos) monetizarem?

O modelo de negócios dessa gente é empurrar­-nos o que lhes dá mais jeito pelos olhos dentro, e depois venderem os nossos olhos ao melhor comprador. São os olhigarcas, feitos de algoritmos de vigilância e mil câmaras espalhadas pelo corpo, com tentáculos de influência que se estendem por todas as áreas da sociedade, ocupados em adubar uma paisagem infinita de globos oculares passivos— nós.

Os ciclopes e as górgonas não chegam: vivemos na era dos hipocritões e olhigarcas, os monstros da falsidade e do poder desmedido.

Como vencer esses adamastores, não sabemos. Mas não faríamos mal em procurar entender o medo da mudança que lhes dá força. Por isso, enquanto procuramos pistas para livros futuros, dediquemo-nos a pensar no que um poema renascentista nos ensina sobre os nossos tempos.

Muita gente conhece o início do Soneto 53 (outros atribuem-­lhe o número 45) de Luís de Camões:

Mudam­-se os tempos, mudam­-se as vontades,
Muda-­se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança
Tomando sempre novas qualidades.

Menos conhecido e citado é o seu fim, que diz: “E, afora este mudar­se cada dia,/ Outra mudança faz mor espanto,/ Que não se muda já como soía”.

Como vencer esses adamastores, não sabemos. Mas não faríamos mal em procurar entender o medo da mudança que lhes dá força

Talvez seja pelas duas palavras desusadas no português contemporâneo— “mor” por maior e, sobretudo, “soía” com o sentido de ser hábito ou costume— que o fim do soneto é menos citável ou hoje menos compreensível. Porque o que Camões nos está a dizer é, fundamentalmente, que a mudança já não é o que era. A mudança mudou.

Não admira que Camões sentisse isso, uma vez que nasceu (segundo se crê, faz agora quinhentos anos) numa das épocas da história que mais mudanças viram, da expansão da imprensa às guerras de religião na Europa e, sobretudo, à noção então inédita de Novo Mundo. Por isso Camões sentia que a mudança já não era apenas aquela sensação a que os gregos antigos chamavam de “panta rhei”, ou seja, de que “tudo flui”, e com a qual ele começa o poema. E nem sequer apenas uma mudança cíclica, expectável, como nas estações do ano, a que ele dedicou o meio do poema (“O tempo cobre o chão de verde manto,/ Que já coberto foi de neve fria,/ E, em mim, converte em choro o doce canto”). Nada disso: há também outro tipo de mudança, que não só muda as coisas, mas que muda a sua própria textura ou padrão.

Pensamos muito nas coisas que mudam, mas pensamos pouco na própria mudança em si. E fazemos mal, porque este tema aparentemente vago e teórico tem sérias consequências práticas. É que, na verdade, não há só uma mudança, mas vários tipos de mudança. A alguns tipos de mudança, gostando ou não, estamos acostumados, como humanos que somos. São eles a mudança constante, incremental ou cíclica. A outros tipos de mudança temos resistências emocionais, como no caso da mudança irreversível. E outros ainda— como é o caso da mudança exponencial— são difíceis até de abarcar cognitivamente. O cérebro humano recusa­-se a querer compreender; ficamos perplexos e desorientados; perdemos a confiança nas lideranças, revoltamo­-nos e queremos voltar ao passado, mesmo sabendo que isso é impossível.

Como é evidente, estamos a viver um desses momentos. Não só a mudança mudou, como há várias mudanças que mudaram ao mesmo tempo, e todas elas de tipos diferentes. A pandemia trouxe uma mudança de tipo exponencial: o cérebro tinha dificuldade em aceitar que a infeção de um indivíduo seria amanhã de dez, cem, mil,1 milhão e assim sucessivamente. Mas o desenvolvimento da inteligência artificial traz também uma mudança de tipo exponencial, e ainda estamos só no início. A mudança trazida pelas alterações climáticas é disruptora, brutal e provavelmente irreversível. Mudanças trazem outras mudanças: migrações em massa, guerras, colapso institucional, quem sabe mais o quê?

O medo da mudança continuará a gerar monstros. Monstros novos que ainda não aprendemos a nomear

Um dos nossos maiores problemas, hoje, é que as pessoas têm medo da mudança, os reacionários faturam com isso, e os democratas e progressistas não sabem explicar como prever essa mudança, geri-la e se beneficiar dela.

Quem souber fazê­-lo, em cada uma das áreas que listei acima, encontrará o caminho para sossegar a opinião pública e juntar as vontades coletivas. Até lá, o medo da mudança continuará a gerar monstros. Monstros novos que ainda não aprendemosanomear.

Produto

  • Hiprocritões e Olhigarcas
  • Rui Tavares
  • Tinta da China Brasil
  • 240 páginas

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