Trecho de livro

Como os Animais Nos Curam

A escritora e ensaísta britânica Jay Griffiths nos mostra o quanto o mundo animal pode ser indispensável para nossa saúde mental e um antídoto contra a solidão

Leonardo Neiva 17 de Junho de 2026

Quem convive com animais domésticos já está acostumado a repetir que o simples prazer de ter um gatinho no colo, levar uma lambida de um fiel cãozinho ou até “dar um cheiro” na cabeça de um bichinho pode fazer maravilhas pela nossa saúde mental. E esse tipo de percepção, que talvez pareça exagero para quem nunca teve um pet, na verdade tem bastante respaldo da ciência. Ao menos é o que aponta a obra “Como os Animais Nos Curam” (Zahar, 2026, trad. Daniel Turela Rodrigues), da escritora e ensaísta britânica Jay Griffiths.

“Quando penso em meu gato Otter, é a vitalidade exuberante dele o que me vem à mente” diz a autora na frase de abertura do primeiro capítulo do livro, que trata de como a alegria contagiante dos animais pode nos fazer bem. E é nessa toada que ela apresenta suas conclusões, misturando a experiência pessoal — que geralmente inclui seu encantador gato doméstico — com uma vasta pesquisa científica, numa mescla de ensaio, relato pessoal e contemplação.

Mas a importância para a saúde da conexão com os animais aqui vai muito além do contato com pets. Enquanto Griffiths traz à tona seu papel na batalha contra grandes males contemporâneos, como a solidão, também se diverte apresentando a veia cômica de alguns símios, a surpreendente empatia dos leões e a capacidade que os filhotinhos de aranhas-saltadoras têm de sonhar. Tudo isso com o entusiasmo de quem ama falar de bichos e um embasamento que apresenta dados concretos e mostra o que há de verdade inclusive nas experiências espirituais e xamanísticas envolvendo o mundo animal.

A escritora ficou mais conhecida lá fora por seu livro “Wild: An Elemental Journey” (Selvagem: Uma Jornada Elemental, sem tradução no Brasil), que traça uma avaliação poética da sociedade humana em relação ao mundo natural, e onde também mistura observações pessoais e fatos comprovados. Numa narrativa fascinante que nos apresenta por outra ótica a complexidade dos animais para muito além do ser humano, esta nova obra evidencia o quanto ganhamos quando incluímos no cotidiano a presença dos nossos companheiros de patas, nadadeiras e antenas.


Um remédio para a solidão

Os cães são simplesmente incapazes de não se apaixonar
Clive Wynne, especialista em comportamento canino

Não há como negar: a solidão machuca. Dói em locais específicos, em todos os nossos cantinhos — em todo o nosso interior.

A pessoa solitária percebe esse sentimento nos cantinhos do coração; uma dor ardente e penetrante, como se provocada por arame farpado. A dor aparece nos cantinhos do corpo quando se tateia o vazio na outra metade da cama de casal. Os cantos da garganta são magoados quando as palavras, proferidas para ninguém, são esfoladas pelo silêncio. A solidão se faz sentir nas extremidades da sociedade: a pessoa solitária se vê epurrada em direção aos cantinhos dos aposentos, paredes cortantes feito lâminas e capazes de lacerá-la. Ela o sente nas extremidades do dia, quando acorda sozinha ou adormece carente de outro alguém em seus braços, e nas extremidades do lar, nas imediações em que não encontra ninguém para acolhê-la, nenhuma recepção na porta ao retornar ao vazio.

A solidão pode matar. A longo prazo, aumenta o risco de derrame em 56%. Pode ser mais perigosa que o tabagismo e é um forte fator contribuinte para as doenças cardíacas, o que é digno de nota, visto que se trata mesmo de um sentimento de partir o coração. As pessoas solitárias têm maior probabilidade de desenvolver câncer e sofrer de problemas graves de saúde mental.

Convivi muito com a solidão em minha vida e, desde a infância, acabei me acostumando a uma sensação de abandono da qual não conseguia me libertar — até o advento dos gatos. Não sou a única a passar por uma experiência semelhante: vivemos uma epidemia de solidão. Na Europa, uma em cada oito pessoas afirma se sentir solitária a maior parte do tempo.

Animais de estimação oferecem um remédio para a solidão através da simplicidade do toque, capaz de aliviar seus efeitos nas extremidades de nosso corpo. Não conseguimos prosperar psicologicamente em nenhuma fase da vida sem o toque, sobretudo o afago lento e suave que nós, mamíferos, tanto adoramos: precisamos tanto da proximidade física quanto da intimidade emocional.

Nunca senti tanta falta de toque físico como durante o confinamento da pandemia de covid-19. Sem um interesse romântico nem filhos, eu me vi presa numa pequena bolha na companhia de uma amiga que se encontrava num estado vulnerável demais para dar ou aceitar abraços. Experimentei naqueles meses, contudo, o toque de dois animais. O mais inesperado deles foi ser abraçada por um potro chamado Rocky, um filhote de apenas alguns dias de vida. Ele estava deitado num campo ensolarado quando me aproximei devagarinho. Rocky permitiu que eu me sentasse perto dele e, em seguida, deitasse a seu lado; então, olhando para mim, ergueu uma das patas dianteiras e a passou sobre meu ombro, encostando a outra à lateral do meu pescoço. Fui invadida por uma onda de alegria. O outro animal, é claro, foi Otter, que passava grande parte do tempo em meu colo ou em meus braços, esfregando-se contra meus tornozelos ou encostando o focinho em meu nariz. O toque é um gesto primitivo e, quando faço carinho em Otter, a sensação do contato de minha mão com seu pelo acaricia, por sua vez, minha mente primordial — a presença dos animais tem o condão de nos transportar para a experiência primitiva de ser um filhote aninhado no acolhimento de uma toca.

Animais de estimação oferecem um remédio para a solidão através da simplicidade do toque, capaz de aliviar seus efeitos nas extremidades de nosso corpo

Por mais de uma década, meu gato foi minha fonte de luz, meu farol, meu mais confiável calmante natural, mas há alguns meses Otter perdeu completamente a visão. Durante algum tempo, incapaz de enxergar até mesmo o sol, pareceu perder toda a luz e leveza de sempre — fazendo com que eu também as perdesse por consequência —, mas essa infelicidade veio acompanhada de uma enorme alegria: a relação tátil entre nós se tornou eloquente e maravilhosa. Se antes ele se comprazia em dormir com a cabeça apoiada em meus joelhos, agora Otter faz questão de se deitar o mais perto possível de mim, aninhado em meus braços, o corpo recostado contra mim, o rosto tocando o meu, o focinho colado ao meu nariz, as patas envolvendo meu pescoço. Nesses momentos, ele ronrona alto que chega a fazer a cama tremer. A escritora surdo-cega Helen Keller, que conhecia bem o extraordinário poder de comunicação proporcionado pelo toque físico, declarou: “Alcançamos o paraíso pelo toque”.

Na noite passada, Otter adormeceu com o focinho encaixado sob o meu nariz, de modo que seus bigodes ficaram roçando em meu lábio superior. Que prazer senti quando, por um breve momento, ele os mexeu e tive a sensação de que as antenas da minha mente haviam sintonizado um mundo distinto e amplificado. Por vezes ele usa as garras para pentear meu cabelo, mas sempre as recolhe antes de tocar minha pele: sabe diferenciar as duas coisas, e confio no discernimento dele até mesmo enquanto durmo, assim como ele sabe que não precisa temer um movimento desajeitado de minha parte que possa machucar uma de suas patas. Adormecer e acordar a seu lado é um remédio para a solidão que me bate nos cantos do dia.

Através das tentativas que fazem de “falar” conosco os animais também oferecem remédios para a solidão com os cantinhos da voz. Os gatos domésticos emitem determinadas vocalizações que tendem a chamar nossa atenção e suscitar uma resposta, valendo-se de miados e gemidos mais doces, suaves e agudos no lugar dos apelos guturais mais graves de seu parente da selva mais próximo, o gato-selvagem-africano. Membros de equipes de resgate de animais há muito constataram que, se raramente miam na natureza, os gatos selvagens começam a fazê-lo depois de certo período passado na companhia de humanos.

Otter é um gato comunicativo, tanto no que se refere à linguagem corporal quanto às vocalizações. Se deseja entrar em meu quarto vindo do quintal, sobe a escada para gatos e executa uma rápida sequência de batidinhas na janela. Embora não consiga abrir o pote de biscoitos e lamente todos os dias o fato de que a evolução não o agraciou com um polegar opositor, encontrou uma maneira de contornar o problema. Antes de ficar cego, tinha desenvolvido um miado específico, peremptório, que usava apenas para pedir que alguém abrisse o pote. Desde que perdeu a visão, deixou de fazer esse miado imperativo (refletindo talvez que, já que passara a ser totalmente dependente dos outros, não seria prudente correr o risco de parecer mandão), mas a cegueira lhe inspirou um miado inteiramente novo, tão alto que consigo ouvir de qualquer canto da casa. Não é sempre que Otter mia dessa maneira, mas, quando o faz, é de cortar o coração, um uivo ressonante e inconsolável, como se estivesse lamentando por todo o mundo que perdeu. Ao que parece, o intuito é que eu o escute e vá acudi-lo, pois fica quietinho assim que apareço.

Se “falar” significa querer dizer algo e se expressar com o objetivo de ser compreendido, então ele é um gato capaz de “falar”

Otter tem um espírito arteiro e uma capacidade de fazer as pessoas rirem dos quais dá para ver que se orgulha. Em minha cozinha, acima da bancada, há uma prateleira onde guardo cerca de vinte tipos diferentes de chá. Antes de ficar cego, em inúmeras ocasiões ele havia me visto retirar dali uma das caixinhas para oferecer a um convidado. Começou, então, a fazer o mesmo: diante do olhar incrédulo de meus amigos, punha-se sobre duas patas na bancada e apoiava a pata dianteira esquerda na prateleira. Exultante, olhando para nós como quem dissesse “olha só o que sei fazer!”, começava a andar de lado, percorrendo a prateleira e usando as garras da pata direita para derrubar um a um os chás na bancada. Alcaçuz? Toma. Conforme as embalagens de papelão caíam com um baque surdo, ele se voltava para nós com o mais próximo a um riso de que um gato é capaz. Hortelã? Toma. Camomila? Rooi-bos? Toma, toma, toma, até todas as caixas de chá estarem espalhadas sobrea bancada. Eu repunha uma por uma na prateleira, mas Otter, enfatuado com o riso geral, subia na bancada e fazia tudo de novo. As comunicações dele não são aleatórias. Se “falar” significa querer dizer algo e se expressar com o objetivo de ser compreendido, então ele é um gato capaz de “falar”.

Os cães, é claro, são comunicadores para lá de habilidosos. São capazes, por exemplo, de compreender quando há uma discussão em andamento. Existe uma língua franca entre nós e muitos dos outros animais quando se trata do significado emocional de diferentes entonações — seja quem for o autor dele, um rosnado é sempre um aviso. Como observa Carl Safina, ecologista e escritor extraordinário: “Quer os ouvidos receptores pertençam a um humano, a um cão ou a um cavalo, uma sequência de pequenas exclamações ascendentes produz um aumento de expectativa; sons longos e decrescentes são relaxantes; e um único ruído breve e abrupto tem o poder de deter um cão prestes a fazer uma travessura ou uma criança com a mão no pote de biscoitos”.

Ao olhar para um rosto humano, os cães (e também os humanos e os macacos-rhesus) direcionam o olhar para a esquerda, por instinto para contemplar o lado direito do rosto. Trata-se do lado que exprime emoções com maior transparência. Os cães não fazem o mesmo ao olhar para o rosto de macacos ou de outros cães: trata-se de um comportamento adotado exclusivamente durante a interação com humanos, e os autores de um estudo de 2008 sugerem que eles podem ter desenvolvido esse “viés de olhar para a esquerda” a fim de avaliar nossas emoções, tentando ler a nós e a nossos sentimentos. Nossos cães tentam se comunicar de maneiras que sabem sermos capazes de perceber, latindo para nós e por nós, ao passo que os lobos adultos quase nunca latem, preferindo se comunicar por meio da linguagem corporal ou do olfato.

A comunicação entre os caçadores evenki e seus cães é hábil e precisa. O povo evenki (outrora chamado de tungu) habita o extremo leste da Rússia, a Sibéria, o norte da China e a Mongólia, onde tradicionalmente pastoreavam renas e caçavam alces, corças, glutões, linces e raposas. Os caçadores do povo evenki se comunicam com seus cães de modo íntimo por meio de uma relação a um tempo intrincada e independente: raciocinam separadamente, mas o fazem a fim de coordenar os próprios movimentos. Como não contempla uma separação rígida entre as espécies, a filosofia evenki tampouco prevê qualquer tipo de dificuldade na compreensão mútua entre pessoas e cães. Além disso, não há hierarquia entre as espécies: os cães são considerados iguais aos humanos na caça, pois eles não precisam de servos, mas de parceiros capazes de tomar as próprias decisões. O animal não é adestrado nem punido, mas aprende por conta própria, compartilhando situações e experiências com o caçador até que ambos adquirem uma compreensão profunda do ambiente e um do outro. A relação entre o povo evenki e seus cães deixou um xamã dos buriate, um povo vizinho, totalmente perplexo. Muito embora não houvesse nenhum tipo de ordem sendo passado aos animais, o xamã testemunhou a sincronia entre o cão e o humano e declarou ter a impressão de que um fio invisível os conectava.

75% dos homens e 67% das mulheres alegaram ter um animal como único amigo: isso é, ao mesmo tempo, de aquecer e de cortar o coração

Os animais atenuam nossa solidão com sua amizade. O poeta Byron tinha um cão, Boatswain, o qual ele dizia ser seu único amigo: “Jamais tive outro”. Byron teria compreendido como se sentem os idosos que vivem sozinhos com seus cães de estimação. Entrevistados para um estudo, 75% dos homens e 67% das mulheres alegaram ter um animal como único amigo: isso é, ao mesmo tempo, de aquecer e de cortar o coração.

Produto

  • Como os Animais Nos Curam
  • Jay Griffiths (trad. Daniel Turela Rodrigues)
  • Zahar
  • 392 páginas

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