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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Brasil: a nova pátria dos data centers?

Em meio a política para atrair investimentos no setor, entidades questionam impactos ambientais e às populações próximas de estruturas de processamento de dados

Leonardo Neiva 19 de Abril de 2026

Brasil: a nova pátria dos data centers?

Leonardo Neiva 19 de Abril de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Em meio a política para atrair investimentos no setor, entidades questionam impactos ambientais e às populações próximas de estruturas de processamento de dados

Já parou para pensar no quanto a última pergunta boba que você fez para a Inteligência Artificial consumiu de água ou energia? Por mais que a gente saiba dos custos energéticos e ambientais do uso de IA, às vezes ficar difícil lembrar deles quando a ajuda para um problema do dia a dia está à distância de um clique. Mas a verdade é que esse impacto pode estar muito mais próximo da gente do que se imagina.

Hoje, o Brasil é o país líder em número de data centers na América Latina, com cerca de 50% da capacidade instalada na região. Esses centros de dados são prédios, geralmente de grandes proporções, que abrigam infraestruturas cruciais para o funcionamento de certas tecnologias, incluindo servidores, sistemas de armazenamento e equipamentos de redes. Sem eles, você não conseguiria guardar um arquivo na nuvem, assistir a um filme na Netflix ou mesmo concluir uma ação simples como acessar a internet.

Por aqui, são quase 200 instalações do tipo, a grande maioria ainda na região Sudeste — o que posiciona o Brasil como o 12º maior mercado de data centers no mundo, segundo o governo federal. Até o momento, os data centers que temos operam apenas serviços da internet, mas esse jogo já está entrando numa nova fase. Estão em fase de desenvolvimento e implantação projetos de data centers cujo objetivo é treinar, processar e implantar modelos complexos de IA.

E o que isso muda? Segundo o engenheiro e professor Eduardo Fagundes, especialista em tecnologia e IA, a diferença é brutal. Em relação à energia, o consumo chega a ser dez vezes maior. “O consumo dos novos chips preparados para IA é brutalmente superior em termos de aquecimento e de processamento do que os chips convencionais”, explana Fagundes, responsável pela montagem e consolidação de data centers no Brasil e no exterior.

Na prática, um data center de IA funciona como uma gigantesca usina de processamento que converte eletricidade em inteligência, explica o engenheiro. Sua unidade básica de funcionamento, conhecida como GPU (Unidade de Processamento Gráfico), é capaz de processar de forma simultânea volumes de dados equivalentes a centenas de smartphones — e consumindo milhares de vezes mais energia do que um chip de iPhone 17, por exemplo, diz Fagundes. Vale lembrar que um único data center pode conter dezenas de milhares de GPUs. Além disso, cerca de 40% da energia necessária costuma ser usada só no sistema de suporte e refrigeração, pois as GPUs ainda operam em altíssimas temperaturas.

O impacto ambiental e energético dos data centers hoje é crucial para o território brasileiro porque o país vem empreendendo uma batalha visando se tornar uma das liderança globais no setor. No centro dessa estratégia, está o Redata, Medida Provisória assinada pelo presidente Lula em 2025, que criou uma política de incentivo à instalação dessas estruturas por aqui, atraindo um mercado estrangeiro sedento por novos espaços em meio a uma corrida tecnológica global.

Hoje, parlamentares e o governo federal já estudam formas de tornar permanente a legislação, que acabou perdendo a validade em fevereiro. Além de reforçar a importância do Redata, o diretor de Educação da Associação Brasileira de Data Center (ABDC), Alexandre Kontoyanis, afirma a Gama que a instituição vem trabalhando “pelo avanço de pautas regulatórias que ampliem a segurança jurídica para estes investimentos”, com a organização de uma agenda em torno do tema e o alinhamento de aspectos regulatórios, energéticos e ambientais como próximos passos.

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Sem diálogo

Hoje no centro desse processo está a instalação de um mega data center da big tech chinesa ByteDance, controladora do TikTok, previsto para ser inaugurado no segundo semestre de 2027 em Caucaia (CE), na Região Metropolitana de Fortaleza. A estrutura próxima ao Porto do Pecém deve demandar investimentos de mais de R$ 580 bilhões, segundo o Ministério do Desenvolvimento e da Indústria, tornando-se o maior data center de um único cliente no país, com capacidade inicial de 200 MW de processamento.

Mas as obras, iniciadas em janeiro, logo viraram alvo de polêmica. Além dos impactos da instalação de uma estrutura de grandes dimensões na região, há também temores sobre como ela deve afetar a disponibilidade de água e a distribuição de energia para as populações locais, que incluem a reserva indígena dos Anacé, onde vivem 1.500 famílias.

Uma das principais reclamações, reforça o Cacique Roberto Anacé, é a falta de consulta aos moradores da região. “Não teve nenhum diálogo. Estamos aqui em 1.500 [famílias] e eles invadem aqui toda hora”, conta. O líder indígena denuncia um modus operandi de devastação do solo e da vegetação no local das obras, segundo ele sem qualquer tipo de vistoria, e que pode afetar um lençol freático essencial, impactando o fornecimento hídrico.

A Omnia, responsável pelo desenvolvimento do projeto, contesta a informação. A empresa afirma adotar “uma atuação pautada pelo diálogo estruturado e transparente”, promovendo rodas de conversa com comunidades dentro e fora da área do empreendimento para apresentar o projeto à população local.
“A partir dessas interações, já foram realizadas iniciativas voltadas à empregabilidade em duas comunidades da região, além do planejamento de novas ações sociais ao longo do desenvolvimento do projeto”, afirma a companhia em resposta oficial.

Fagundes aponta que o Nordeste brasileiro é atraente para empreendimentos do ramo por conta do excedente de energias renováveis da região. “Um dos benefícios é justamente aproveitar esse potencial de energia tanto em sol como em vento, algo em que o Nordeste brasileiro é privilegiado.” No caso do Ceará, outro ponto positivo é a presença de cabos submarinos de fibra ótica, que permite a vazão dos dados a partir da região.

No início de abril, os indígenas do povo Anacé chegaram a bloquear rodovias da região em protesto contra o projeto, durante uma ida do presidente Lula a Fortaleza que previa uma visita ao local das obras, o que acabou não acontecendo. Segundo o Cacique, as manifestações pedem reparação dos danos causados à natureza e à população local e demandam respeito ao protocolo de consulta prévia às populações indígenas, estabelecido pela Organização Internacional do Trabalho.

Os Anacé também continuam em busca da demarcação de suas terras tradicionais, num processo que já leva mais de duas décadas sem resolução oficial. “A única resposta do poder público é querer nos usar como moeda de troca. Não precisamos disso, nós mesmos sabemos escolher quem nos representa e o que é bom para a nossa comunidade. E nada do que a gente colocou como positivo para a comunidade eles atenderam”, desabafa Roberto Anacé.

Um mero galpão

O que pode agravar a situação é que a região sofre nos últimos 15 anos com crises hídricas sucessivas, de acordo com André Fernandes, advogado e diretor do IP.rec (Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife). Para o especialista, também não houve uma avaliação ambiental adequada, já que o projeto foi classificado como de construção civil pela Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Ceará (Semace), um empreendimento com baixo impacto ambiental.

“A Semace fez uma interpretação muito confortável da legislação ambiental e entendeu, de forma bastante esdrúxula, que um aparato industrial como o data center é um mero galpão”, afirma Fernandes. “Então, aplicaram um modelo simplificado de licenciamento e relatório ambiental, que não avança sobre essas questões todas, incluindo a água.” O processo, segundo ele, desconsidera a previsão de o projeto furar poços, afetando o lençol freático bastante sensível da região.

Tanto a Omnia quanto a Casa dos Ventos, empresa responsável pela parte energética do data center, defendem que o projeto passou por um processo de licenciamento ambiental “robusto e criterioso”. “Trata-se de um empreendimento de baixo impacto ambiental, uma vez que não envolve processos industriais poluentes, não gera resíduos relevantes, não apresenta emissões significativas e não possui movimentação contínua de cargas”, acrescenta a Casa dos Ventos, que diz operar “com medidas de controle e monitoramento alinhadas às melhores práticas de sustentabilidade”.

Já segundo a Omnia, estudos técnicos independentes demonstram que a captação de recursos hídricos prevista “é sustentável, respeita a capacidade de recarga dos aquíferos e não compromete a disponibilidade de água na região”, o que incluiria o lençol freático.

O data center do TikTok deve funcionar principalmente com energia eólica e um sistema de refrigeração em circuito fechado, que reutiliza a mesma água para desaquecer os servidores. A Casa dos Ventos aponta que a operação se baseará em fontes de energia 100% renováveis, com um consumo que deve chegar a até 300 MW na primeira fase. Esse momento inicial, segundo a empresa, terá todo o fornecimento feito por parques de energia eólica que serão inaugurados em 2027 em Ibiapaba (CE) e Dom Inocêncio (PI), sem gerar pressão sobre a oferta atual de energia na região.

A previsão é de uso de até 30 mil litros de água por dia, com uma parcela aplicada no sistema de resfriamento. De acordo com o engenheiro Eduardo Fagundes, esse tipo de sistema pode reduzir consideravelmente o problema dos recursos hídricos, pois evita o uso de água dos rios ou outras fontes locais. “Você coloca milhões de litros de água, que podem vir de diferentes lugares, nesse sistema fechado e aí não precisa utilizar a da região.”

Para Fernandes, porém, o sistema fechado não garante que, em algum momento, a água da região não precisará ser explorada. Ele também alerta que, se o sistema utiliza menos água por um lado, acaba gastando bem mais energia: “Temos visto na experiência de outros países que, com o sistema fechado, o pico de energia é maior.”

Embora o Redata preveja dispositivos ambientais para implantar data centers, como a necessidade de investir em sustentabilidade e energia limpa, entidades do direito ligado à tecnologia como o IP.rec e o Lapin (Laboratório de Políticas Públicas e Internet) criticam lacunas na política pública em relação ao alto consumo de água e energia elétrica, além da falta de proteção às comunidades locais.

O IP.rec, ao lado de uma série de instituições, propôs uma representação ao Ministério Público Federal (MPF) levando em conta os pontos de preocupação sobre o projeto e pedindo anulação do licenciamento da Semace. “Porque ele falseia a realidade dos fatos e daquilo que realmente é um data center”, justifica Fernandes.

Um laudo técnico emitido pelo MPF em dezembro apontou falhas no processo de licenciamento, questionando pontos como a presença de geradores a diesel na unidade, com potencial de gerar prejuízos ao meio ambiente. Fagundes explica que fontes de energia intermitentes, como a eólica, estão sujeitas a variações e, por isso, acabam dependendo de outros recursos energéticos — ainda mais em estruturas como data centers, que precisam operar de maneira contínua.

Vícios e virtudes

Apesar de estar no centro das discussões, as polêmicas em torno do data center de Caucaia não são únicas; elas se repetem em outros projetos do tipo pelo Brasil, na visão do diretor do IP.rec. Com um investimento inicial de R$ 3 bilhões, o Scala AI City, em Eldorado do Sul (RS), projetado para ser o maior campus de data centers da América Latina, tem previsão de atingir uma capacidade de 4.750 MW, consumo de energia diário avaliado como equivalente ao de milhões de residências.

Anunciado poucos meses após as enchentes que devastaram o estado em 2024, o projeto será instalado também nas proximidades de uma população indígena: os Guarani Mbya. “É um modus operandi que explora territórios já vulneráveis de populações que são minorias sociais: povos indígenas, quilombolas… E, com base na experiência global, estamos para ver a aplicação disso com populações ribeirinhas e próximas ao mar”, denuncia Fernandes.

Nos Estados Unidos, moradores próximos de data centers viram o valor de suas contas de energia disparar em até 267%, segundo estudo da Bloomberg. O estado do Texas, que concentra boa parte dessas estruturas, já enfrenta resistência das comunidades locais com o aumento da pressão sobre os recursos hídricos e energéticos. Em outros estados americanos, como Maine, Virginia e Geórgia, já têm surgido projetos para barrar a construção de novos data centers.

A população de Querétaro, no México, também passou a conviver com apagões e falta d’água após a construção de uma estrutura do tipo, segundo reportagem do New York Times. E a coisa não deve parar por aí: um projeto como o Stargate, da OpenAI/Microsoft, criado para impulsionar a próxima geração da IA através de data centers, deve ter capacidade de 1,2 GW, equivalente ao consumo de energia de milhões de lares dentro da realidade brasileira, segundo Eduardo Fagundes.

O engenheiro acredita que, apesar dos possíveis impactos, os projetos devem trazer mais avanços do que problemas para o país e as regiões em que serão instalados: “Se você quer avançar em alguns pontos, vai ter que abrir mão de outros, não tem jeito”, avalia.

As empresas que instalarem seus data centers aqui devem destinar parte do investimento à pesquisa brasileira e disponibilizar ao menos 10% da sua capacidade de processamento, armazenamento e tratamento de dados ao mercado nacional, lembra Fagundes. Outro ponto que o engenheiro destaca é a defesa da soberania nacional, garantindo que dados sensíveis da população brasileira e de empresas nacionais sejam processados no país. “E nós temos dados muito importantes que precisam permanecer aqui”, destaca.

A Casa dos Ventos diz que o data center de Caucaia deve gerar resultados positivos para o desenvolvimento regional, como a geração de empregos, o estímulo à cadeia de fornecedores locais e um fortalecimento da economia na região. A Omnia também declara que o projeto “foi concebido e está sendo implantado em total conformidade com todos os requisitos legais, regulatórios e ambientais aplicáveis”, incluindo “a avaliação de aspectos ambientais, hídricos, energéticos e socioeconômicos.”

Para Kontoyanis, da ABDC, a maior parte dos data centers brasileiros opera “com padrões de eficiência energética e hídrica cada vez mais rigorosos”. O principal ganho para o país, segundo o diretor, é estratégico, já que os data centers viabilizariam avanços em “inovação, inteligência artificial, serviços financeiros, indústria 4.0 e toda a digitalização da economia”. Nesse contexto, defende que o principal desafio é posicionar o país de forma competitiva no mercado global. “O país reúne vantagens estruturais muito relevantes, como abundância de energia limpa a custo competitivo e estabilidade geopolítica, mas ainda precisa avançar na construção de um ambiente regulatório mais previsível e coordenado.”

Por outro lado, o advogado André Fernandes aponta que um projeto como o do data center de Caucaia tem efeitos colaterais ocultos: um possível aumento da temperatura média num raio de 10 km em torno da estrutura, além do ruído gerado pelo sistema de refrigeração e pela infraestrutura de energia eólica necessária para atender a unidade. “Há casos pelo Nordeste de populações que sofrem com o barulho ininterrupto [das turbinas eólicas], não conseguem dormir, estão tomando remédio controlado e tendo casos depressivos”, aponta.

Em relação à implantação de data centers pelo Brasil, ele enxerga com preocupação uma aproximação recente com representantes do setor de energia a gás, que podem se tornar uma possível segunda fonte energética para os data centers. “Normalmente, é uma fonte bem mais poluente. Então, a gente não duvida nada que esse debate frutifique e gere repercussões ainda mais negativas.”

Em defesa dos direitos de seu povo, o Cacique Roberto Anacé conta que busca se espelhar na luta dos indígenas do Rio Tapajós, no Pará, pela preservação de seu território e contra a privatização dos rios. “Aqui, estão querendo roubar nossas águas por baixo da terra e destruir nosso povo, nossa coletividade, nossa natureza.”

Procurada por Gama, a Semace não se manifestou até o fechamento da reportagem.

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