Dá pra ser mãe sozinha?
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Reportagem

Mães que são uma aldeia inteira

Com pouca ou nenhuma rede de apoio, creches insuficientes e trabalho precário, mulheres sustentam famílias e cuidam dos filhos em uma jornada ainda tratada como responsabilidade privada

Ana Elisa Faria 10 de Maio de 2026

Mães que são uma aldeia inteira

Ana Elisa Faria 10 de Maio de 2026

Com pouca ou nenhuma rede de apoio, creches insuficientes e trabalho precário, mulheres sustentam famílias e cuidam dos filhos em uma jornada ainda tratada como responsabilidade privada

Elas são muitas, diversas e estão em todos os lugares, da novela das nove ao palco do megashow de uma diva pop latina no Rio de Janeiro. Em “Três Graças”, Lígia (Dira Paes), Gerluce (Sophie Charlotte) e Joélly (Alana Cabral) compartilham uma história parecida. Todas engravidaram cedo, antes dos 17 anos, e vivem a maternidade sem a presença efetiva dos pais das crianças — a mais nova do trio é a única que, no final do folhetim, consegue romper esse ciclo e criar a filha com o namorado. A trama de Aguinaldo Silva pode exagerar nas tintas, mas toca em um ponto bastante reconhecível fora da ficção: grande parte das famílias brasileiras é sustentada, organizada e mantida por mulheres que precisam fazer quase tudo sozinhas.

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No dia 2 de maio, diante de uma multidão na praia de Copacabana, Shakira tocou no tema antes de cantar a música “Soltera”, que dedicou às mães que cuidam dos filhos sem um parceiro ao lado. “Sem ajuda, que têm de lutar a cada dia para sustentar a família. Eu sou uma delas”, falou a artista.

Seja no melodrama da tevê ou no discurso da cantora colombiana, o país se reconhece nesse arranjo familiar que há muito deixou de ser exceção. O Brasil tem 11,3 milhões de domicílios chefiados por mães solo, conforme um levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre–FGV) com base na PNAD Contínua de 2022. Em dez anos, esse contingente cresceu 17,8%.

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Doutora em economia, a pesquisadora Janaína Feijó, do Ibre–FGV, alerta, no entanto, que o tamanho real do fenômeno pode ser maior do que o medido. O conceito de mãe solo, de acordo com ela, vai além de bancar a casa sozinha. “Tem a ver com a solitude de estar em uma posição de ter que tomar decisões, mesmo que não sejam de cunho financeiro. É bem mais abrangente”, define. “Por isso, esses números podem estar subestimados.”

Por trás desses dados, há uma rotina que exaure e expõe como o trabalho do cuidado é distribuído de forma desigual. Ausência paterna, menores salários, baixa escolaridade, racismo estrutural e políticas públicas insuficientes se somam a um cotidiano que oferece pouca margem de descanso: trabalhar, cozinhar, levar as crias ao médico, fazer a matrícula na escola, lavar a roupa, comprar o presente do aniversário do amiguinho, manter o lar funcionando.

Esse inventário de tarefas costuma ser tratado como parte natural do que é ser mãe — ou como sinal de força. Mas é justamente aí, na distância entre o reconhecimento público e o suporte concreto, que a maternidade solo se torna uma questão social. Nomeá-la ajuda a enxergar não só quem cuida, mas quem deixa de cuidar, quem ajuda e quem segue tratando a criação dos filhos como assunto privado das mulheres.

Quem são elas

Não existe um perfil único de mãe solo no Brasil. Janaína Feijó descreve, no mínimo, dois grupos com trajetórias distintas. Há as mulheres que se tornam mães bem jovens, antes de consolidar estudos e carreira, e são empurradas para uma vulnerabilidade prolongada. E há aquelas que, autossuficientes no quesito financeiro, optam por não permanecer em uniões desgastadas.

“Para esse segundo grupo, a independência financeira e a autonomia são muito importantes. O que não quer dizer que o desafio diminua”, pondera a economista. “São dois públicos diferentes, com características diferentes que se retroalimentam de maneira diferente. Mas, independente do grupo, observamos que, na média, uma mãe solo tem uma maior dificuldade de ter rendimentos mais altos por ser a única provedora da casa.”

Ou seja, essas residências têm uma cabeça a menos contando para compor a renda da família. “Há mais dificuldade no acesso ao mercado de trabalho e às posições que pagam mais, porque muitas vezes a mulher não tem com quem deixar a criança”, diz.

O recorte racial aprofunda a precariedade. Segundo o estudo da FGV, o crescimento dos domicílios chefiados por mães solo foi puxado principalmente por mulheres negras: eram 5,4 milhões em 2012 e, uma década depois, chegaram a 6,9 milhões.

Muitas dessas mulheres, cita Feijó, engravidaram ainda jovens, em uma fase decisiva da formação escolar. E, quando a maternidade interrompe ou atrasa a conclusão do Ensino Médio, o acesso ao trabalho formal fica mais difícil e a informalidade aparece como uma das poucas saídas possíveis — em pequenos negócios ou em ocupações que se ajustam ao ritmo da criança, mas pagam pouco.

De geração a geração

Os trabalhos informais aparecem nas trajetórias de muitas mães solo como saída, mas também como mais um tipo de precarização, além de serem os primeiros a desaparecer quando a economia desacelera. Eles permitem encaixar a jornada entre escola, consultas médicas e refeições, mas retiram proteções importantes. Sem vínculo formal, não há fundo de garantia, contribuição previdenciária, licença-maternidade remunerada ou aposentadoria por invalidez.

Essas mulheres não conseguem fazer com que as gerações futuras saiam desse estado socioeconômico

O efeito, explica Janaína Feijó, não termina na vida profissional da matriarca. Com renda menor, menos estabilidade e pouco tempo disponível, a mãe também tem dificuldade de investir na formação e no desenvolvimento dos filhos. A pesquisadora chama esse processo de “transmissão intergeracional”. “É como se essas mulheres estivessem em um círculo vicioso. Elas não conseguem fazer com que as gerações futuras — seus filhos — saiam desse estado socioeconômico.”

Uma aldeia inteira

Diz-se que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. Na maternidade solo, essa aldeia nem sempre existe. Por isso, rede de apoio não é uma ideia abstrata: ela pode aparecer como comida na despensa, fralda no armário, transporte, uma vaga no contraturno escolar, algumas horas para trabalhar, estudar ou resolver pendências e um lugar onde a mãe possa falar sem ser julgada.

Foi a partir dessa percepção que nasceu, em 2020, o Coletivo de Apoio à Maternidade Solo, localizado na Casa Verde, zona norte de São Paulo. A associação hoje atende 150 famílias proporcionando segurança alimentar. Na pandemia, Thais Cassapian, então professora da rede pública municipal da capital paulista, dava aulas na Educação de Jovens e Adultos (EJA) e percebeu que algumas alunas, mães solo, sequer tinham dispositivo eletrônico para acompanhar as atividades que migraram para o on-line.

A inquietação também vinha da própria experiência. “Se para mim, que sou uma mulher branca, assalariada, com uma criança, estava sendo tão profundamente desafiadora a realidade da maternidade solo, imagina para mulheres em outros contextos”, lembra.

O que começou com a distribuição de kits de alimentos se ampliou para dois contraturnos escolares, voltados a crianças de quatro a dez anos. Os pequenos são buscados em casa, recebem refeições, tomam banho, ganham roupas limpas, fazem acompanhamento pedagógico e psicológico, além de terem acesso a lazer e cultura. Depois, são levados à escola. Para as mães, isso significa tempo e tranquilidade. “Muitas falam: ‘Eu vou tranquila, sei que minha criança está bem-cuidada’”, comenta.

É ser um apoio efetivo na vida de uma mulher com essa sobrecarga inadequada. Não era para ela estar carregando tudo isso sozinha

Cassapian pontua que a entrega de alimentos é fundamental, mas não basta. O objetivo do coletivo é oferecer apoio concreto a mulheres que cuidam dos filhos sozinhas. “É ser um apoio efetivo na vida de uma mulher com essa sobrecarga inadequada. Não era para ela estar carregando tudo isso sozinha.”

A instituição também tenta responder a uma falta menos visível: a de escuta. Em rodas mensais de conversa, enquanto as crianças brincam, as mulheres se reúnem em um espaço onde, segundo Cassapian, podem falar sem julgamento. Ali, ela já viu amizades nascerem, vizinhas se reconhecerem e mães perceberem que aquela luta não é individual. “É um encontro que leva algum alívio para aquele momento tão desafiador.”

A “guerreira” que ninguém pediu para ser

A rotina dessas mulheres costuma ser empacotada na figura da mãe “guerreira”, ideia que circula em propagandas, posts de homenagem nas redes sociais e como elogio. Para quem vive ou acompanha a maternidade solo de perto, a palavra também pode esconder o que não deveria ser aceito como normal.

Marcella Franco, jornalista que acaba de lançar o livro “Solo” (Bazar do Tempo, 2026), criou o filho Teodoro, hoje com 17 anos, sem parceiro durante uma década. Ela rejeita o adjetivo bélico. “A guerreira, bem ou mal, teve uma escolha, e a mãe solo, em grande parte das situações, não pôde escolher”, afirma. “Eu não queria ser guerreira, eu preferia estar com uma aldeia ali, criando a minha criança sem ter que guerrear com absolutamente nada.”

A autora conta que demorou anos para olhar a própria experiência sem o filtro do esgotamento. Ao se casar com um companheiro que se envolve na criação de Teodoro, ela conseguiu enxergar que muitas das cenas que carregava sozinha — o filho doente quando ela também adoecia, o Dia dos Pais na escola — eram, na verdade, universais às mães solo. “É uma coisa coletiva mesmo, uma dor, um vazio, um medo. Aquela solidão era compartilhada”, relata.

Não queria ser guerreira, preferia estar com uma aldeia ali, criando a minha criança sem ter que guerrear com absolutamente nada

Ela enumera algumas solidões que sentiu sem escolher uma como maior. Houve a solidão das decisões, como escola, remédio e o que dizer quando o filho estava triste. Houve a das amizades, porque ela não tinha amigos com filhos naquele momento e deixou de ser convidada para eventos. Houve a amorosa, porque a vida afetiva de uma mãe solo com uma criança pequena costuma ser mais difícil do que a de um pai separado. “Senti solidão em absolutamente todos os aspectos”, diz. “É mais fácil dizer qual solidão eu não senti.”

A escolha de palavras como guerreira é deliberada, acredita Thais Cassapian. Para ela, romantizar essa experiência esconde um problema maior. “Quando fazemos essa romantização, ao chamar uma mãe solo de guerreira, mascaramos um problema social muito grande”, avalia. As consequências aparecem em corpos exaustos, privação de sono, depressão e ansiedade — e respinga no desenvolvimento das crianças, o que devolve o assunto à agenda coletiva.

O cuidado como condição para o trabalho

Quando se fala em políticas públicas para mães solo, Janaína Feijó não hesita. “Na minha percepção, o carro-chefe é a política de creche.” O ponto parece antigo, mas segue sem solução suficiente. Faltam vagas, há unidades que não aceitam crianças muito pequenas e os horários muitas vezes não permitem que a mulher cumpra uma jornada trabalhista completa.

A creche, para a economista, atua em duas frentes. Ajuda crianças mais vulneráveis a desenvolver capacidades cognitivas desde cedo e aumenta a participação das mulheres no mercado, a quantidade de horas trabalhadas e a remuneração. Ainda assim, a creche sozinha não resolve tudo.

Feijó defende que ela venha combinada a políticas de qualificação profissional conectadas ao mercado local. Cursos genéricos, sem relação com as vagas disponíveis em cada território, tendem a ter pouco efeito. “É preciso fazer um estudo para entender quais são as vocações da região, os empregos que a região está demandando e, aí sim, oferecer um curso direcionado para essas mulheres.”

Na outra ponta, ela vê no Bolsa Família um desenho importante por colocar a mulher no centro da política pública. O valor, de acordo com Feijó, pode não transformar a trajetória de longo prazo, mas ajuda a melhorar as condições socioeconômicas da casa.

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