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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Quais os limites para stalkear a vida alheia?

Apesar da prática comum nas redes, o termo stalker também descreve um crime em alta no Brasil, que atinge principalmente mulheres

Leonardo Neiva 07 de Junho de 2026

Quais os limites para stalkear a vida alheia?

Leonardo Neiva 07 de Junho de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Apesar da prática comum nas redes, o termo stalker também descreve um crime em alta no Brasil, que atinge principalmente mulheres

Um homem passa em frente a uma cafeteria, onde vislumbra uma mulher casualmente sentada, lendo. Atraído de forma instantânea, ele entra e procura um pretexto para iniciar uma conversa. Assim que a moça se levanta para buscar seu café, ele se aproxima, tira uma foto do livro que ficou sobre a mesa e passa a pesquisar furiosamente no celular resenhas a respeito da obra. Até que reúne coragem para se aproximar, declarando-se para a jovem atônita um grande admirador do livro, do qual não tinha ouvido falar até poucos minutos antes.

A cena de abertura do filme “O Drama” (2026), que tem Robert Pattinson e Zendaya nos papéis principais, encapsula muitos dos temas do longa dirigido pelo sueco Kristoffer Borgli. Logo descobrimos que essa pequena esquete cotidiana aconteceu em algum lugar do passado, e o protagonista a está relembrando para compor um trecho fofo do seu discurso de casamento — sim, com a mesma moça do café. Mas não é preciso ir longe para enxergar possíveis problemáticas em seu comportamento: a obsessão repentina pela jovem, a invasão de sua privacidade e a mentira da leitura em comum, que acabou servindo de ponto de partida para a relação.

Mas qual a leitura contemporânea do ato do personagem? Condenável ou comum? Afinal, hoje, “stalkear” alguém já faz parte do dia a dia de muitos de nós. “A gente usa a palavra como sinônimo de dar uma olhadinha, fuçar, não necessariamente de maneiras obsessivas ou criminosas. Então, tudo depende do contexto”, afirma a psicanalista e doutora em psicanálise Ana Suy, autora dos livros “A Gente Mira no Amor e Acerta da Solidão” (Paidós, 2022) e “Não Pise no Meu Vazio” (Planeta, 2023).

Para a psiquiatra Eglacy Sophia, especialista em relacionamentos, buscar informações nas redes sobre um outro alguém, especialmente para as mulheres, pode ser não só saudável no início de uma relação, mas uma forma de se proteger. “Você quer conhecer um pouco da vida dele, quem são os amigos, onde ele vai, o que faz da vida”, aponta Sophia, que coordenou o primeiro ambulatório de amor e ciúme patológicos do Brasil, no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP (IPq-HC-FMUSP).

Se antes esse tipo de vigilância só era possível por meio de amigos e conhecidos ou da observação direta do comportamento do outro, as redes abriram uma verdadeira porteira para o hábito. No entanto, também existem casos que têm pouco a ver com a autoproteção, em que o comportamento surge para bisbilhotar um interesse amoroso, como no exemplo do filme, para acompanhar a vida de um ex após o término ou até dentro de uma relação, quando uma das partes tenta vigiar e controlar a outra.

Para o psicólogo clínico Maycow Montemor, na maioria das vezes, o ato de stalkear nasce de uma insegurança e acontece como forma de preencher um vazio, lidar com a saudade ou com um certo inconformismo a respeito do relacionamento. “Seja porque a relação está estremecida ou um dos indivíduos não consegue exercer a confiança, seja por carência ou por traumas anteriores”, conta o psicólogo, autor do livro “Quase Morri de Amor: Quando a vida perde sentido sem outro alguém” (Academia, 2025).

A partir das redes, a gente estende a dor e o período de sofrimento

As redes sociais inclusive tornam mais complexo o luto pelo fim de uma relação, acrescenta Montemor, o que pode favorecer comportamentos obsessivos. Afinal, é como se você estivesse sempre a alguns cliques de distância do seu ou da sua ex, o que, muitas vezes, te leva a acompanhar o cotidiano dessa pessoa por meio de amigos em comum. “A partir das redes, a gente estende a dor e o período de sofrimento”, diz o psicólogo.

De acordo com a psicanalista Ana Suy, separar-se de um parceiro amoroso significa também se despedir de uma parte de si mesmo, o que requer desenvolver toda uma imagem atualizada de quem somos — um processo nem sempre fácil. “Então, stalkear a vida dessa outra pessoa, querer saber como ela está, é uma coisa até um pouco esperada, porque você se separou dessa parte sua e precisa entender melhor quem você é e quem foi.”

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O joio e o trigo

O sentido mais sombrio e problemático da palavra stalker, porém, é o que vem tomando a cultura pop nos últimos anos. Ele está presente no sucesso de bilheteria “Obsessão” (2026), em que um misterioso objeto faz uma jovem ficar tão fixada pelo protagonista que chega a impedi-lo de sair de casa ou de ir ao banheiro sozinho — entre outras coisas mais. Na atual novela das 9, “Quem Ama Cuida” (2026), Brigitte, personagem de Tatá Werneck, não aceita o fim de seu namoro, prende o ex na sacada e oculta uma câmera no apartamento dele para vigiá-lo. E não tem como esquecer o sucesso da série da Netflix “Bebê Rena” (2024), que adapta a história real do ator e cineasta Richard Gadd, perseguido ao longo de anos por uma stalker.

De um extremo a outro do gráfico, entre uma simples pesquisa num perfil online e a perseguição e tentativa de controle total da vida alheia, em que ponto esse comportamento passa a ser considerado questionável ou até doentio?

Suy frisa que é sempre um desafio colocar uma linha separando o normal do patológico, já que, na psicanálise, a normalidade simplesmente não existe. O que não quer dizer, claro, que tudo seja patológico.

Para exempificar essa complexidade, a psicanalista retoma o exemplo da separação, em que o mundo ideal seria, com o término, o indivíduo bloquear e excluir o ex do seu cotidiano. Por outro lado, ela reconhece que manter uma janela para a vida do outro pode até ajudar a elaborar o processo de luto. E, nesse sentido, uma pitada de ódio vem a calhar. “O ódio não como violência, mas como o afeto que reconhece que o outro não é uma versão de mim mesmo. É uma forma que se distancia, se diferencia do amor.”

Portanto, “às vezes é bom ficar sabendo sobre uma coisa que o outro fez da qual a gente discorda, porque nos lembra que o outro é o outro”, aponta a especialista. Mas há limites. “No mais, talvez seja uma tortura que beira o masoquismo, como ficar agarrado num cacto, tentando perder alguma coisa ao mesmo tempo que não a larga, um trabalho que o neurótico faz de forma magistral.”

A diferença, para Montemor, está na dosagem. Não há problema em querer saber mais sobre uma pessoa em quem você está interessado, sobre um amigo ou até a celebridade da moda. Mas o stalker real sempre vai além: “Ele busca averiguar para além da admiração, procura informações que não cabem a ele, sobre a intimidade”, exemplifica. Segundo o psicólogo, é um indivíduo que não se interessa necessariamente só pelo outro, mas pelo que outro tem e o que está fazendo, de maneira que essas informações sejam capazes de tirá-lo de sua própria realidade.

A patologia começa, na visão de Sophia, conforme a pessoa vai perdendo autonomia sobre o próprio comportamento. “Se, toda hora que quer se concentrar em seu trabalho ou na vida, ela não consegue, porque precisa entrar num perfil falso ou descobrir a senha do outro, aquilo já está excessivo, sem controle e traz sofrimento”, afirma a psiquiatra, autora de “Manual dos Problemas Amorosos-Sexuais” (Artesã, 2025) e “Como Lidar com o Amor Patológico” (Hogrefe, 2018).

Violência invisível

Apesar de a maioria dos exemplos de stalkers nos filmes e séries citados aqui serem mulheres, esse dado inverte a tendência da vida real. Um levantamento da Folha mostrou que, em 2023, elas foram as vítimas em mais de 85% dos casos ocorridos no Brasil.

Nos últimos anos, exemplos de famosas que sofreram com a insistência de perseguidores chegaram com bastante frequência ao noticiário. Em janeiro, a polícia prendeu um suspeito de perseguir a atriz Daniele Suzuki por 17 anos. Outro foi detido no final de 2025 ao invadir o condomínio da atriz Isis Valverde, num assédio que já durava duas décadas. Recentemente, a Justiça absolveu uma fã que vinha stalkeando a atriz Débora Falabella desde 2013. E, em 2016, a apresentadora e modelo Ana Hickmann foi vítima de uma tentativa de assassinato por um fã obcecado, que acabou morto.

Em muitos casos, o perseguidor passa a acreditar que tem uma relação com a pessoa que ele vê todos os dias, seja na mídia ou na vida real, porque aquilo lhe dá conforto e a sensação de estar sendo desejado, esclarece Montemor. A obsessão, segundo ele, se separa de um interesse normal por conta da compulsão, como se a pessoa tivesse um vício naquele indivíduo. “Quando você cria uma realidade à parte, desenvolve uma intimidade que não existe, e essa intimidade te leva a uma necessidade de acompanhamento, como se a sua vida não tivesse sentido sem o outro, você tem um comportamento obsessivo.”

Quando você cria uma realidade à parte, desenvolve uma intimidade que não existe, e essa intimidade te leva a uma necessidade de acompanhamento, como se a sua vida não tivesse sentido sem o outro

No país, a prática do stalking só virou crime em 2021, a partir da lei que penaliza a perseguição reiterada de uma pessoa por meios físicos ou digitais, ameaçando a integridade física ou psicológica da vítima. Desde a gênese dessa legislação, os casos vêm crescendo de forma contínua no Brasil. Entre 2023 e 2024, o salto foi de 18,2%, com dez mulheres por hora vítimas desse tipo de violência, segundo o mais recente Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

O problema, entretanto, pode soar menos óbvio para muita gente do que a agressão física. Uma pesquisa recente do Datafolha mostra que seis em cada dez brasileiros veem a violência contra a mulher como o pior tipo de delito. Mas quase metade deles não enxerga essa mesma violência em atos como impedir a parceria de sair de casa sozinha, controlar suas amizades e até seu salário. Encomendado pelo Movimento Mulher 360º, o levantamento joga luz sobre a dificuldade que ainda existe para identificar padrões de violência psicológica e de abuso.

Em casos de pessoas constantemente perseguidas e vigiadas, os impactos psicológicos e até físicos são muito grandes, afirma Sophia, podendo gerar transtornos como depressão e ansiedade. Isso porque, apesar de nosso corpo estar preparado para viver picos de ansiedade, ele não foi feito para enfrentar uma ameaça constante, o que geralmente acontece quando alguém é vítima de um perseguidor, explica.

“Ela chega e não sabe se vai ter alguém no portão; pode ser que a pessoa apareça num compromisso social ou mande um bilhete achando que é íntima”, dá como exemplo. “É muito forte essa sensação de ser abusado, invadido, perseguido.”

A raiz do problema

Já na sua origem, a paixão é uma espécie de loucura socialmente aceita, segundo Ana Suy. “A pessoa apaixonada fica aficionada pela ideia de que encontrou sua cara metade”, afirma a psicanalista. “Quando alguém está apaixonado por nós, isso pode despertar uma vertente narcísica muito perigosa. Finalmente alguém viu o valor em mim, de fato eu sou tudo isso que o outro fala. A gente acredita no apaixonamento do outro e corre o risco de acreditar nos motivos que a gente teria para ser pessoas muito apaixonantes.”

Ela explica ainda que a paixão nos dá a ilusão de que fazemos parte do outro e ele faz parte de nós. Ao mesmo tempo, muitas vezes nos apaixonamos mais pela ideia que temos daquele parceiro do que por ele em si. E os problemas podem surgir quando essa ilusão se perde ou quando a própria relação se rompe. “É um baita de um desamparo, que pode levar a estados de sofrimento intensamente elevados.”

As causas para o comportamento de perseguição são variadas, diz Sophia. Um exemplo é a pessoa que foi traída numa relação anterior ou até na atual. “Aí ela desenvolve um padrão de perseguir, de vasculhar, para evitar a repetição daquela traição, daquele sofrimento.” Outras causas remetem à psicologia do indivíduo, como um forte medo enraizado de perder o outro, de sofrer ou de ficar só, explica. Para suprir essa insegurança interna, o indivíduo passa a buscar fontes de segurança fora de si mesmo.

A raiz pode estar ainda na infância, no período de triangulação, em que a criança desenvolve uma relação com o pai e a mãe, acrescenta a psiquiatra. “Se, nessa fase, entrou um terceiro elemento, como um irmãozinho, ela cria um temor de ser traída, rejeitada, que pode se repetir bem mais tarde numa relação a dois.” Sophia dá como exemplo pessoas ciumentas que, na tentativa de obter mais controle num relacionamento, vão ao extremo de fazer perfis falsos para tentar seduzir o parceiro, num teste cujo objetivo é criar condições para identificar uma hipotética traição.

“Na cabeça deles, é uma prevenção. Acham que, se descobrirem, não vão ser traídos”, aponta a psiquiatra. “Mas o que a gente vê na clínica é o oposto: essa pessoa vai ser abandonada, porque o outro não vai aguentar”

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