Todo mundo quer ser latino?
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Semana

Febre global, pop latino desafia sua última fronteira: o Brasil

Depois de décadas de resistência, o público brasileiro finalmente entra na rota da música produzida pelos vizinhos e vira alvo prioritário da indústria musical

Dolores Orosco 31 de Maio de 2026

Febre global, pop latino desafia sua última fronteira: o Brasil

Dolores Orosco 31 de Maio de 2026

Depois de décadas de resistência, o público brasileiro finalmente entra na rota da música produzida pelos vizinhos e vira alvo prioritário da indústria musical

“Ahora todos quieren ser latino, pero les falta sazón”, canta o porto-riquenho Bad Bunny, a maior estrela do pop atual, em “El Apagón”. O verso que ensina que não basta querer ser, é preciso ter o tempero latino, virou meme, legenda de post no TikTok e estampou camisetas mundo afora. Mas, para além disso, também significa uma nova chance na historicamente fria relação entre o público brasileiro e artistas vindos de países vizinhos. Depois de décadas orbitando à margem do mainstream verde-amarelo, os hermanos, enfim, estão encontrando a brecha que precisavam para atravessar a fronteira invisível que nos separava deles.

Desta vez, não estamos falando apenas de um hit de Shakira tocando na rádio ou de um surto de reggaeton passageiro que já seduziu nossos quadris em verões passados. O que se vê agora é uma mudança estrutural. Bad Bunny lota estádios mundo afora, Anitta firmou-se como superstar global, a dupla argentina Ca7riel & Paco Amoroso esgota ingressos quando passa por aqui, enquanto megafestivais brasileiros incluem nomes latinos entre seus headliners. O Rock in Rio 2026, em setembro, terá o colombiano J Balvin no palco principal. O Primavera Sound, em dezembro, em São Paulo, apostará na argentina Juana Molina, referência cult que mistura folk e cumbia.

A música latina se tornou linguagem pop mundial e o Brasil, que vinha esnobando essa conversa, parece finalmente disposto a ouvi-la. “O brasileiro sempre foi muito autossuficiente no consumo de música. Até porque temos uma cultura muito rica e diversa em artistas e ritmos”, explica o crítico musical Pedro Alexandre Sanches. Os dados confirmam: segundo a plataforma Luminate, 75% da música que ouvimos são de artistas nacionais, o que nos torna o país que mais aprecia a própria produção.

O brasileiro sempre foi muito autossuficiente no consumo de música. Até porque temos uma cultura muito rica e diversa em artistas e ritmos

No entanto, Sanches também vê nesse blasé do brasileiro à latinidade traços classistas com raízes antigas. “É um pensamento elitista e colonial, de o brasileiro querer estar mais próximo do que vem dos Estados Unidos e Europa, enquanto relacionava o resto da América Latina ao subdesenvolvimento.”

A ironia é que foi justamente quando os Estados Unidos passaram a consumir massivamente a música latina é que o Brasil começou a olhar para ela com outros olhos. O caminho foi torto: primeiro Porto Rico conquistou Miami, depois Miami conquistou o mundo – e só então entramos na rota.

“Existe uma diáspora em curso nos Estados Unidos que vem de décadas por parte da população latina”, diz Pedro Kurtz, diretor de Operações e Cultura para Américas da plataforma de streaming Deezer. “A música vai seguindo esse trajeto: ela sai de seus país de origem, passa a ser consumida pelos latinos nos Estados Unidos e explode por lá. Para só depois ganhar fãs no Brasil. É contraditório.”

Foi assim com o reggaeton. O gênero nasceu em Porto Rico, cresceu na Colômbia, se industrializou nos Estados Unidos e virou um dos principais produtos de exportação da música pop global. Daddy Yankee abriu caminho nos anos 1990. J Balvin sofisticou o formato nos 2010. Bad Bunny agora veio e transformou tudo em fenômeno cultural, acrescentando um “sazón” que dá sabor a essa receita com trap e dembow, uma das batidas mais tradicionais de sua ilha natal.

Bad Bunny vestiu um agasalho que pertenceu a Pelé em seu show em São Paulo
Bad Bunny vestiu um agasalho que pertenceu a Pelé em seu show em São Paulo
Foto de Eric Rojas

Barreira da língua

O historiador Sebastián Piracés é um dos criadores da banda Francisco, El Hombre e um dos artistas que há mais tempo tentam construir pontes musicais entre o Brasil e o resto do continente. Por 15 anos, o grupo, que já foi indicado em Grammy Latino, fez uma mistura de rock com ritmos como o samba, a salsa, a cumbia e o merengue. Para ele, o argumento da “barreira da língua” nunca convenceu. “Durante muito tempo ouvi dizer que brasileiro não ouvia música latina por conta de ser o único país a não falar espanhol no continente. O que não faz o menor sentido, porque senão não se ouviria tanta música em inglês por aqui.”

O problema, segundo ele, sempre foi outro: a força do dinheiro. “A projeção da indústria cultural norte-americana sempre foi muito maior aqui. O que está acontecendo agora é que essa mesma indústria finalmente entendeu que o brasileiro se identifica com a mensagem, a música e a estética dos hermanos.”

Os números ajudam a explicar esse despertar. Segundo a Deezer, Bad Bunny teve um pico de crescimento de 215% nos streams brasileiros no início de fevereiro, impulsionado por suas performances no Grammy e pelo Super Bowl. Shakira registrou aumento de 302% em audições no dia do megashow em Copacabana, em maio. Já a dupla argentina Ca7riel & Paco Amoroso cresceu 141% após anunciar shows no Brasil – eles se apresentarão no Espaço das Américas, em São Paulo, em novembro.

Bad Bunny teve um pico de crescimento de 215% nos streams brasileiros no início de fevereiro, impulsionado por suas performances no Grammy e pelo Super Bowl

O caso dos argentinos, que produzem uma mistura de trap latino, hip-hop, rock e eletrônico em suas canções, talvez seja o exemplo mais simbólico dessa nova fase. “Ca7riel & Paco Amoroso fizeram o primeiro show no Brasil no ano passado, em um palco menor do festival Lollapalooza”, conta Kurtz. “Tinham ficado conhecidos por aqui depois de uma edição muito bonita que fizeram no Tiny Desk. Poucos meses depois voltaram para shows no Rio e em São Paulo totalmente lotados, com ingressos esgotados e todo mundo cantando as músicas em espanhol.”

Kurtz também vê um movimento de aproximação entre Brasil e seus vizinhos latinos anterior à música. “Muito mais brasileiros viajam pela América Latina hoje em dia. A gente começa a entender que na Argentina tem lugares lindos, que no México é a mesma coisa, que na Colômbia também. Esse fenômeno musical veio acompanhado de um movimento maior de identidade cultural. O brasileiro finalmente está se entendendo latino”, afirma. “Quanto mais a gente se distancia da noção de que é preciso chegar aos Estados Unidos e à Europa para alcançar êxito, mais começamos a consumir cultura dos nossos países vizinhos, que são muito mais parecidos com a gente. Ou você vai me dizer que Taylor Swift se parece mais conosco que o Bad Bunny?”

Esse fenômeno musical veio acompanhado de um movimento maior de identidade cultural. O brasileiro finalmente está se entendendo latino

Outro elemento que vem ajudando os latinos a ganharem território por aqui é o entendimento deles nas vantagens que isso agrega: o Brasil é o mercado dos sonhos de qualquer artista. Em receita, o país já é o oitavo do ranking da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), a principal organização da indústria da música no mundo. Em número de streamings, o Brasil ocupa o segundo lugar mundial, só perdendo para os Estados Unidos. “A gente vem crescendo pelo menos 20% ao ano, enquanto o resto da América Latina cresce em média 25%. Naturalmente, artistas do mundo inteiro querem achar um jeito de entrar aqui”, conclui Kurtz.

E para isso, vale todo o esforço para nos fidelizar. “Uma coisa que os artistas latinos já sabem é que, para ganhar o público brasileiro, não basta vir fazer show uma vez no ano, falar umas frases prontas em português e ir embora. É preciso investir, voltar pelo menos umas três vezes para apresentações para públicos menores em diversas cidades, além de vestir as sandálias da humildade e saber que vai ter que dar entrevista para 40 jornalistas diferentes”, afirma o diretor. “É fazer uma agenda maior do que faria no próprio país, se conectar com os artistas brasileiros, enfim, se fazer presente. Foi o que a Anitta fez, por exemplo, quando decidiu que queria conquistar o público norte-americano.”

Passado de resistência

Essas tentativas de aproximação já haviam acontecido antes – ainda que em outro contexto, sem algoritmos, playlists ou TikTok. “A MPB, desde os anos 1970, tentava mudar isso”, lembra Pedro Alexandre Sanches. “Foi uma época em que vários artistas gravaram em espanhol, fazendo parcerias com cantores latinos e jogando luz para essa irmandade latino-americana que era importante termos.”

Foi a década em que Ney Matogrosso gravou “América do Sul”, Elis Regina cantou “Gracias a la Vida” em grandes festivais, Milton Nascimento registrou “Volver a los 17” ao lado de Mercedes Sosa. Ali, o pano de fundo era político. “Era a resistência da classe artística às ditaduras militares. Brasil e Chile viviam isso simultaneamente. O assassinato de Víctor Jara [cantor, compositor e diretor de teatro, morto durante o golpe militar no Chile, em 1976] teve um impacto enorme por aqui. Era o Chico Buarque chileno.”

Milton Nascimento e Mercedes Sosa em apresentação histórica de “Volver a los 17”
Milton Nascimento e Mercedes Sosa em apresentação histórica de “Volver a los 17”
Reprodução

Ainda assim, essa aproximação ficou restrita a círculos intelectuais na época. “Eram artistas de prestígio, mas não os que mais vendiam discos. Não havia uma potência globalizada como o streaming”, compara Sanches.

Agora há. E talvez por isso a latinidade tenha deixado de ser nicho para virar tendência global de consumo. No entanto, ao mesmo tempo em que o mundo parece mais aberto aos artistas latinos, existe também um processo de padronização sonora. “Hoje me parece tudo muito pasteurizado”, critica Sanches. “É como se fosse uma grande fábrica de montagem.”

O crítico cita o modelo industrial do pop contemporâneo, com dezenas de compositores trabalhando em uma única faixa e artistas cada vez mais próximos esteticamente uns dos outros. “Igual a Anitta tem outras mil cantoras latinas cantando em espanhol. Repare uma coisa: quando você olha essas músicas dessas cantoras pop que fazem muito sucesso, são uns 15 compositores na mesma canção: um fazendo o refrão, outro fazendo a parte alta, outro fazendo a ponte… É como se fosse uma grande fábrica de montagem, uma linha de produção em massa.”

Sebastián Piracés concorda que existe uma “música latina para exportação”. “São essas que nascem das gravadoras, com apoio das grandes mídias e toda uma produção por trás”, diz. “O reggaeton que o mundo conhece é apenas uma pequena parte do que é ouvido em Porto Rico.”

Nessa linha de pensamento, Piracés aposta que a próxima onda latina talvez venha justamente do underground. “Acho que a tendência é acontecer uma saturação dessa latinidade mainstream”, afirma. “Então o jovem brasileiro vai começar a buscar o que é mais alternativo e novo.”

É nesse contexto que nomes como a banda chilena Candelabro e a cantora argentina Marilina Bertoldi começam a circular em festivais internacionais maiores. Artistas que misturam rock, música eletrônica, cumbia, folk e experimentações digitais sem necessariamente se prenderem ao reggaeton que está em alta. E existe um país particularmente bem posicionado para liderar essa próxima fase: a Argentina. “Depois de Bad Bunny e Porto Rico, eu apostaria nos argentinos”, diz Kurtz. “O rapper Trueno, as cantoras TINI e Nathy Peluso são nomes em ascensão que devem despontar por aqui.”

E não se trata apenas de aposta. Nathy Peluso, por exemplo, teve crescimento de 187% nos streams brasileiros após anunciar a turnê “Club Grasa Vol. 2”, segundo a Deezer. TINI vem se consolidando como uma das principais estrelas do pop latino contemporâneo. Já Trueno representa uma geração argentina que mistura trap, funk, reggaeton e estética digital com naturalidade.

Talvez porque as novas gerações tenham crescido mais conectadas com o continente do que seus pais. Talvez porque o algoritmo finalmente derrubou muros culturais que a indústria ajudou a construir durante décadas. Talvez porque a estética latina tenha se tornado cool globalmente depois de Bad Bunny. Ou talvez porque o Brasil esteja finalmente entendendo que seu molho nunca esteve tão distante assim do sazón da vizinhança.

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