Conversas

Maria Prata: “Quem tem mais recursos destrói mais, portanto, as regras precisam ser mais rigorosas”

Editora de moda por anos, jornalista parte dessa indústria bilionária e ouve até um prêmio Nobel para abordar a crise climática e o futuro do planeta

Isabelle Moreira Lima 04 de Novembro de 2026
Divulgação

Jornalista e apresentadora de TV, Maria Prata anda bem preocupada com o futuro do planeta. Editora de moda por anos, começou a ver a indústria que conhecia tão bem como responsável por parte da crise climática. O ponto de virada foi a maternidade, quando começou a pensar em que tipo de mundo as filhas habitarão se continuarmos a viver como temos feito hoje. É o que vemos em seu filme “Por Que Não?”, que participou do Festival do Rio, da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e agora está disponível no streaming Aquarius (veja o trailer).

No filme, Prata vai de eventos fashionistas em Nova York a encontros com nomões na ONU — Mary Robinson, primeira mulher a presidir a Irlanda, Juan Manuel Santos, ex-presidente da Colômbia e vencedor do Nobel da Paz, além dos brasileiros Luiza Trajano, empresária, e Fernando Meirelles, cineasta. Ouve também influencers do clima e encontra refúgio no jardim da avó. É no meio das plantas de Laura Góes, fundadora da Pousada da Alcobaça, em Petrópolis (RJ), onde vemos os momentos mais delicados do filme e conhecemos a sabedoria de uma mulher que já viu o mundo na iminência do fim muitas vezes.

Maria e sua avó, Laura, em
Maria e sua avó, Laura, em “Por Que Não” (2026)
Divulgação/Aquarius

Prata identifica que a dificuldade de conscientizar sobre o clima vem da comunicação, alarmista e culpabilizante. E diz, em entrevista a Gama, que a solução só chegará quando passar pelo bolso: quando for mais barato ter produtos sustentáveis e limpos, nós os preferiremos.

Na entrevista que você lê abaixo, Maria Prata fala ainda dos ensinamentos que tem transmitido às filhas: é importante votar, cobrar e consumir da melhor forma possível. E mais: quem tem mais acesso financeiro, destrói mais. Logo, tem que ter mais responsabilidade pelo que faz.

“O que mais tenho gostado de ouvir das pessoas que assistem ao filme é que muitas saem com mil perguntas na cabeça. Para mim, isso é missão cumprida. Faz o público pensar para dentro: como falar disso com os filhos? Quais são as nossas ferramentas reais, além do canudo de papel e da ecobag?”, afirma a Gama.

As big techs precisam que o mundo consuma. Faz sucesso lá dentro quem faz a roda girar, e isso é uma podridão

  • G |O filme começa com você, jornalista de moda, ao se dar conta do potencial poluente dessa indústria e de sua ação no desgaste do planeta. Como fica a sua relação com a moda depois dessa pesquisa ampla?

    Maria Prata |

    No filme, eu aumento um pouco o volume dessa personagem fashionista para que a gente consiga perceber a contradição. Mas, entre aquela jornalista em cima do salto e a pessoa que sou hoje, houve uma ampliação muito grande da minha área de trabalho: inovação, negócios, empreendedorismo e comportamento. Meu olhar para a moda mudou ao longo desses anos. Não que eu a tenha abandonado. É uma indústria muito poderosa, mas agora tenho certeza de que a gente pode e deve usar esse poder para mudar um pouco os rumos do mundo.

    Uma indústria tão grande, que movimenta tantos trilhões de dólares, precisa ser capaz de investir em inovação, sustentabilidade, novas formas de produzir e dar total transparência à cadeia. Meu papel agora é cobrar de dentro. Eu sou parte do problema e preciso passar a ser parte da solução na indústria da moda.

  • G |Você conta que perdeu muitos seguidores e que teve pouco engajamento quando começou a falar sobre clima. Por que acha que isso aconteceu? Era uma questão do público da moda, que não quer mesmo ouvir muito sobre isso, do público em geral, ou era uma estratégia de big tech?

    MP |

    Tem uma questão de as pessoas realmente não querem falar e ouvir sobre esse assunto, pois há sempre alguém nos culpando por algo errado que fazemos. Quem gosta de ser culpabilizado, de ser cobrado? E quem gosta de pensar na morte o tempo todo? Ninguém. Então as pessoas dizem: “Eu não quero saber” ou “Não tem nada que eu possa fazer, deixa para lá”.

    Não é um tema comunicado de maneira engajadora. A gente fala muito disso no filme: se dissessem “é para cá que a gente tem que andar, vamos desse jeito e vai dar certo”, seria diferente. A China conseguiu fazer avanços inacreditáveis. É um país absolutamente coletivo, onde todo mundo — para o bem e para o mal — anda para o mesmo lugar. Eles conseguiram ter avanços incríveis, já tendo sido um dos mais poluidores do mundo.

    Aí você perguntou se são as big techs. Também são elas. As influenciadoras do clima que entrevisto no filme têm 30 mil ou 40 mil seguidores. Não têm um milhão, dois milhões, como têm as que fazem o mundo consumir. As big techs precisam que o mundo consuma; então faz sucesso lá dentro quem faz a roda girar, e isso é uma podridão.

    Acho que é um pouquinho de tudo. As pessoas não têm vontade de comprar moda sustentável; têm vontade de comprar moda, a palavra “sustentabilidade” nem precisa ser usada. Tem um dado que eu não sabia: alguns dos estados mais à direita dos Estados Unidos, como o Texas, são dos que mais investem em energia limpa. Não por questões sustentáveis, que é uma pauta da esquerda, mas porque é mais barato. Eles encontraram maneiras de economizar e aumentar a receita; então, para eles, começou a fazer sentido. Tem lugares em que você não pode falar a palavra sustentabilidade, mesmo que o que você esteja vendendo passe por isso.

    Esse pode ser um ponto de virada: quando tudo o que for sustentável e limpo ficar mais barato. É sempre o bolso que pesa, sempre a economia. As questões principais em relação à sustentabilidade são economia, poder e política.

  • G |Muitos dos entrevistados do filme falam do discurso sobre o clima como extremamente alarmista — porque, de fato, os números são assustadores — e pouco engajador. E você faz um filme cheio de dados e entrevistas, mas delicado, mostrando a sua história, a da sua avó, a das suas filhas. Como encontrou esse jeito para falar do tema?

    MP |

    Fui fazendo o filme muito instintivamente, não tinha a menor ideia de onde ele ia dar quando comecei. Foi o Hugo Prata, meu primo e sócio da Bravura — a produtora que fez o documentário comigo —, quem sugeriu: “Põe sua avó”.

    Comecei a ir até lá [a casa da avó], um pouco sem direção, e filmava aos poucos. Queria muito ter imagens dela no jardim, porque ninguém nunca a tinha filmado na estufa com as plantas. Ao longo desses três anos, fui entendendo que filme era esse. No início, achei que fosse um documentário sobre a comunicação da crise climática. Depois, entendi que não é um problema de comunicação: o problema é que não sabemos para onde ir. As pessoas foram trazendo muitos pontos de vista que contribuíram para a construção do filme.

Precisamos ensinar a votar, cobrar e consumir da melhor maneira possível

  • G |No dia a dia, como é possível seguir falando dessas notícias, com que tom? Como ter uma comunicação mais otimista? Como falar com as crianças com honestidade, mas sem deixar que elas se apavorem com a perspectiva de futuro?

    MP |

    É difícil mesmo. Precisamos ensinar a votar, cobrar e consumir da melhor maneira possível. Esta última eleição foi uma aula em relação à Amazônia. Tínhamos duas propostas opostas sobre a importância da floresta em pé: de um lado, um governo sob o qual tivemos o maior índice de desmatamento ilegal da história; de outro, uma gestão que reduziu esses índices para o menor nível histórico e fixou a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2030. Isso é muito claro para explicar a uma criança: mostrar as opções que tínhamos e o quanto o voto fez uma diferença brutal para garantir a preservação nos próximos anos.

    Depois, há a questão do consumo. As crianças hoje consomem brinquedos como squeeshies, feitos de derivados de petróleo, baratíssimos e descartáveis, que acumulam sem parar. Tento mostrar isso para elas: se quiser ter um, tudo bem, mas entender que aquilo não se decompõe até 2030.

    Quem tem mais recursos destrói mais, portanto, as regras precisam ser mais rigorosas. É isso que tento ensinar a elas.

    E também busco passar o apreço pela natureza — se não pela natureza em si, pela bisavó delas, que tem essa ligação tão forte. No filme, aumento o tom da personagem que não entende de plantas, mas tenho plena consciência da preciosidade daquele lugar e da relação que a minha avó construiu com ele. Há uma herança e um legado de conhecimento que é fundamental transmitir.

  • G |Você encontra a Hannah Ritchie, que é uma voz menos pessimista sobre essa fase do planeta. O que você aprendeu com ela que seria bom que todo mundo soubesse?

    MP |

    O encontro com a Hannah foi muito feliz por alguns motivos. Primeiro, porque foi a primeira pessoa que li dizendo: “Nós já estamos conseguindo; isso melhorou, aquilo melhorou”.

    Entendi também por que muitos ambientalistas, climatologistas e biólogos criticam o livro dela, considerando-o irresponsável por generalizar pontos e temendo que transmitir a ideia de que “está tudo bem” cause acomodação nas pessoas. Conversei sobre isso com vários entrevistados.

    O livro é interessante porque ela é cientista de dados e o seu ponto de vista é pragmático. Ela aponta, por exemplo, uma porcentagem baixíssima de todo o plástico produzido no mundo vai parar nos oceanos. O plástico ainda é indispensável em setores vitais, como a área hospitalar, e ainda não inventaram substitutos viáveis para certas aplicações. Enquanto essas alternativas não surgem, em vez de travar uma batalha genérica contra a produção total de plástico, por que não focar prioritariamente nessa porcentagem que atinge as águas marinhas? É um problema de proporção mais delimitada e um pensamento extremamente objetivo.

    O livro traz muitas informações sobre o Brasil e se tornou um grande best-seller lá fora, com elogios públicos de Bill Gates e de Margaret Atwood. Para mim, essa leitura foi um alívio. Ela traz pragmatismo: lista com fontes o que já é viável, o que já está sendo feito e o que ainda precisa ser executado.

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