Qual futuro você constrói?
Icone para abrir
Ilustração de Isabela Durão

2

Artigo

Precisamos falar sobre overshoot

O aquecimento global cruzará um limiar catastrófico nos próximos quatro anos, e a volta ao “normal” não está assegurada. Por que ninguém parece preocupado?

Claudio Angelo 04 de Outubro de 2026

Precisamos falar sobre overshoot

Claudio Angelo 04 de Outubro de 2026
Ilustração de Isabela Durão

O aquecimento global cruzará um limiar catastrófico nos próximos quatro anos, e a volta ao “normal” não está assegurada. Por que ninguém parece preocupado?

Nos primeiros dias de setembro, a humanidade recebeu duas potenciais sentenças de morte com o mesmo prazo. Uma virou o assunto do momento, a outra foi ignorada. Uma é especulação. A outra é virtual certeza científica. Adivinhe qual delas não causou comoção?

No dia 8, um jovem chamado Jacob Coxon anunciou no Twitter que havia pedido demissão de seu emprego na Anthropic, a gigante da inteligência artificial. E o fez porque, segundo ele, não podia compactuar com o desenvolvimento acelerado da IA. Coxon escreveu que os desenvolvedores da tecnologia acreditam que “ela poderia matar a todos nós até o fim da década”.

Apenas seis dias antes, em 2 de setembro, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente lançou um relatório dizendo que, “até o fim da década”, o mundo poderá atingir um aquecimento global de 1,5oC, ultrapassando-o nas décadas seguintes. Essa ultrapassagem (overshoot) traz múltiplos riscos para ecossistemas, populações e países. O Pnuma alerta que “não existem cenários benignos com uma elevação da temperatura global acima desse nível” e que um eventual declínio dos termômetros, mesmo que a humanidade se esforce, “não está assegurado”.

O relatório ganhou manchetes nos Guardians de costume e foi esquecido no dia seguinte. Já o tuíte de Jacob Coxon, as reações dos oligarcas da IA e as dos governos de EUA e China monopolizaram as conversas no planeta. É justo; eu, por exemplo, não tenho nenhuma intenção de morrer assassinado pela Skynet daqui a três anos. Mas, em mais de duas décadas trabalhando com mudança do clima, eu nunca li nada tão apavorante quanto o documento do Pnuma, e não dá pra sofrer sozinho com isso: permitam-me tirar o sono de vocês também.

Duas coisas chamam atenção no relatório. A primeira é a franqueza incomum. Não que a ONU ou a ciência sejam desonestas, mas as agências intergovernamentais costumam dar uma dourada na pílula quando apresentam conclusões duras sobre a crise do clima, dizendo coisas como “se agirmos agora, ainda podemos evitar o pior”. O Pnuma abandonou esse sorrisinho forçado e agora declara com todas as letras: “o pior chegou”.

O voto é o principal instrumento de controle social: não temos mais o luxo de eleger negacionistas climáticos

A segunda coisa é a irrevocabilidade do overshoot e a série de mudanças de regime no sistema climático que ele tende a disparar. E aqui entram dois conceitos vindos do estudo de sistemas complexos que infelizmente farão cada vez mais parte do léxico da humanidade: “pontos de não-retorno” e “histerese”.

Desde que o Acordo de Paris foi assinado, em 2015, os cientistas sabem que estabilizar o aquecimento global em 1,5oC acima da era pré-industrial seria muito difícil. A humanidade emite mais de 40 bilhões de toneladas de CO2 por ano e, para termos alguma chance de ficar no limite “aceitável” de elevação de temperatura em relação à era pré-industrial, precisaríamos emitir no máximo 300 bilhões de toneladas entre 2019 e o fim dos tempos. Como a conta não fecha, criou-se a figura matemática do overshoot: o aquecimento ultrapassaria o limiar crítico por alguns anos, mas esforços de corte visando zerar as emissões líquidas de gases de efeito estufa em 2050 fariam essa ultrapassagem ser mínima ou limitada. Só que seria preciso fazer um grande esforço desde já: a humanidade precisaria cortar emissões em cerca de 45% até 2030. Não deu: as emissões só fizeram crescer.

Hoje a previsão mais otimista é que cheguemos a 1,8oC de aquecimento nos próximos anos e que consigamos trazer os termômetros de volta para 1,5oC no final do século. Isso significa que a grande maioria dos leitores deste artigo jamais verá novamente o clima relativamente benigno que tivemos até aqui; todos os anos serão uma repetição piorada de 2024, quando a humanidade teve seu primeiro encontro com 1,5oC de aquecimento e o Brasil viu a pior seca de sua história.

Essa previsão otimista, porém, é pouco confiável, porque, a partir de um certo limiar, corremos o risco de uma série de efeitos-cascata no sistema climático. São os chamados pontos de não-retorno, ou tipping points, em inglês.

A forma mais simples de entender os tipping points é imaginar uma bola sendo empurrada numa superfície ondulada, cheia de picos e vales estreitos. É preciso gastar energia para empurrar a bola até o pico seguinte; a partir dali, ela desce rapidamente até o fundo do próximo vale, onde encontra um novo estado de equilíbrio.

Um estudo de 2022 liderado por David Amstrong McCay, da Universidade de Sussex, enumerou 15 pontos de virada no sistema climático. Entre eles está o colapso da floresta amazônica, a morte de recifes de coral, o esfacelamento dos mantos de gelo da Groenlândia e do Oeste Antártico e o derretimento do permafrost, o solo congelado e riquíssimo em carbono do hemisfério Norte. Como a bola do experimento mental acima, cada limiar desses significa um novo estado de equilíbrio, uma mudança de regime. Se a Amazônia virar savana, não basta reduzir de novo a temperatura para que ela volte a ser floresta. Se os corais se extinguirem, idem. Se a o Oeste Antártico descongelar, não dá para recriar suas geleiras.

A mobilização de pessoas reais no mundo real pressionando políticos reais saiu de moda, mas ela precisa voltar

Pior: a morte da Amazônia e o derretimento dos solos congelados do Ártico lançarão carbono extra na atmosfera, o que alimenta um círculo vicioso de emissões causando desastres causando emissões. Tipping points, além disso, acontecem sem aviso, de forma não-linear. São a proverbial azeitona da empadinha. Parte dessas viradas está prevista para temperaturas mais altas, além de 2,5oC. Só que é uma aposta arriscada deixar o planeta esquentar contando que será possível prevenir alguns desses efeitos.

Primeiro, porque há muita incerteza sobre o momento em que o ponto de não-retorno é ultrapassado: geleiras importantes da Antártida já estão em colapso, e precisamos de apenas 1oC de aquecimento para isso. Segundo, porque o sistema climático tem histerese, uma espécie de inércia: se damos um passo além da conta, não basta dar um passo atrás para consertar as coisas. Para devolver a temperatura da Terra para 1,5oC, não basta parar de emitir: precisaremos tornar as nossas emissões negativas, ou seja sequestrar ativamente carbono da atmosfera. Isso tem implicações tecnológicas, ambientais e éticas profundas. Mas os governos estão atrasados nesse debate: alguns nem acham que a mudança climática é real.

Qualquer cidadão que se preocupe em sobreviver além de 2030 deveria ler o relatório do Pnuma. Não apenas para entrar em desespero, mas sobretudo para entender o que está em jogo, ficar com muita raiva e fazer alguma coisa. Em países como o Brasil, onde ainda se pode escolher representantes políticos, o voto é o principal instrumento de controle social: não temos mais o luxo de eleger negacionistas climáticos. Mas votar certo é só a primeira etapa: no mundo do scroll infinito e do lixo de IA nas nossas telas, a mobilização de pessoas reais no mundo real pressionando políticos reais saiu de moda, mas ela precisa voltar. Governos são por definição conservadores; a sociedade organizada é o grande agente de mudança. Mobilização dá trabalho, mas não temos outra opção. Não dá para delegar aos robôs.

Claudio Angelo é coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima e autor de “O Silêncio da Motosserra – Quando o Brasil decidiu salvar a Amazônia” (Companhia das Letras, 2024)

Um assunto a cada sete dias