Trecho de livro

Apolinária

Inspirado na fluidez do rio São Francisco, às margens do qual a matriarca viveu, livro de Bianca Santana romanceia a vida da avó e a formação da identidade negra no Brasil

Leonardo Neiva 15 de Agosto de 2025

Ela criava codornas na garagem improvisada de um edifício da Cohab. Mantinha em casa uma verdadeira floresta amazônica, que dificultava dar alguns poucos passos pela lavanderia. Gostava de contar histórias sobre o rio São Francisco e o centro de São Paulo, e tinha o costume de falar mal das vizinhas pelas costas. Essas estão entre algumas das primeiras memórias que a escritora e jornalista Bianca Santana evoca sobre a avó em “Apolinária” (Fósforo, 2025), seu mais novo romance.

Na trama, lembranças de família, ancestralidade e pesquisa histórica ajudam a narrar a trajetória de Apolinária, mais conhecida como Polu, entrelaçando-a à formação da identidade negra no Brasil. Significa que ela perpassa também marcos históricos como a Lei de Terras de 1850 — que, como costuma ser, privilegiou as elites — e as romarias a Bom Jesus da Lapa, nascidas como agradecimento pelo fim da escravidão. Numa continuação do seu projeto de escrita de si, Santana, que foi colunista daGamae hoje apresenta oprimeiro clube do livroda revista, vai alternando as vozes da neta e da avó, preenchendo com a memória e a imaginação os retalhos que faltam.

Autora de obras como “Quando me Descobri Negra”(Fósforo, 2023),“Continuo Preta: A vida de Sueli Carneiro”(Companhia das Letras, 2021) e“Arruda e Guiné: Resistência negra no Brasil contemporâneo”(Fósforo, 2022), ela também aborda dentro dessa linha familiar temas como o racismo cotidiano e a ascensão social ocasionada pelo trabalho no contexto brasileiro. Inspirada pelas curvas do rio São Francisco, como em muitas das histórias contadas pela avó, Santana flui pela vida de Polu, repleta de dificuldades e amores, de um casamento infeliz no interior da Bahia ao dia a dia como servente e empregada doméstica na periferia de São Paulo, onde criou seus dois filhos. Uma viagem de autoconhecimento que navega paralela à de tantas outras famílias do país.


Só quando a cabeça tombou para o lado me dei conta de que ela tinha mesmo morrido. A máscara de oxigênio, que nos dias anteriores aumentava a saturação do corpo, silenciando o aparelho, não surtiu efeito dessa vez. Olhei ao redor e percebi que éramos só eu e ela. A enfermeira estava tão nervosa quando a respiração piorou, que pedi para telefonar para a médica do home care buscando instruções. Sabia que não adiantaria de nada, mas a ocupação tiraria o medo da sala. Éramos só eu e ela.

Uma tranquilidade prazerosa me tomou. Da cabeça irradiou para os braços e pernas. Minha respiração acalmou e tudo ficou mais iluminado, como se alguém tivesse aumentado o brilho da tela que não existia. Eu estava ao lado dela, como ela esteve do meu por quase dezenove anos. Do que veio depois, pouco lembro. Apenas que tudo era muito, especialmente as palavras. Muitas palavras que diziam coisa nenhuma. Pelo menos para mim. E para ela, que já não ouvia mais nada.

Inveja. A morte ainda me parecia um grande alívio. Imaginava não precisar mais levantar. Não ter de me mexer no tabuleiro de atribuir sentido a terem encapado a terra com asfalto e reclamar de enchente, a trabalhar catorze horas por dia para pagar juros e acumular tralhas, a ser convidada a me entupir de remédios que desequilibram o corpo em busca de saúde. Apenas acabar. Sem o drama do suicídio ou do assassinato com um tiro na cabeça. Morrer por insuficiência respiratória, no quarto de casa, aos oitenta e quatro anos de idade, tendo percorrido todo o tabuleiro com louvor. Invejei vó Polu.

Foram tantos anos ouvindo histórias do rio São Francisco, do centro de São Paulo, da Vila Gustavo, contadas a mim, a estranhos no metrô, a vizinhas de quem falava bem pela frente e mal pelas costas, que posso ouvir a voz firme da vó Polu quando sento para escrever sobre ela.

Inveja. A morte ainda me parecia um grande alívio. Imaginava não precisar mais levantar

Meu nome é Apolinária, mas sempre me chamaram Polu. Sou baiana. Nasci em Tabocas do Brejo Velho, mas fui criada em Sítio do Mato, na beira do São Francisco, na Lapa do Bom Jesus, lugar de romeiro. Os antigos diziam que eu nasci em 1919, mas no registro está marcado 1925. Fui criada sem pai, sem mãe e sem irmão.

Cheguei em São Paulo em 1946. Vim pra um tratamento médico na Santa Casa de Misericórdia. O doutor achou graça eu querer limpar o quarto e lavar bem o banheiro antes de ser internada. Mas eu não era besta de ficar naquela sujeira. Das cinco vezes que fui operada, deixei tudo limpo antes da internação. Arrastava cama, jogava cândida, chega ficava branquinho.

É que eu gostava de um moço quando era nova, mas casei com o pai dele. Tive um filho que morreu bebezinho, ê em. Adoeci e vim me tratar em São Paulo. Quando tive notícia de que o velho morreu, não voltei mais. Aqui fiquei. E conheci o Sabino, dez anos mais novo. Casei com ele, tive dois filhos. Uma me deu muita alegria e o outro tirei até sangue de tanto bater, mas não adiantou. Bebeu que perdeu o emprego no Bradesco.

Eu só tenho a agradecer a Deus pela vida que tenho hoje. Minha casa, a pensão que sai direto do salário do Sabino todo mês. O juiz que mandou, quando ele quis tirar as crianças de mim. Faz-se besta. Quis ir no juiz pra tirar meus filhos e teve foi que pagar pensão. E o juiz ainda deu um sermão no catrumano. Cuido das minhas plantas, das minhas codornas e vivo em paz até o dia que Deus chamar.

Tive dois filhos. Uma me deu muita alegria e o outro tirei até sangue de tanto bater, mas não adiantou. Bebeu que perdeu o emprego no Bradesco

Produto

  • Apolinária
  • Bianca Santana
  • Fósforo
  • 112 páginas

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