Trecho de livro

Vida Sortida

O escritor Bernardo Ceccantini perambula por São Paulo e pelos becos da memória da cidade e de seus habitantes em novo livro de poemas

Leonardo Neiva 08 de Maio de 2026

Para muitos poetas, o andar dos versos é o ritmo da nossa existência. A frase certamente se aplica a “Vida Sortida” (Editora, 34, 2026), novo livro do escritor paulista Bernardo Ceccantini. Logo nos primeiros poemas, quem dita os caminhos é a realidade do cotidiano numa grande cidade — no caso, São Paulo, como fica evidente nos títulos “Momentos na Barão de Limeira”, “Anhangabaú” e “Quinta-feira em Pinheiros”. Nesses textos, o poeta descreve seus pensamentos de andarilho, os encontros pelas calçadas e também reflexões sobre temas aparentemente banais, como os primeiros namorados, que surgem em toda sua glória nos versos de “Ela ainda existe?”.

Afinal, a obra não está limitada aos espaços públicos, como ruas, praças e bares, mas se alastra a praticamente todos os lugares que percorremos ao longo de nossos dias: quartos, casas, carros, viagens de férias, refeitórios… Com a diferença que aqui o narrador presta uma raríssima atenção neles. Uma atenção profundamente subjetiva, que empresta significados íntimos ao entorno enquanto reflete sobre o amor, os prazeres, a depressão e a revolta, dentre uma série de questionamentos aparentemente aleatórios, mas que guardam uma profundidade só sua.

Estreante na poesia com “Na Quina das Paredes” (7Letras, 2017), obra semifinalista do Prêmio Oceanos, Ceccantini acena aqui a grandes artistas como Manuel Bandeira (1886-1968), o cineasta Michelangelo Antonioni (1912-2007) e o poeta e dramaturgo norte-americano Frank O’Hara (1926-1966). Mas os grandes protagonistas na obra são os passantes, pessoas que dividem fugazes momentos de proximidade e acabam se misturando aos vínculos pessoais e familiares, todos habitantes de algum lugar da memória do poeta. É assim que o autor compartilha conosco, numa escrita que conjuga o bom-humor e a melancolia, um pouco da sua São Paulo, uma cidade capaz de pequenos momentos de graça e de loucura.


Ela ainda existe?

Como são engraçados os primeiros namorados.
Fazem tanto barulho quando se despem
em pequenos pulos numa perna só.
Quantas janelas não enfrentam
os primeiros namorados
numa manhã de sábado
em que todo o prédio da frente já acordou.
Mas quem ousa despertá-los?
Quem, em perfeita consciência,
ousa chamá-los às tarefas do dia?
O cesto de roupa suja,
o prato engordurado,
a dúvida do almoço?
Mesmo os seres mais infelizes
já foram primeiros namorados de alguém.
O quarto é o único mundo possível,
o único mundo presente
dos primeiros namorados.
Escuro, flamejante,
escuro de novo.
Da mesa ao interruptor na parede,
da cama à cama,
só mais uma vez.

Mesmo os seres mais infelizes/
já foram primeiros namorados de alguém

Meio quarteirão

Entre telas e canecas,
o poeta caminha na semana estranha.
O peito aberto,
nenhuma inspiração,
a rua muda
na conversa chata dos taxistas.
Vai, poeta,
escarafunchar a infância,
inventar jabuticabeiras, aparições.
Vai bater na família,
que nem te incomoda mais.
Na manhã de moletom,
o poeta é, se muito, fitness,
com seus blocos semânticos pra lá e pra cá.
Seu quarto amontoa-se
de palavras amplas:
“rosa”, “dor”, “ontem”, “mar”.
Todas mancas, infestadas de cupins.
Adeus, poeta,
que hoje está só e técnico,
como um engenheiro triste,
como o mais gentil
dos dentistas.

Vai, poeta,/
escarafunchar a infância,/
inventar jabuticabeiras, aparições./
Vai bater na família,/
que nem te incomoda mais

Sermo humilis no refeitório

Jesus, eu vi seu filme
com minha avó, que te adorava.
Gosto muito da sua história,
sobretudo daquela parte dos peixes.
O final é mesmo uma tristeza,
essa coragem eu não tenho.
Seus pés imundos e melados de sangue,
minha vó apertando minha mão,
realmente um horror!
Jesus, eu nem sei por que comecei desse jeito.
O que eu quero te mostrar hoje,
se é que você já não está vendo,
é esse homem alegre de uniforme azul-marinho
no refeitório subterrâneo da biblioteca.
Nossos horários coincidem sempre
e acho que gostamos dessa mesa comprida
encostada na parede
onde uma tira de janela dá pro chão do jardim.
Jesus, você sabe que eu não rezo,
exceto em turbulências
ou se há alguma cantoria envolvida.
Mas acredita que ando tendo vontade?
É, com certeza estou com vontade,
mas apenas enquanto observo o homem de azul-marinho
com as mãos postas e os olhos fechados,
murmurando pra si mesmo
palavras de calma
antes de almoçar.

Jesus, você sabe que eu não rezo,/
exceto em turbulências/
ou se há alguma cantoria envolvida./
Mas acredita que ando tendo vontade?

Dezembro quase janeiro

Entre nós ficou tudo acabado
e desde então não houve sequer
uma tarde de amizade.
É quase certo que eu nunca mais
escute uma palavra sua.
Embora ocupemos os mesmos espaços
duas ou três vezes por ano
como fantasmas recíprocos.
O que guardei de você
fora as explosões mudas da memória
é essa caneca trazida de Istambul
num dezembro quente como este.
Não é nela que bebo água todo dia,
mas quando bebo, como faço hoje,
encontro um gosto diferente:
quieto, duradouro e azul.
Com ela te faço um brinde,
cruzando num gesto invisível
os nossos tempos.

É quase certo que eu nunca mais/
escute uma palavra sua./
Embora ocupemos os mesmos espaços/
duas ou três vezes por ano/
como fantasmas recíprocos

Produto

  • Vida Sortida
  • Bernardo Ceccantini
  • Editora 34
  • 112 páginas

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