Trecho de livro

A Vida de Julie

Emmanuel Carrère narra os vínculos que nascem da dor e do afeto na relação entre uma fotógrafa e uma jovem vulnerável, em ensaio para a revista Serrote

Leonardo Neiva 14 de Maio de 2026

O ano é 1993. O lugar: o hotel Ambassador, em San Francisco, um prédio de seis andares e 134 quartos até hoje usado em políticas públicas para abrigar indíviduos vivendo na extrema pobreza, em geral com problemas de saúde como o vício em drogas. O edifício, localizado num dos bairros mais pobres da cidade, também conta parte importante da história da epidemia de Aids, tendo servido de refúgio para inúmeras pessoas que contraíram o vírus HIV desde a década de 1980. É nos corredores do hotel que se dá o primeiro encontro entre Darcy Padilla, uma fotógrafa em início de carreira interessada em retratar as histórias dos vulneráveis residentes do Ambassador, e Julie, uma jovem de 19 anos que já então carrega consigo o vírus e a filha Rachel, de apenas nove dias de vida.

No ensaio “A Vida de Julie”, o escritor e roteirista francês Emmanuel Carrère narra como esse encontro, que poderia ter sido breve, trouxe impactos profundos tanto para Julie quanto Darcy ao longo das duas décadas seguintes. Publicado originalmente pela revista francesa 6Mois em 2021, o texto chega pela primeira vez ao Brasil no número 52 da Serrote, revista do Instituto Moreira Salles, com tradução de Mariana Delfini.

Ao contrário de algumas de suas obras mais autobiográficas, como “Ioga” (Alfaguara, 2023) e “Um Romance Russo” (idem, 2024) — leia um trecho deste último aqui —, Carrère se debruça sobre vidas alheias aparentemente opostas, mas que insistem em continuar se cruzando até o fim. Descrevendo de forma dolorosamente realista os sofrimentos de Julie, como o avanço do vício, a impossibilidade de criar os próprios filhos, o cotidiano miserável e a degradação física, o autor tece um relato que humaniza a existência de pessoas cuja sociedade se acostumou a diminuir e ocultar. E encontra beleza e lirismo inesperados num laço por vezes relutante, mas que ninguém se negaria a chamar de uma grande amizade.


Na altura da 6th Street, no nordeste de São Francisco, o bairro Tenderloin é um gueto sombrio, um mercado consumidor de crack, um foco de miséria e criminalidade — e, vejam vocês, dá até para encontrar gente fumando cigarro lá. A maioria dos hotéis trabalha em colaboração com a assistência social, que faz um depósito direto dos auxílios financeiros que os clientes recebem, para ter certeza de que os quartos serão pagos antes de eles saírem correndo para comprar mais drogas. No início dos anos 1990, no auge da epidemia da aids, esses hotéis também funcionavam como anexo dos hospitais sobrecarregados; instalavam-se ali os doentes pelos quais nada mais havia a fazer além de injeções diárias de morfina. Era o caso do Ambassador, que a jovem fotógrafa Darcy Padilla começou a frequentar em 1992, acompanhando a ronda de um médico para uma reportagem. Depois da publicação, ela voltou sozinha, para fotografar por um período mais longo algumas pessoas doentes com quem tinha feito amizade. Ainda hoje Darcy fala com emoção de Brian, a transexual cheia de orgulho de seus seios; de Diane, que não chegava a pesar 30 quilos; de Steven, para quem ela deu um livro de contos de Salinger e que tinha tanto medo de morrer sozinho que ela adoraria ter prometido estar ao lado dele quando chegasse a hora, mas sabia que nunca devemos prometer algo se não temos certeza de conseguir cumprir, e, ainda que ela passasse muitas horas por dia com Steven, lendo para ele e o alimentando com sorvete de creme — a única coisa que ele ainda conseguia comer —, Darcy não ficava o tempo todo com ele, que de fato morreu sozinho, certamente em meio ao terror e desespero, às três da manhã, enquanto ela dormia tranquilamente com seu namorado de então, a sete ou oito quarteirões de distância.

Todas essas pessoas que tinham 20 ou 30 anos na época hoje estão mortas, e não há ninguém para se lembrar delas, a não ser Darcy, que guarda em casa centenas de fotos de cada um

As histórias de Brian, Diane, Steven e de muitos outros são parecidas: famílias pobres e violentas, a primeira fuga de casa quando eram muito jovens, droga, prostituição, vida na rua, e então a doença que os surpreendia, transformava em um saco de ossos e escaras e arrastava para o buraco negro, num quarto sórdido do hotel Ambassador. Todas essas pessoas que tinham 20 ou 30 anos na época hoje estão mortas, e não há ninguém para se lembrar delas, a não ser Darcy, que guarda em casa centenas de fotos de cada um, em caixas com seus nomes. Essas cópias em preto e branco em que os vemos rindo, chorando, mostrando suas feridas, seus medos e suas misérias são o único vestígio que resta de sua passagem pela Terra. O livro que Darcy desejava fazer então, e que deveria se chamar Separate Lives, Different Worlds: Living Poor in Urban America, não se concentrava em um deles, era mais uma galeria de retratos, e, quando Darcy conheceu Julie, certamente não imaginava que passaria os 18 anos seguintes fazendo uma crônica da vida dela, até a morte.

Essas cópias em preto e branco em que os vemos rindo, chorando, mostrando suas feridas, seus medos e suas misérias são o único vestígio que resta de sua passagem pela Terra

Julie e Jack eram clientes do hotel Ambassador, mas se distinguiam dos outros porque, ainda que ambos vivessem com o vírus, não haviam desenvolvido a doença e tinham acabado de ter um filho. Ela tinha 19 anos, ele, 20, e Rachel, nove dias. Julie passava a maior parte do dia com Rachel no hall do hotel, onde se sentia melhor do que em seu quarto, infestado de pulgas. Ficava ali, sentada na poltrona perto da parede envidraçada que dava para a rua, com a braguilha da calça escancarada sobre a barriga ainda dilatada pela gravidez. Era desconfiada, rabugenta, se alguém lhe dirigisse a palavra ela mandava a pessoa se foder. Mas Darcy se ofereceu, gentilmente, para fotografá-la com a bebê, que ninguém tinha fotografado desde o nascimento, e ela ficou mais calma. Apesar de sua reticência em assinar qualquer tipo de papel, ela aceitou assinar o formulário que Darcy lhe entregou: ok para ser fotografada, ok para que as fotos eventualmente fossem publicadas. Logo Jack se juntou a elas, pegou Rachel no colo, interpretou o jovem pai enternecido, e o mais enternecedor era ver seu esforço e falta de jeito para esse papel. Eles estavam muito felizes, em suma, por serem fotografados como jovens pais. Era como se fossem pessoas normais, como se tivessem uma família. Nesse dia de janeiro de 1993, Darcy se tornou a família deles.

Quando Darcy conheceu Julie, certamente não imaginava que passaria os 18 anos seguintes fazendo uma crônica da vida dela, até a morte

Produto

  • A Vida de Julie, ensaio na revista Serrote #52
  • Emmanuel Carrère (trad. Mariana Delfini)
  • Instituto Moreira Salles
  • 24 páginas

Caso você compre algum livro usando links dentro de conteúdos da Gama, é provável que recebamos uma comissão. Isso ajuda a financiar nosso jornalismo.

Quer mais dicas como essas no seu email?

Inscreva-se nas nossas newsletters

  • Todas as newsletters
  • Semana
  • A mais lida
  • Nossas escolhas
  • Achamos que vale
  • Life hacks
  • Obrigada pelo interesse!

    Encaminhamos um e-mail de confirmação