Harry Potter envelheceu mal?

Com lançamento de trailer da nova adaptação da saga, campanha da autora J.K. Rowling contra pessoas trans e problemas de diversidade colocam em xeque legado da franquia

Leonardo Neiva 08 de Abril de 2026

Para quem, ainda criança ou adolescente, passou anos ansioso pelo lançamento de um dos aguardados livros da saga, a realidade atual da franquia Harry Potter pode soar um tanto confusa. O trailer da nova série baseada na obra de J.K. Rowling, lançado há duas semanas, rapidamente bateu o recorde de mais visto da história da HBO. A expectativa é que o projeto, com lançamento previsto para 25 de dezembro, logo se torne o produto mais rentável e relevante do streaming, com cada temporada adaptando um livro da saga.

Mas nem a fofura dos atores que assumiram os papéis de Harry, Rony e Hermione, apresentados num especial com bastidores das gravações, conseguiu abafar o lado nada mágico dessa história. No ano que deveria ficar marcado pela expectativa em torno da nova superprodução sobre o bruxo, também ressurgem polêmicas em torno da saga: além da campanha da autora J.K. Rowling contra pessoas trans, questões de representatividade colocam em xeque o legado da série prestes a completar 30 anos.

Alvo de críticas há anos por conta de falas transfóbicas, Rowling vem financiando grupos políticos e ações judiciais para restringir os direitos da comunidade trans no Reino Unido. Então, comprar qualquer obra sua ou mesmo dar play na série também pode ser visto como uma contribuição à cruzada preconceituosa empreendida pela autora.

Por conta de suas atitudes sobre o tema, o trio de atores da série de filmes originais (lançada com “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, em 2001) teceu uma série de críticas e rompeu com Rowling, se afastando dela ao longo do tempo. O que acabou se mostrando uma via de mão dupla. Em uma série de tweets antigos, a autora chegou a dizer que não perdoaria Daniel Radcliffe e Emma Watson pelos comentários contrários a ela.

A série já foi alvo de críticas pela falta de diversidade dos personagens centrais, com personagens negros e asiáticos surgindo apenas em papéis secundários

Não à toa, assim que o trailer da nova série foi ao ar, logo se instalou nas redes um debate acirrado entre usuários que defendem boicotar a produção e outros mais nostálgicos, que pretendem assistir à série. Na verdade, entra naquela discussão conhecida sobre separar autor e obra, mas com consequências reais para uma comunidade já marginalizada e vítima de diversas violências.

“Eu sei que isso é controverso e que, neste momento, não deveríamos estar colocando dinheiro em legislações desumanas por meio daquela-que-não-deve-ser-nomeada, mas a essência dos temas desses filmes, das crianças, dos artistas e das pessoas do ofício… não dá para jogar tudo fora por causa disso. Há tantos artistas incríveis que trabalharam nesses filmes”, declarou recentemente o ator Andrew Garfield, após assistir pela primeira vez aos filmes da saga, em entrevista à rádio britânica Hits Radio.

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A magia da exclusão

A franquia também já foi alvo de críticas pela falta de diversidade. E o fato de a nova série da HBO trazer um elenco mais diverso, com um Snape negro interpretado pelo ator Paapa Essiedu, joga ainda mais luz sobre um fator importante: grande parte dos personagens originais são brancos — ou sem raça definida, mas embranquecidos pela primeira adaptação cinematográfica. Os raros exemplos de outras etnias acabaram ficando com personagens secundários ou sendo apresentados de forma caricata e pouco aprofundada. Para muitos, é o caso da asiática Cho Chang, interesse amoroso de Harry na saga.

Mas a principal questão que ressurge agora é se acompanhar a adaptação da HBO significa ajudar a financiar os ataques sociais e políticos de Rowling contra pessoas trans

Ao longo do tempo, Rowling chegou a fazer anúncios retroativos sobre a etnia e até a sexualidade de personagens como o bruxo Dumbledore, que ela afirmou ser homossexual somente após a publicação do último livro da saga — um fato que, portanto, não foi mencionado na história original, apenas posteriormente Em certo momento, até mesmo a caracterização dos duendes do banco Gringotes foi acusada pelo humorista Jon Stewart de ser antissemita, por supostamente fazer referência a caricaturas racistas de judeus.

Por outro lado, alterações de etnia em adaptações da saga nem sempre foram bem recebidas pelos fãs mais radicais. Paapa Essiedu, ator do novo Snape, contou ter recebido ameaças de morte pelo papel. Já a atriz Noma Dumezweni, que interpretou uma Hermione negra em sua versão adulta no musical “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada”, foi alvo de ataques racistas na época da estreia da peça, em 2016.

Mas a principal questão que deve permanecer é se acompanhar fielmente a nova adaptação da HBO significa ajudar a financiar os ataques sociais e políticos de Rowling contra pessoas trans. Neste caso, tem como separar autor e obra? E será que a nostalgia é justificativa suficiente?

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