Eva Roefs

CV: Carolina Bianchi

Premiada com o Leão de Prata em Veneza, a diretora, escritora e performer gaúcha retorna ao Festival de Avignon com uma trilogia de 10 horas que aborda violência, sexualidade e os limites da linguagem e explica por que sua arte não busca cura, mas desestabilização

Dolores Orosco 30 de Junho de 2026

Há três anos, a escritora, diretora e performer gaúcha Carolina Bianchi, 42, e sua companhia teatral Cara de Cavalo, estreavam no ginásio Lycée Aubanel, dentro da programação do Festival de Avignon, o espetáculo “A Noiva e o Boa Noite Cinderela”, primeiro capítulo da trilogia “Cadela Força”. No próximo dia 4 de julho, a artista volta ao sul da França, para encenar a última parte da obra, “Uma Luz Cordial”. Mas dessa vez, Carolina e sua trupe ocuparão o palco principal do evento, o Opéra Grand Avignon, e levando um prêmio na bagagem: o Leão de Prata da Bienal de Veneza.

Nos dois dias que precedem a exibição, o grupo brasileiro terá uma missão e tanto: apresentar pela primeira vez a trilogia completa, que tem como recheio a peça “The Brotherhood” (2025). Ao todo, serão dez horas de espetáculo que discute como a arte, em suas múltiplas formas, é capaz (ou não) de dar conta de temas dolorosos como o estupro, o pacto da masculinidade e como as mulheres sobrevivem ao trauma. Carolina — ela mesma vítima de um abuso no passado — consome em cena uma combinação de tranquilizantes que a deixa desacordada durante parte de “A Noiva e o Boa Noite Cinderela”, num dos momentos mais arrebatadores de sua obra até aqui.

Criada em Porto Alegre, filha de uma psicóloga que a aproximou desde cedo dos livros, do cinema e do teatro, ela começou a escrever ainda criança, inventando histórias que já revelavam um imaginário inquieto. Aos 19, mudou-se para São Paulo para estudar na Escola de Artes Dramáticas da USP, onde encontrou uma cena artística que ajudaria a moldar sua linguagem — da experiência transformadora de assistir a “Os Sertões”, no Teatro Oficina, às parcerias cruciais de sua trajetória.

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Durante a pandemia, quando sua companhia teve que interromper as atividades, a diretora deixou o Brasil para cursar um mestrado no DAS Theatre, em Amsterdã. Foi nesse período de isolamento, pesquisa e incertezas que começaram os estudos para “Cadela Força”.

Para Carolina, a trilogia nunca teve a intenção de oferecer respostas ou trazer uma moral de superação. “As mulheres que carregam esse trauma terão que lidar com ele pelo resto da vida e isso vai sofrer transformações o tempo inteiro. Não tem como dizer ‘isso está concluído’ porque nunca vai estar. Nem a sua sexualidade, nem o que você considera o que são seus desejos”, diz.

The Brotherhood - Trilogia Cadela Força - Capítulo II
The Brotherhood – Trilogia Cadela Força – Capítulo II
Mayra Azzi

Sua obra nasce justamente desse lugar instável: o de não tentar resolver a dor, mas investigar como ela afeta histórias, corpos e formas de narrar. Carolina questiona também a expectativa colocada sobre artistas femininas que transformam experiências violentas em criação – e rejeita a ideia de uma arte como forma de cura ou missão. Para a diretora, o papel de seu ofício está menos em explicar e mais em desestabilizar.

Em entrevista à Gama, Carolina fala sobre criação, os desafios de ser mulher na direção teatral, a relação entre escrita e palco e os caminhos que a tornaram uma das vozes mais provocadoras do teatro contemporâneo.

A arte deve desestabilizar ainda mais o mundo e levá-lo para o desconhecido. Isso sim pode transformar alguma coisa

  • G |Você considera ter uma missão em sua carreira?

    Carolina Bianchi |

    Não me vejo nesse papel missionário. Defendo que a vida do artista é a da incoerência, porque a gente vai se transformando ao longo dos anos, vai perdendo muita coisa e trabalhando com as próprias misérias. Talvez eu pudesse dizer que, hoje, a minha tarefa é escrever. Todo dia acordo às 6h para escrever e sinto que é isso o que devo fazer cada vez mais. Essa é minha onda. Mas não acredito nessa coisa de fazer arte para mudar o mundo. O artista não tem essa responsabilidade. A arte deve desestabilizar ainda mais o mundo e levá-lo para o desconhecido. Isso sim pode transformar alguma coisa.

  • G |De onde vem seu interesse pela arte?

    CB |

    Meu pai é músico, mas não sei o quanto isso me influenciou. Meus pais se separaram muito cedo e eu morava com a minha mãe, que é psicóloga. Ela sempre foi uma mulher interessada em tudo e me levava ao teatro, ao cinema, me dava livros. Éramos nós duas vivendo em Porto Alegre e uma parte da família, mais distante, na Serra Gaúcha. Nessa solidão de ser filha única, comecei a escrever muito cedo e eram histórias pesadas. Minha mãe era chamada na escola por conta das personagem que eu criava. Os professores queriam entender porque eu escrevia sobre uma mulher sem cabeça, de onde vinha aquilo. Mas minha mãe foi sensível, entendia que minha imaginação não era algo problemático. Comecei a estudar teatro num tempo muito bacana, em que a cidade tinha uma prefeitura de esquerda nos anos 1990. Lembro de ter vivido intensamente o Fórum Social Mundial (2001), de ter visto companhias de teatro internacionais no “Porto Alegre em Cena”. Mudei para São Paulo aos 19 e me emociono ao ponto de chorar toda vez que lembro da primeira vez que fui ao Teatro Oficina. Fui assistir a “Os Sertões” e não consigo nem descrever o impacto que aquele espetáculo teve em mim até hoje. Ter chegado em São Paulo no começo dos anos 2000 foi determinante. Conheci Zé Celso, Grace Passô, Georgette Fadel, Carolina Mendonça e pessoas daquele tempo que até hoje estão comigo na Cara de Cavalo.

  • G |Você teve um mentor ou mentora que influenciou sua linguagem teatral?

    CB |

    Não, mas diria que tive grandes parcerias. Gente com quem compartilhei o prazer de investigar teatro, de não necessariamente estar fazendo a mesma peça, mas de se acompanhar. Sempre tive tesão em trabalhar no coletivo, em grupos grandes. Foi assim que passei a me reconhecer mais como autora e diretora e menos como atriz. Ainda hoje estou em cena nos meus trabalhos, mas me considero bem menos atriz. A escrita, a direção e a linguagem vêm na frente. Meus primeiros espetáculos, como o “Mata-me de Prazer” (2015), já trazem um pouco dessa minha linguagem da palestra-performance sobre sexualidade. Já era um fio que estava sendo tecido ali. Depois veio “LOBO” (2019), que tem esses mesmos ecos. Também tive grandes inspirações para além do teatro. A primeira vez que li Clarice Lispector, Hilda Hilst, Marguerite Duras e Emily Dickinson fiquei maluca.

  • G |No meio da pandemia você deixou o Brasil para fazer um mestrado em Amsterdã. Foi um momento desafiador?

    CB |

    Quando a pandemia começou, minha companhia tinha acabado de estrear “O Tremor Magnífico” no Teatro de Contêiner, em São Paulo. Fizemos um único final de semana de apresentações e tivemos que parar. Foi nesse momento que percebi que todas as coisas do meu cotidiano dependiam da presença, da investigação corporal e do toque. Por outro lado, com esse tempo livre sem o teatro, passei a estudar ainda mais e foi assim que o “Cadela Força” começou a ganhar forma. Fui aprovada para cursar o mestrado em Amsterdã, mas não tinha nenhum dinheiro guardado para ir. Meu grupo já estava chegando ao limite sem poder se apresentar, sem conseguir um edital. Meus amigos fizeram uma vaquinha para a compra da passagem e fui com a cara e a coragem para a Holanda. Lá, passei a procurar todo tipo de trabalho para me manter. Trabalhei em restaurantes, limpei casas, fiz de tudo. Mas não gosto de ficar falando sobre isso, porque tem essa romantização do artista que teve uma vida difícil e de repente está em turnê pela Europa. Esse tipo de história me enfada, porque as coisas não foram assim. Não diria que esse foi o momento mais desafiador da minha carreira, porque houve muitos deles. Na minha vida sempre trabalhei e ainda trabalho muito para pagar as contas.

The Bride and the Goodnight Cinderella - Trilogia Cadela Força  - Capítulo I
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Christophe Raynaud
  • G |A violência sexual muitas vezes acaba definindo toda a vida da vítima dessa tragédia. Isso, de certa forma, também pode acontecer com as mulheres artistas que levam esse trauma para sua obra?

    Carolina Bianchi |

    Totalmente. É muito fácil considerar artistas e escritoras que tratam a violência de gênero em seus trabalhos como criadoras que só produzem autobiograficamente. A obra muitas vezes é eclipsada porque existiu uma violência sexual, como se fosse o fato propulsor da vivência de uma mulher. Se você sofreu um estupro e faz um espetáculo sobre isso, você para sempre irá fazer coisas que estão ligadas a esse tema, ao patriarcado e ao feminismo? Não acredito nisso. “Cadela Força” fala de tantas coisas. A trilogia traz sim histórias de violência sexual, mas o fato de eu estar fazendo esse trabalho não está me curando de nada. A minha figura no palco e o que minha companhia faz nesses três espetáculos é complexificar coisas que são incômodas. As mulheres que carregam esse trauma terão que lidar com ele pelo resto da vida e isso vai sofrer transformações o tempo inteiro. Não tem como dizer “isso está concluído” porque nunca vai estar. Nem a sua sexualidade, nem o que você considera o que são seus desejos. O golpe do “boa noite, Cinderela”, por si só, já produz uma incoerência na vítima. É uma parte da vida que você não tem memória, que dificilmente você consegue alcançar. Isso provoca um distúrbio de narrativa: você precisa encontrar outras formas de narrar e, para mim, isso foi muito interessante como autora. O que é um processo de escrita que exige do autor uma honestidade para narrar algo do qual não se tem memória? Como uma narradora que viveu uma dor tão profunda vai trazer alguma grande solução? A trilogia não traz solução, nem cura de nada. Escrever por si só é um processo violento, no sentido de que algo vai te levar para um lugar que você não sabe onde vai dar. Isso não passa por respostas, nem pela cura de traumas. Meu trabalho vai muito mais nessas linhas das contradições, das coisas que são difíceis de reduzir a uma palavra ou duas. Por isso a trilogia tem dez horas de duração.

  • G |Você já passou por situações de machismo por ser mulher na direção teatral?

    CB |

    Muitas. Minha formação teve diversos atravessamentos de misoginia. Não à toa, “The Brotherhood” msotra o meio teatral como um lugar onde pode ter muita violência. Se eu contar aqui qualquer um dos episódios violentos que eu sofri, vou jogar luz em coisas que eu prefiro levar para um espetáculo. Mas já sofri muita coisa sim, de sentir que não estava sendo ouvida, que estava sendo desacreditada. Lembro que quando comecei a dirigir e assinar meu nome como diretora, alguns professores e gente do contexto que eu frequentava não iam assistir meus trabalhos, como se fossem menos importantes. Achavam uma tremenda bobagem eu querer ser diretora. “Como assim, essa menina está escrevendo e dirigindo?”. Já aconteceu de depois de espetáculos meus que tinham nudez, eu começar a receber mensagens sobre o meu corpo.

  • G |Você já pensou em desistir? O que te fez mudar de ideia?

    CB |

    Já tive momentos muito duros. De parar para pensar: será que eu estou viajando com essa história de teatro? Mas sendo bem honesta, pensar em desistir do teatro, para mim, seria desistir da vida. Desde que eu existo, a arte sempre foi a maneira de me manifestar, de tentar entender as coisas, de expressar o que eu vejo do mundo.

  • G |“Cadela Força” tem previsão de estreia no Brasil?

    CB |

    Não. Depois de Avignon, teremos uma temporada de “Uma Luz Cordial” e da trilogia em setembro e outubro no Teatro do Odéon, de Paris, e em 2027 passaremos por todos os [festivais e teatros] apoiadores do capitulo três. Mas estou colocando muito axé para que seja possível a gente se apresentar no Brasil em 2028.

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