Foto: Filme d'agua

Flavia Aranha: “Gostava de moda, mas não de como era feita”

Estilista e empreendedora consolidou seu nome no mercado brasileiro fazendo moda à sua maneira, em uma escala pequena, mas não pouco ambiciosa

Fredy Alexandrakis 11 de Agosto de 2026

Quase 17 anos após fundar sua própria grife de moda comprometida com a sustentabilidade e a justiça social, Flavia Aranha hoje vem tentando se reconectar com a esperança que sentia no início da sua jornada. “Já fui mais otimista”, confessa. Em conversa com a Gama, a estilista fez um balanço honesto do saldo do movimento slow fashion, do qual fez parte ao final dos anos 2000. “A maioria dos negócios [de moda sustentável] fechou, quebrou, ou teve que se reinventar.”

A história de origem da marca já é bem conhecida: em 2007, Aranha trabalhava em uma empresa de jeanswear quando viajou à China e à Índia para visitar fornecedores. O contato em primeira mão com a precariedade das condições de trabalho e a poluição gerada pelas fábricas com as quais fazia negócio foi o pontapé para uma mudança radical. Ao voltar ao Brasil, pediu demissão, e passou a repensar a cadeia produtiva da moda, do começo ao fim. Fez novas viagens para criar vínculos com fornecedores artesanais de diferentes regiões do país e foi experimentando com biomateriais e processos naturais de tingimento. Sua primeira coleção foi feita em parceria com fiadeiras tradicionais de Pirenópolis (GO).

Foto: Filme d’agua

À época, estilistas slow fashion se rebelavam contra as crueldades de um setor que oferecia roupas a preços muito baixos, em detrimento da natureza, da saúde dos trabalhadores e da qualidade do produto. Com coleções que marcaram a São Paulo Fashion Week e a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Aranha consolidou seu nome no mercado brasileiro fazendo moda à sua maneira, em uma escala menor, mas não menos ambiciosa. Sua loja em Paraty, onde hoje mora, reflete essa filosofia: parte loja, parte espaço de oficinas de produção têxtil, com um chão de areia integrado ao ambiente natural.

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Com o passar dos anos, no entanto, o idealismo deu lugar a uma certa desilusão: em meio ao greenwashing de empresas que só eram ecológicas no discurso, consumidores também foram perdendo a vontade de pagar caro por um produto feito de forma mais ética, considera a estilista. “Temos um sistema capitalista que por base já é injusto […] Existe sempre essa tensão entre o que você quer fazer e o que você consegue fazer”, afirma. O filho de três anos é o que hoje inspira um resgate da esperança e a reconexão com seus valores. Em entrevista à Gama, a empreendedora discute o desejo e as dificuldades de tentar fazer moda de uma forma diferente.

Tento trilhar caminhos alternativos, mais positivos, com a ideia de tecer uma conexão da cadeia de produção inteira: quem planta, costura, produz, veste

  • G |Qual é a sua missão com a sua profissão?

    Flavia Aranha |

    A gente tem uma missão que chama “tecer ecossistemas regenerativos que conectam ancestralidade e inovação para o bem viver”. Então, é meio complexo [risos]. São 16 anos da marca Flavia Aranha, e a missão vai mudando ao longo da vida. Quando eu comecei, eu tinha essa vontade de regenerar o sistema da moda. Eu gostava de moda, mas não gostava de como a moda era feita. Fui tentando trilhar caminhos alternativos, mais positivos, com essa ideia de tecer uma conexão da cadeia de produção inteira: quem planta, quem costura, quem produz, quem veste. A gente fala muito de teia — faz parte da marca o arquétipo da Aranha, de tecer esse ecossistema que vai desde a terra até a pele, passando por agricultores, artesãs, costureiras; pela parte de pesquisa, química, inovação, poética, discurso, imagem e do tipo de corpo que a gente quer vestir.

  • G |O que te moveu a trilhar esse caminho?

    FA |

    O que me moveu foi vivenciar o radicalmente oposto. Eu era bem jovem e trabalhava numa empresa de jeans. Fui crescendo lá dentro, conhecendo o sistema, a indústria. A gota d’água foi quando eu fui à China e à Índia a trabalho. Era 2007, faz muito tempo, e acho que é importante fazer essa ressalva, porque hoje a China já mudou muito. Mas, em 2007, eu vi crianças e idosos trabalhando, lugares completamente sujos, fábricas que despejavam em rios toda aquela química. Em 2013, aconteceu o desabamento de um prédio chamado Rana Plaza, em Bangladesh, que matou milhares de costureiros e mostrou essa decadência do fast fashion. Isso inspirou um movimento chamado Fashion Revolution e um documentário sobre a indústria que ficou bem famoso, chamado “The True Cost”. Nos anos 2000, o fast fashion começou a existir como a gente conhece ele hoje, com essa estrutura para fazer roupa barata — mas às custas de quem? Eu vi isso com meus próprios olhos e fiquei bem deprimida. Na minha empresa, eu tinha a meta de conseguir negociar [a produção de] uma camiseta polo por US$ 2,90, e eu nunca vou esquecer: bati a meta com a única fábrica que não fui visitar, porque não queria fechar negócio com nenhuma fábrica que visitei. Provavelmente era igual, eu só não vi. No fim, meu fornecedor do Brasil, que fazia tudo direitinho, quebrou, porque eu parei de comprar dele para comprar desse fornecedor em Jakarta. Foi aí que falei: “Quem sou eu? O que eu estou fazendo da vida? Isso não faz sentido com quem eu sou, com o que eu quero”. E isso não tem a ver com uma marca específica, o mundo todo operava dessa forma.

  • G |Foi aí que decidiu fundar sua própria marca?

    FA |

    Na Índia, eu conheci um grupo de mulheres que fazia tingimento natural, e eu fiquei muito curiosa para saber se isso era feito no Brasil. Então, quando voltei, pedi demissão e fui viajar. Minha primeira viagem foi para Pirenópolis, no Goiás, onde conheci fiandeiras que tinham essa tradição de tingir naturalmente, passada de geração para geração. Elas plantavam o próprio algodão, colhiam, descaroçavam, cardavam, fiavam, teciam, tingiam e faziam uma roupa — todas as etapas. Minha primeira coleção foi com elas, tentando buscar uma realidade oposta à que eu estava vivendo, que sustentava (e ainda sustenta) muito da indústria da moda.

O maior problema é essa lógica, que opera em todos os lugares, de uma produção que tem que crescer sempre, fabricar mais, produzir mais, consumir mais

  • G |Quais são os principais desafios da sua área, e como lidar com eles?

    FA |

    Sei que é clichê, mas a cada ano que passa, eu acho que fica mais evidente que o desafio é o capitalismo, né? Como você acha rotas de fuga ou brechas nesse sistema? Você pode se propor a fazer uma cadeia produtiva justa, mas o que é justo dentro do capitalismo? Minhas costureiras ainda não têm acesso à roupa da Flavia Aranha, então será que cumpri minha missão? Acho que não. Temos um sistema capitalista que por base já é injusto, e é difícil manter um negócio sem entrar em algumas das regras do capitalismo. Existe sempre essa tensão entre o que você quer fazer e o que você consegue fazer. No mercado de moda, aconteceu um esvaziamento dessas ideias que estavam vingando mais quando eu comecei, de tentar fazer uma roupa melhor, com uma cadeia produtiva mais justa. O consumidor estava a fim de entrar nesse pacto, com aquela história de “consumir é um ato político”, e isso foi se desgastando. Junto com iniciativas mais positivas também sempre vem um greenwashing muito pesado [empresas com uma falsa imagem ecológica]. No fim, fica difícil determinar o que é real, e o próprio consumidor começou a se questionar se vale a pena tentar fazer um consumo mais ético. Em especial, nessa geração mais jovem, existe esse sentimento de pessimismo. Honestamente, da minha geração, desse movimento que a gente chamava de slow fashion ou moda sustentável — não só no Brasil, mas também fora —, eu vejo que a maioria dos negócios fechou, quebrou, ou teve que se reinventar.

  • G |Por que isso aconteceu?

    FA |

    No fim das contas, você está competindo com o mercado. Às vezes, as pessoas são engajadas com a sua pauta, mas não gostam do seu estilo. Ou gostam, mas não têm condições financeiras para acessar esse produto. Essa equação é bem complexa. Eu mesma levantei uma bandeira, mas quando vi que o mercado estava se apropriando disso para fazer mais do mesmo, também quis recuar um pouco. Mas houve avanços: a China hoje já não é mais como era, tem cidades verdes, com soluções muito modernas, uma mudança drástica. Mas ainda com base em uma produção que tem que crescer sempre, fabricar mais, produzir mais, consumir mais. O maior problema é essa lógica, que opera em todos os lugares, não só na moda.

Foto: Filme d’agua
  • G |Você se considera otimista?

    FA |

    Olha, já fui mais otimista, e acho que estou num processo profundo de me reconectar com esse otimismo e me recomprometer. Um ano atrás, estava muito pessimista. Mas eu tenho um filho de três anos, e a maternidade também me faz querer resgatar a minha fé, meu otimismo.

  • G |Você precisou abrir mão de alguma coisa para chegar onde você chegou?

    FA |

    Ah, de muitas coisas. Toda vez que você dá espaço para uma coisa com tanta intensidade, você tem menos espaço para as outras coisas. Pessoalmente, abri mão de tempo, de um cuidado pessoal. A gente fala muito do cuidado com a cadeia produtiva, mas e o meu próprio cuidado, minhas relações com a minha família, meu bem-estar? Lá atrás, eu fiquei muito workaholic. Se você tem um negócio pequeno, não tem toda a estrutura de uma grande empresa e precisa trabalhar muito mais para se manter. Então, quando eu comecei a [marca] Flavia Aranha, eu desacelerei [em relação ao fast fashion], mas você acaba acelerando de novo. Eu abri mão de coisas importantes que hoje já não abro mais. A maternidade me transformou, então hoje moro aqui em Paraty, no meio da floresta, e desacelerei de novo.

Para qualquer caminho que envolve fazer algo (não gosto dessa palavra) disruptivo, é preciso muita paixão e fé, porque é muito difícil

  • G |O que você diria para alguém que pensa em trilhar um caminho parecido com o seu?

    FA |

    Não vá — brincadeira [risos]. Qualquer caminho que envolve empreender ou querer fazer algo (não gosto dessa palavra) disruptivo, quando você precisa desbravar um novo caminho, é preciso muita paixão e fé, porque é muito difícil. Se você acredita muito nisso e seu olho brilha, então vai. Vai ser difícil, mas vai, porque a gente vai achando o nosso caminho por aí. Você pode ler mil livros, mas no fim você só aprende com a sua própria trajetória.

  • G |E no caso de alguém que também pensa em fazer uma moda mais sustentável, comprometida com causas socioambientais?

    FA |

    A primeira coisa é conhecer o que existe, criar relações positivas com as pessoas que compõem essa cadeia, porque, claro, você não faz nada sozinho. Quem são os seus fornecedores? Quem são as pessoas que estão na base do seu projeto? Para cada um, a relação funciona de uma forma. É importante criar esses vínculos e conseguir estruturar bem essa cadeia. E também se planejar financeiramente para empreender, porque a cadeia produtiva da moda exige um capital de giro muito maior do que, por exemplo, uma empresa que presta serviços. Imagina: a gente compra uma pluma de algodão lá na Paraíba, daí manda fazer o fio, manda fazer o tecido. Quando essa roupa chega na loja, já faz um ano que estou pagando por esse produto. Geralmente, quem tem a paixão, o sonho, não tem essas habilidades de gestão. Eu, por exemplo, saí fazendo, depois fui vendo o que acontecia [risos]. Se fosse começar de novo, acho que gastaria mais tempo no planejamento.

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