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CV: Luiz Augusto Campos

À frente do DARA, novo núcleo de pesquisa sobre racismo e antirracismo, o sociólogo e professor estuda como o preconceito racial produz desigualdades

Leonardo Neiva 28 de Julho de 2026

Em junho deste ano, surgiu o DARA: Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo, um novo núcleo de pesquisa ligado ao Iesp-Uerj (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), cuja meta é preencher as lacunas que ainda existem nos estudos sobre o racismo e o antirracismo no Brasil. Criador e coordenador da iniciativa, o professor de sociologia e ciência política da universidade, Luiz Augusto Campos, conta que a proposta nasceu com um diagnóstico, traçado após anos atuando na área das ciências sociais: ainda faltam pesquisas que estudem as maneiras como o racismo produz desigualdades no país.

“Tem uma diferença importante entre medir a desigualdade racial e conectá-la ao seu mecanismo causal, o racismo”, afirma Campos. O projeto — que conta com uma equipe de mais de dez pesquisadores, majoritariamente negros e formados em temas diversos — deve se aprofundar nessa lacuna. Doutor em sociologia, Campos também coordenou ao longo de 15 anos o Gemaa (Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa), núcleo do Iesp que investiga a representação de raça e gênero na educação, na mídia, na política e em outras esferas da vida social.

Quando adolescente, o sociólogo nunca havia pensado em trabalhar na área. “Acho que ninguém tem o sonho de infância de ser cientista social”, avalia. Em vez disso, considera que as habilidades que hoje contribuem para sua atuação profissional chegaram de forma um tanto acidentada. Ainda no ensino médio, tendo acumulado notas boas para o colégio público em que estudava, “mas péssimas para qualquer colégio privado”, ele acabou tomando uma decisão racional.

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“Pensei no curso mais promissor que eu conseguisse passar, e aí eu escolhi engenharia florestal”, conta. Mas, no fim, talvez a escolha não fosse tão racional assim: “Eu odiava química, física, sempre fui das humanas. E aí, em uma certa crise, comecei a buscar alternativas.” Após um período de um ano buscando outros cursos, ele finalmente entrou em contato com a ciência política e acabou se deixando seduzir. Ao assistir a uma aula do curso, sua visão mudou de vez: não queria ser cientista político, mas sim professor universitário na área.

Hoje, Campos está há mais de uma década lecionando na Uerj. Com foco na relações entre democracia e as desigualdades raciais e de gênero, é coautor de livros como “Ação afirmativa: Conceito, história e debates” (Eduerj, 2018), “Raça e Eleições no Brasil” (Zouk, 2020) e “O Impacto das Cotas: Duas décadas de ação afirmativa no ensino superior brasileiro” (Autêntica, 2025).

Para ele, o Brasil hoje vive uma grande contradição na sua pesquisa sobre raça. Ao mesmo tempo em que é um dos países com maior produção de dados a respeito do assunto no mundo, o acesso a essas informações tem sido constantemente negado desde a aprovação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). “Muitas vezes, quando a gente consegue acessar uma base de dados, está vetada a variável raça/cor. É um Estado que produz muitos dados, mas não os meios para analisá-los”, declara.

Na entrevista com Gama, Campos também afirma que o exercício da profissão na sala de aula e na pesquisa são capazes de mudar suas visões constantemente — e que essa é uma das principais virtudes das ciências sociais. Também aconselha os jovens que hoje entram na área a não chegarem com certezas tão consolidadas. Em vez disso, o ideal é abrir espaço para a curiosidade. Leia a conversa a seguir.

  • G |De onde veio a ideia para o núcleo Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo (DARA)? Quais os objetivos do projeto?

    Luiz Augusto Campos |

    Eu coordenei durante mais de dez anos o Gemaa, e grande parte do que a gente fez buscava mensurar desigualdades raciais e a evolução das ações afirmativas. Mas já tem alguns anos que eu nutro um diagnóstico: de um lado, o Brasil tem uma sociologia das desigualdades raciais muito produtiva. Mas o mesmo não pode ser dito sobre a sociologia do racismo. Tem uma diferença importante entre medir a desigualdade racial e conectá-la ao seu mecanismo causal. A ideia do DARA é levar a reflexão sociológica sobre raça na direção de melhor entender a forma como o racismo funciona enquanto mecanismo de produção de desigualdade.

  • G |Qual a importância dessas informações no combate às desigualdades?

    LAC |

    Provavelmente o Brasil é o país que produz mais dados raciais. Desde o primeiro censo, em 1872, tem uma variável raça/cor em quase todos os censos. Mas hoje há um paradoxo gerado por uma má interpretação da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais), que impactou muito a pesquisa. Quando pensamos numa sociologia do racismo e nos seus mecanismos causais, é necessária uma integração das bases de dados. E isso, no Brasil, virou um tormento, porque tem uma via-crúcis burocrática muito grande para acessá-las. O paradoxo é que o país é um dos maiores produtores de dados racializados do mundo, mas o acesso a esses dados ficou muito mais difícil, porque a LGPD diz que raça e cor são dados ‘sensíveis’. Até hoje a gente não sabe o que isso quer dizer, mas o termo serve de base para que gestores e burocratas neguem o acesso a essa variável. Então, muitas vezes, quando a gente consegue acessar uma base de dados, está vetada a variável raça/cor. É um Estado que produz muitos dados, mas não os meios para analisá-los.

  • G |Quais são os outros desafios de atuar com temas de relações raciais no Brasil?

    LAC |

    As dificuldades são inúmeras, bem maiores do que as facilidades. Além do acesso, existe um problema de processamento desses dados e também para trabalhar com dados identificados. Por exemplo, para acompanhar a trajetória de uma pessoa por uma ou duas décadas, você precisa saber quem ela é. Mas a LGPD faz uma interpretação proibitiva disso, sugerindo que o CPF, por exemplo, é um dado secreto, quando qualquer estabelecimento comercial de esquina tem acesso a essa informação. Tem também um enrijecimento dos conselhos de ética, encarregados de monitorar as pesquisas. É óbvio que esse controle é necessário, mas no mundo todo, eles tendem a liberar pesquisas não delicadas. Você só passa pelo conselho quando faz uma pesquisa diretamente com seres humanos, crianças ou pessoas que estão detidas, por exemplo. No Brasil, o entendimento é que tudo tem que passar pela análise. E, quando o tema é raça, os conselhos, com medo, tendem a dizer não. A academia no Brasil também vive uma fase muito difícil de perseguição e subfinanciamento. O tema da raça já foi mais central. Hoje, há um clima não muito explícito de que ações afirmativas já são um fato e que raça é um tema de nicho. Então, dão mais atenção a temas como desenvolvimento, mercado de trabalho, economia, etc. Quando, na verdade, raça e gênero são dimensões desses grandes temas. Não tem como entender os problemas do mercado de trabalho brasileiro sem entender que pessoas negras sofrem discriminação nesse mercado e são colocadas em condições de subalternidade.

  • G |Você enfrentou ou ainda enfrenta racismo no ambiente profissional? Como lida com isso?

    LAC |

    Quem disser que não ou está mentindo ou com um problema de percepção. A academia é um cenário hegemonicamente branco. As ciências sociais são uma das áreas comparativamente mais diversas, e ainda assim, têm 80% ou 90% de pessoas brancas. São universos de competição, que tendem a se orientar por visões muito estritas e simplificadas de mérito. Então, sempre há mecanismos de racismo operando. Ao mesmo tempo, as ciências sociais têm muita competência em velar isso. Porque a ciência social brasileira, majoritariamente branca, é também a que tinha raça como tema fundamental. Não à toa, grande parte dos expoentes de pesquisas raciais no Brasil são brancos. Quando uma primeira geração de pesquisadores pretos e pardos chega à universidade, você tem esses mecanismos velados operando de modo ainda mais forte. Não existia na minha época cota para professor universitário, por exemplo. Hoje existe, mas uma das expressões do racismo é como essas cotas funcionam mal. Então, a universidade é um espaço bastante discriminatório. Por outro lado, é talvez o espaço da sociedade brasileira que mais tem feito avanços. A gente tem uma universidade que, até 20 anos atrás, era hegemonicamente branca e hoje é uma universidade muito mais negra. É uma área cheia de paradoxos.

  • G |Quais os seus maiores aprendizados nesses anos como professor e pesquisador de sociologia e ciência política?

    LAC |

    A pesquisa me atraiu porque significa acordar com uma dúvida e sair tentando responder. Pode soar cafona, mas acho isso muito bonito. Então, tanto a sala de aula quanto a pesquisa me modificam a cada dia. Eu costumo dizer que, cinco minutos antes de toda aula, acho que não me preparei direito, que alguém vai fazer uma pergunta que eu não sei responder. E sempre digo que toda boa pesquisa é orientada por dúvidas sinceras. O objetivo é descobrir alguma coisa. Essa descoberta é prazerosa e te modifica muito. Embora existam pessoas fazendo pesquisas similares, só você fez com aquelas pessoas, daquele jeito. Então, minha profissão me modifica cotidianamente, e esse é o espírito dela. Eu não acredito em pesquisa que só confirma uma hipótese. Você sempre descobre alguma coisa e modifica um pouco suas ideias.

  • G |Considera essa a sua missão na profissão?

    LAC |

    A pesquisa social tem que se beneficiar de qualidades contraditórias: de uma grande ousadia e arrogância, mas também de uma grande humildade. A arrogância está na necessidade de fazer pesquisas ousadas e testar novas metodologias. Mas quem faz ciências sociais está fazendo pesquisa com seres humanos que têm suas próprias teorias sobre o mundo. E o objetivo da pesquisa é aprender com as teorias do ser humano cotidiano, mas, ao mesmo tempo, entender que elas serão sempre limitadas, porque ele não é um sociólogo preocupado em produzir um sentido adequado para a realidade. O sentido da minha pesquisa é descobrir coisas, em primeiro lugar, mas coisas que tenham impacto e relevância política na minha área, para pensar num mundo em que o racismo tenha menos efeitos. Então, na pesquisa, eu vejo minha missão desse modo. Na docência, é desconstruir a imagem da pesquisa acadêmica ou da sociologia como uma ciência fria, egótica. Então, eu sofro de um missionarismo comedido. A gente descobre coisas, impacta a sociedade, ajuda a fazer políticas públicas, mas entendendo que a sociedade e os movimentos sociais têm suas dinâmicas próprias. Não dá para pensar que o sociólogo vai dizer para a sociedade como ela funciona e as pessoas não têm ideia do que estão fazendo.

  • G |O que você diria para alguém que pensa em trilhar um caminho parecido com o seu?

    LAC |

    Eu dou muito conselho. Várias pessoas vieram para as ciências sociais com alguma participação minha, o que eu acho até um pouco temerário. É uma área profissionalmente ingrata. Eu gosto do que faço, acho que ainda existe no Brasil respeito pelo pesquisador universitário, mas nem 10% ou 20% das pessoas conseguem se estabilizar na academia. Por outro lado, tem um grande mercado em ciências sociais que as pessoas não fazem ideia: o governo, o terceiro setor ou até as empresas. E hoje as ciências sociais vivem uma fase de sucesso contraditório. As pessoas discutem raça e gênero na mesa de bar. Você vê um jovem se questionando se é branco, pardo ou preto, ou dizendo que é cisgênero. Isso não existia dez anos atrás e representa um sucesso dos conceitos e teorias das ciências sociais. Por outro lado, isso leva para a universidade uma geração com muitas certezas sobre suas teorias. É comum ver jovens dizendo que querem provar algo com uma pesquisa. Logo, um conselho importante é se abrir à dúvida e tentar entender o lado bom da curiosidade. Manter a curiosidade depende de respeitar sua ignorância, ter humildade intelectual, mas também manter a ousadia. Quando a gente consegue fazer isso, os problemas do mercado profissional acabam se resolvendo.

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