COLUNA

Círculo de Poemas

Lutar com palavras

O coordenador do Círculo de Poemas, Tarso de Melo, comenta os cadernos de Pedro Cassel

14 de Agosto de 2026

Você já deve ter reparado que, a despeito de todas as ferramentas eletrônicas de escrita que surgiram e se alastraram nos últimos anos (computadores, tablets, smartphones etc.), há uma variedade cada vez maior de cadernos e cadernetas à venda por aí. Artesanais, industriais, nacionais, importados, pequenos, médios, grandes, os caderninhos são uma tentação para quem tem o hábito de usar lápis, caneta e papel para registrar o que passa pelos sete buracos da cabeça. Sou um adepto, um tanto adicto. E tenho algumas manias de que não me orgulho, confesso, como adquirir cadernos que, de antemão, sei que não terei coragem de usar. De certo modo, eles formam uma coleção de livros em branco. Passo um tempo olhando para eles e tentando imaginar o que estaria à altura de ocupar aquelas páginas, mas não encontro as palavras, nem ouso maculá-las com qualquer coisa. E sigo com meus cadernos de sempre, que completo com papéis soltos e notas adesivas para atender às diferentes naturezas do que preciso anotar… Pois bem, por esse depoimento dá para imaginar minha alegria ao ler o excelente “Caderno de Cadernos”, do Pedro Cassel, catarinense que vive em Porto Alegre, em que ele se debruça — literalmente, inclusive — sobre a lida dos poetas com seus cadernos.

*

caderno de impressões

você está aqui,
o caderno à frente,
o mundo em volta.
um joão-de-barro pousa na calha,
alguém manda um e-mail
engraçado e triste,
a chuva finalmente cai
depois de ameaçar por dias.
o corpo é uma máquina de perceber,
o caderno uma de guardar
e nada pediu testemunho,
mas tudo é impressionante.

*

“Caderno de Cadernos” reúne 28 poemas, divididos em duas seções. De modo geral, o conjunto de textos é uma única e divertida (como costumam ser as coisas inteligentes, mesmo quando as notícias que nos dão não são muito boas…) reflexão sobre os desafios enfrentados por aqueles e aquelas que dedicam a vida à poesia. No entanto, enquanto a segunda parte trata de questões existenciais (“estou carregando a poesia na minha vida/ como as pessoas que carregam a tocha/ olímpica carregam a tocha olímpica”) ou de conflitos da poesia com a vida prática (“o poeta quer escrever/ mas precisa fazer a faxina”), toda a primeira parte é um mergulho no desafio mais íntimo e cotidiano para quem pratica a arte das palavras: lidar com as páginas em branco.

Ao olhar para o nó que os poetas formam com seus exigentes instrumentos de trabalho, Pedro Cassel faz retratos precisos, um tanto angustiantes, com os quais um “cadernista” — ou seria melhor “caderneiro”? — logo vai se identificar. Quem não hesita ao escolher a forma como vai ocupar as páginas do caderno? Cada caderno tem alguma vocação a ser respeitada (um caderno em que você só escreve quando está chovendo, outro em que anota memórias inventadas ou as pistas descobertas ao investigar um tema sem importância…), que é capaz de definir a forma e o destino da relação que teremos com suas páginas. E, no fundo, tudo gira em torno da (in/ad)equação entre o corpo, “máquina de perceber”, e o caderno, “máquina de guardar”.

Um mergulho no desafio mais íntimo e cotidiano para quem pratica a arte das palavras: lidar com as páginas em branco

Na ilustração interna da capa da plaquete, o traço da jovem artista gaúcha Lara Fuke capta lindamente esses embates. As linhas do corpo que escreve se confundem com as do caderno: com as linhas que formam o caderno e, também, com aquelas que esses corpos deixam nas páginas. Tudo se dá em muitos planos, a começar por aquele — “real”, se assim quisermos — em que a artista e suas canetas enfrentam o papel. Daí em diante, esse trânsito entre corpo e página multiplica-se em cenas que são comuns para quem se dedica à criação: o artista que gira em torno do caderno tentando encontrar uma nova perspectiva para extrair, da folha em branco, o que só ela é capaz de contar. Esse giro, esse corpo a corpo, tem algo do abraço, mas também é dança, sexo, batalha.

Diante da constelação que essas figuras formam, é impossível não lembrar da imagem da escrita como uma arte cotidiana de “lutar com palavras”, talhada por Carlos Drummond de Andrade: à caça do “fluido inimigo”, que “ri-se das normas/ da boa peleja”, aos artistas pouco mais resta que aceitar que é infindável — e, justamente por isso, delicioso — o “inútil duelo”. Nem tão inútil assim, porque, no fim das contas, é dele que têm vindo trabalhos tão bonitos como os de Pedro Cassel e Lara Fuke.

Produto

  • Caderno de Cadernos
  • Pedro Cassel
  • Círculo de Poemas
  • 40 páginas

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Círculo de Poemas é a coleção de poesia e clube de assinatura da editora Fósforo, que lança duas publicações por mês de poetas das mais diferentes gerações, línguas e tendências. Todo mês, um poema da coleção é comentado pelo coordenador do Círculo, Tarso de Melo.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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