COLUNA

Círculo de Poemas

Uma casa por dentro

O coordenador do Círculo de Poemas, Tarso de Melo, comenta um poema de José Tolentino Mendonça

12 de Junho de 2026

Na poesia portuguesa — como, suspeito, na história da poesia em geral — há um antes e um depois de Fernando Pessoa (1888-1935), aquele rapaz lisboeta que criava poetas como quem dá ao mundo seres de que, sem saber, não poderíamos prescindir. Diante de seus múltiplos heterônimos, repetimos: se essa pessoa não existiu, que bom que Pessoa a criou. E essa capacidade de povoar o mundo com poetas e poesia deu outros frutos igualmente admiráveis, porque nessas nove décadas desde sua morte se sucederam gerações de autores brilhantes, como Sophia de Mello Breyner Andresen e Herberto Helder, Manuel António Pina e Adília Lopes, para ficar em pouquíssimos exemplos. Entre as mais recentes, o nome de José Tolentino Mendonça desponta. Nascido na Ilha da Madeira em 1965, Tolentino é professor e teólogo; foi ordenado padre em 1990 e, desde 2019, é cardeal. Sua vasta obra poética, dramatúrgica e ensaística se iniciou com “Os Dias Contados” (1990). Desde então, recebeu inúmeros prêmios, como os recentes Prêmio Literário Francisco de Sá de Miranda (2023), Pessoa (2023) e Eduardo Lourenço (2025). Para festejar a chegada ao Brasil da primeira antologia de seus poemas, “Os Enigmas Singulares”, organizada por Márcio Cappelli, vamos ler alguns de seus versos.

*

As casas

As casas habitadas são belas
se parecem ainda uma casa vazia
Sem a pretensão de ocupá-las
tornam-se ténues disposições
os sinais da nossa presença:
um livro
a roupa que chegou da lavandaria
por arrumar em cima da cama
o modo como toda a tarde a luz
entregue ao seu silêncio

Em certos dias, nem sabemos porquê
sentimo-nos estranhamente perto
daquelas coisas que buscamos muito
e continuam, no entanto, perdidas
dentro da nossa casa

*

A casa, em muitos sentidos, é um dos temas a que os poetas mais se dedicaram e se dedicam. Desde as casas concretas com que nossas vidas se confundem até a variedade de metáforas a que a imagem da casa se presta: habitar um lugar, habitar o mundo, ser habitado, deixar-se habitar. Drummond nos levou para dentro de sua casa da infância, porque, de certo modo, nunca conseguiu sair de lá. Gullar declarou ser “um poeta da casa do quitandeiro Newton Ferreira, da casa de dona Zizi”. Julia de Souza, num livro lindo chamado “As Durações da Casa” (7Letras, 2019), nos ensinou a andar pela casa pegando o tempo que se deita nas coisas. Em “Como se Fosse a Casa” (Relicário, 2017), Ana Martins Marques e Eduardo Jorge investigam cuidadosamente as distâncias que uma casa suporta. Enfim, são infinitos os exemplos que poderíamos dar.

Se os poetas moram na linguagem, é inevitável pensar que essa casa também pode se definir em torno daquilo que não encontramos dentro dela

No poema “As Casas”, entre outros que dedicou às casas em que viveu e à casa-mundo em que vivemos (e pensar que sua casa atual é o Vaticano deixa tudo ainda mais curioso e perturbador), Tolentino toca sem pressa as superfícies dessa espécie de arquivo de que fazemos parte. Nela, nos deparamos com nossa forma particular de habitar e se integrar: a casa é feita dos “sinais da nossa presença”, nossos livros, nossas roupas, mas também pela luz que a visita e pelo fantasma das coisas perdidas.

A casa não é apenas o lugar em que o passado ainda fala conosco (nos objetos, nas presenças, nas ausências), mas também aquele em que vivemos o presente e tecemos o dia seguinte. Se os poetas moram na linguagem, é inevitável pensar que essa casa — como abrigo e refúgio, cárcere e ninho — também pode se definir em torno daquilo que não encontramos dentro dela: “coisas que buscamos muito/ e continuam, no entanto, perdidas”. Ou, como ele diz noutro poema, “as línguas são portas/ que se abrem rangendo/ para coisas que não existem” (“Bocca della Verità”).

Na poesia de Tolentino, habitar é, ainda, continuar a buscar. É bonito olhar para cada um de seus poemas como um lugar a que chegamos, que nos acolhe e acalma, mas que, no mesmo gesto, nos convoca a seguir outro caminho.

Produto

  • Os Enigmas Singulares
  • José Tolentino Mendonça
  • Círculo de Poemas
  • 296 páginas

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Círculo de Poemas é a coleção de poesia e clube de assinatura da editora Fósforo, que lança duas publicações por mês de poetas das mais diferentes gerações, línguas e tendências. Todo mês, um poema da coleção é comentado pelo coordenador do Círculo, Tarso de Melo.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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