COLUNA

Círculo de Poemas

Uma imagem vale mais…

O coordenador do Círculo de Poemas, Tarso de Melo, comenta um poema de Laura Erber, da plaquete “Faltam Emojis”

15 de Julho de 2026

“para quase tudo/ que vive vibra/ e morre/ faltam/ emojis” — ao contrário do que pode parecer numa primeira leitura, o título da nova safra de poemas da carioca Laura Erber não é uma reivindicação. Quero dizer: ela não está pedindo que sejam criados mais e mais dessas figurinhas que o dicionário define como “pictogramas usados na comunicação digital para transmitir emoções, ideias ou objetos”. O que a poeta nos coloca a pensar, diante do abismo que se abre entre a vida — tudo que nos cerca e tudo que vivemos, sentimos, pensamos, desejamos — e essa colorida coleção de carinhas, corações, bichinhos etc., é sobre o que mudou nas nossas conversas a partir do momento em que passamos a substituir as boas e velhas palavras (não apenas as que voavam escritas, mas também ditas) por pequenos desenhos que se propõem a sintetizar e, supostamente, simplificar a comunicação. Na face evidente, há muita agilidade e, claro, alguma diversão (alguém mais envia emojis aleatórios aos amigos?). Sob a “simplificação”, no entanto, passa um rio de coisas não ditas, mal-entendidos, afastamentos nem sempre sutis.

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Dia Mundial do Emoji

17 de julho
é o Dia Mundial do Emoji
data escolhida porque
aparece no emoji do calendário
da Apple
neste dia
a Apple costuma anunciar
novos emojis
usuários celebram
seus favoritos
há debates acirrados
quais sentimentos
ainda não têm
uma carinha

sempre
faltam
emojis

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“De qual emoji você sente falta? Não existe emoji para isso?” Desde que começaram a circular pelo mundo os primeiros 176 emojis, criados em 1999, essas perguntas têm sido repetidas diariamente, numa escala crescente. A série original (que hoje faz parte do acervo do MoMA) foi criada pelo então jovem designer Shigetaka Kurita, que trabalhava numa empresa japonesa de telefonia e, em apenas cinco semanas, venceu o desafio tecnológico de colocar em poucos pixels tudo aquilo que seus superiores consideravam mais útil e urgente para a conversação imediata. Desde então, faltam emojis.

De lá para cá, a coisa ganhou muita complexidade e hoje existe um padrão mundial de codificação, que permite que quase 4 mil emojis saltem precisa e imediatamente entre os bilhões de aparelhos celulares ligados no mundo. Essa globalização das imagens-síntese, entretanto, não é tão fluente quanto parece (como, aliás, nenhuma globalização), porque nem a imagem aparentemente mais óbvia significa a mesma coisa quando chega ali do outro lado da rua ou do mundo, até mesmo no celular da pessoa ao seu lado.

É claro que os poetas, treinados como são na arte de perceber que os sentidos de tudo são sempre um pouco vagos e bastante precários, não deixariam esse mar de incompreensão escapar entre seus dedos. É assim que Laura Erber nos coloca para andar entre as notícias desse mundo tomado por uma “comunicação digital/ profundamente inumana”, em que tudo está meio fora do lugar, porque o emoji de “bater palmas” pode significar “fazer amor” (pelo som, não pela imagem); uma criança aprende que meninas namoram com meninas (e meninos, com meninos) porque “já viu os emojis”; ou os desenhos mais inocentes do dia podem se revelar abusivos/violentos na madrugada…

Nesse ambiente colorido, em que tudo parece mais leve, alguns sentem falta do emoji da capivara ou do brigadeiro, ao lado de outros que não conseguem encontrar a bandeira da Palestina ou a cor da sua pele ou sua representação de gênero. E é espantoso imaginar, por exemplo, que, numa sociedade cada vez mais conflitiva, se embaralhem os desafios da inclusão social e os da inclusão de mais alguns desenhos no teclado digital. Enfim, a impressão que temos, após ler “Faltam Emojis”, é de que qualquer “falta” ou imprecisão nesse universo pode esconder faltas mais profundas, com as quais teremos que lidar, mais cedo ou mais tarde, por extenso, sílaba por sílaba, letra por letra.

Círculo de Poemas é a coleção de poesia e clube de assinatura da editora Fósforo, que lança duas publicações por mês de poetas das mais diferentes gerações, línguas e tendências. Todo mês, um poema da coleção é comentado pelo coordenador do Círculo, Tarso de Melo.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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