COLUNA

Círculo de Poemas

Nísia, aqui e agora

O coordenador do Círculo de Poemas, Tarso de Melo, comenta “A Lágrima de um Caeté”, poema de Nísia Floresta

11 de Setembro de 2026

Nos manuais de literatura brasileira, o indianismo é, em geral, um capítulo do romantismo, localizado no século 19 em torno da prosa de José de Alencar (1829-1877) e da poesia de Gonçalves Dias (1823-1864), entre outros autores que se empenharam em forjar a figura do indígena como herói nacional, no intuito de afirmar a autenticidade de nossa produção literária em relação à portuguesa. Na mesma época, no entanto, uma poeta olhava para esse cenário histórico com olhos bem mais críticos. Enquanto seus colegas de geração mostravam a “pureza selvagem” dos indígenas, Nísia Floresta (1810-1885) apontava as feridas da colonização e, contra toda ingenuidade e idealização, erguia a pergunta: como podem os indígenas serem apresentados como heróis de uma nação que os destroçou para se construir? No poema “A Lágrima de um Caeté”, lançado em 1849 no Rio de Janeiro, com o pseudônimo de Telesila, e agora relançado pelo Círculo de Poemas em edição crítica sob os cuidados da pesquisadora Marina Santos, Floresta conta em versos “a história de um solitário indígena Caeté, único sobrevivente de seu povo, que vaga por terras pernambucanas lamentando o etnocídio dos seus e atribuindo a derrota do nativo à ambição ilimitada da colonização portuguesa”, como afirma a organizadora.

*

Era um homem sem máscara, enriquecido
Não do ouro roubado aos iguais seus,
Nem de míseros africanos d’além-mar,
Às plagas Brasileiras arrastados
Por sedenta ambição, por crime atroz!
Nem d’empregos qu’impudentes vendem,
A honra traficando! o mesmo amor!!
Mas uma alma, de vícios não manchada,
Enriquecida tinha das virtudes
Que valem muito mais qu’esses tesouros.

Era da natureza o filho altivo,
Tão simples como ela, nela achando
Toda a sua riqueza, o seu bem todo…
O bravo, o destemido, o grão selvagem,
O Brasileiro era… — era um Caeté! —

*

Amplamente reconhecida como precursora do feminismo no Brasil (datam de 1831, quando ela entrava na casa dos 20 anos, seus primeiros artigos na imprensa sobre a condição da mulher e, no ano seguinte, publicou seu primeiro livro, “Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens”), a poeta potiguar Nísia Floresta tem se tornado um nome cada vez mais incontornável para compreender a evolução de muitos outros debates. Com obras como “Opúsculo Humanitário” (1853), tornou-se leitura obrigatória nos vestibulares e muito além deles. Por sua múltipla militância política, é necessário entender o que uma voz tão original e complexa diz sobre seu tempo — e para o nosso.

“A Lágrima de um Caeté” deve ter papel fundamental na revalorização da obra de Nísia Floresta, com sua contundente denúncia do etnocídio indígena, junto à crítica da escravização e da colonização promovida pelo “fero Luso ambicioso”. O Caeté de Nísia atravessa as estrofes do poema épico, com seus diferentes metros e ritmos, carregando um desejo de “Vingança contra os tiranos/ Que a nossa terra tomaram!”.

As palavras de Nísia certamente causaram incômodo num ambiente dominado por vozes masculinas e afeito à idealização da nacionalidade

Entre a revolta e o lamento, entre a alegoria e a crítica, alternando também as vozes que constroem a narrativa, o poema homenageia um dos líderes da insurreição liberal então em curso em Pernambuco, conhecida como Praieira, o deputado Joaquim Nunes Machado, morto pelas tropas imperiais: “Busca as matas, lá somente/ Gozarás da Liberdade,// Que aqui terias/ Talvez gozado,/ Se todos fossem/ nunes machado!/ Dos pobres Índios,/ Que tanto amava,/ Mudar a sorte/ Também pensava!…”.

A forma como Nísia Floresta costurou em seus versos a reflexão sobre problemas históricos (e crônicos) do país, no calor dos conflitos, deveria ter assegurado, de imediato, um lugar de destaque para sua poesia. No entanto, suas palavras certamente causaram incômodo num ambiente, primeiro, dominado por vozes masculinas e, segundo, afeito à idealização da nacionalidade, o que explica — jamais justifica! — sua marginalização na historiografia. Ao aproximar dois massacres, o dos indígenas e o dos liberais, ambos perpetrados pelos colonizadores, ela colocou o dedo numa ferida que o Brasil, do seu e do nosso tempo, parece não pretender cicatrizar: um processo de colonização que se perpetua não apenas pelas suas consequências, mas cuja violência não hesita em voltar à tona para que as coisas continuem mais ou menos como sempre foram.

Produto

  • A lágrima de um Caeté
  • Nísia Floresta
  • Círculo de Poemas
  • 96 páginas

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Círculo de Poemas é a coleção de poesia e clube de assinatura da editora Fósforo, que lança duas publicações por mês de poetas das mais diferentes gerações, línguas e tendências. Todo mês, um poema da coleção é comentado pelo coordenador do Círculo, Tarso de Melo.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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