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Marco Delogu

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Conversas

Sandro Veronesi: "A ideia de que somos capazes de controlar alguma coisa é um mito ruim"

Leitor de Jorge Amado, autor de “O Colibri” e uma das principais atrações da Flip 2025 faz de sua obra uma ode à resiliência do homem comum

Leonardo Neiva 27 de Julho de 2025

Sandro Veronesi: “A ideia de que somos capazes de controlar alguma coisa é um mito ruim”

Leonardo Neiva 27 de Julho de 2025
Marco Delogu

Leitor de Jorge Amado, autor de “O Colibri” e uma das principais atrações da Flip 2025 faz de sua obra uma ode à resiliência do homem comum

Um garoto de 12 anos passa o verão nas praias da Versilia, no abastado litoral da Toscana. O ano é 1972 e, para o jovem Gigio, o ar está repleto de promessas: passar alguns dias velejando ao lado do pai, as Olimpíadas de Munique que se aproximam, os dias que pretende gastar na areia da praia, as novas leituras, as descobertas musicais e, principalmente, o doce sabor do primeiro amor. Foi todo esse complexo cenário que começou a se descortinar de surpresa na mente do escritor italiano Sandro Veronesi, 66, enquanto este dirigia seu carro da Toscana até Roma.

“Eu estava sozinho, dirigindo por três horas. Quando saí da Toscana, não tinha nada. E cheguei a Roma com o romance completamente claro na minha mente”, conta a Gama Veronesi, que é um dos convidados mais aguardados da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) deste ano. A trama se traduziu no livro “Setembro Negro” (Autêntica Contemporânea, 2025), o mais recente do autor publicado por aqui. Foi uma experiência bastante diversa da dos outros romances — em especial de “O Colibri” (idem, 2024), sua obra mais conhecida que, em vez das três horas de uma viagem de carro, precisou de mais de um ano apenas para ser concebida.

Apesar de terem surgido de formas diferentes, os dois livros têm características em comum. Primeiro, os planos de fundo típicos da Itália, desde a Florença onde o autor nasceu até as ensolaradas praias italianas, cenários com os quais o público contemporâneo já vem se acostumando ao ler escritores como Elena Ferrante e Domenico Starnone. Mas também há outras constantes: a intensidade e a fragilidade das relações familiares, os sentimentos sempre à flor da pele e, é claro, os personagens centrais.

O protagonista típico de Veronesi talvez tenha alcançado seu ápice no próprio “O Colibri”, onde Marco Carrera recebe o apelido do título por sua baixa estatura na infância e depois pela habilidade sobrenatural de pairar firme, sem perder o ânimo frente às maiores tragédias de sua vida. De fato, o autor não esconde que sua obra é uma ode à capacidade humana de seguir adiante mesmo quando continuar parece impossível. Tanto que decidiu iniciar todos os seus livros com uma mesma epígrafe, extraída das páginas de “O Inominável” (Biblioteca Azul, 1953), de Samuel Beckett: “Não posso continuar. Continuarei.”

“Eu tinha que lembrar ao leitor e a mim mesmo que o único heroísmo possível para as pessoas comuns é esse”, explica. Arquiteto de formação, Veronesi é um dos únicos dois escritores na história a vencer duas vezes o prêmio Strega, o mais prestigiado da literatura italiana, que já foi entregue a autores como Umberto Eco, Natalia Ginzburg e Alberto Moravia. A primeira vez foi por “Caos Calmo” (Rocco, 2007), em 2006, em que narra a jornada de um executivo que precisa lidar com a morte repentina da esposa. Hoje indisponível por aqui, já há planos para uma nova edição brasileira em breve. Mais recentemente, ele levou o segundo Strega com “O Colibri” em 2020. As duas obras, aliás, também foram adaptadas para o cinema, protagonizadas pelos atores Nanni Moretti, Valeria Golino, Pierfrancesco Favino e Bérénice Bejo.

Apesar de seus mais de 40 anos como escritor de romances, volumes de contos, ensaios e até roteiros, Veronesi prefere não pensar muito em sua escrita. “Vivo 24 horas por dia na minha própria companhia, e nenhuma das perguntas que me faço estão relacionadas a mim mesmo, porque é chato”, admite. Essa visão tem a ver também com aquilo que enxerga como a incapacidade humana de controlar o que quer que seja. “Mesmo que eu descubra claramente o que mudou [na minha escrita] em 40 anos, não consigo controlar nada. Então, é melhor não saber.”

Na conversa com Gama, Veronesi discorre ainda sobre literatura latino-americana e a família como um campo de batalha, analisa a realidade do mercado literário contemporâneo e expõe sua visão sobre ser um homem comum escrevendo para leitores comuns.

O próximo passo — espero que o mais tarde possível — será contar histórias de não-humanos

  • G |Seu livro “O Colibri” é um fenômeno de vendas aqui no Brasil. Por que acha que sua obra conversa tão bem com o público brasileiro?

    Sandro Veronesi |

    Não tenho como saber, mas posso imaginar. Acho que é uma história bastante latina a ideia de uma família que em “O Colibri” não é tão funcional. Mas o livro também foi muito bem na Grã-Bretanha e nos EUA, onde o modelo familiar é completamente diferente. Portanto, a resposta mais razoável é que é um livro de sorte. Melhor não fazer perguntas demais, porque foi uma dádiva.

  • G |Boa parte dos lançamentos literários recentes abordam temas sociais e políticos contemporâneos. Seus livros provam que as pessoas ainda querem ler histórias de escopo menor, sobre pessoas comuns e seus universos particulares?

    SV |

    Não sei o que mais se pode dizer senão sobre histórias de pessoas comuns. Chegamos depois do século 20, o século de pessoas comuns na poesia, na literatura, no cinema, onde quer que seja. Os maravilhosos romances do século 19 são todos sobre aristocratas, militares, nobres e reis. Mas lentamente, as pessoas comuns se tornaram mais interessantes. Eu sou um homem comum e escrevo principalmente para leitores comuns. Pessoas comuns não eram capazes de ler no século 19, então era incomum escrever sobre elas. Quando houve a alfabetização em francês, por exemplo, Victor Hugo começou a contar histórias de pessoas pobres e comuns, porque é algo que está acontecendo ao seu lado, não num castelo onde não temos permissão para entrar. E acho que o próximo passo — espero que o mais tarde possível — será contar histórias de não-humanos. Máquinas e IAs devem ser a narrativa do próximo século. Por enquanto, devemos contar histórias de pessoas comuns.

  • G |Como geralmente surgem as ideias para seus romances? Qual foi a primeira imagem que você teve de “Setembro Negro”?

    SV |

    Esse é o único dos meus livros que não começou com uma imagem. É estranho, porque nunca aconteceu antes. Aquilo se conectou comigo durante uma viagem de carro da Toscana a Roma. Eu estava sozinho, dirigindo por três horas. Quando saí da Toscana, não tinha nada. E cheguei a Roma com o romance completamente claro na minha mente. Provavelmente, escutei algo no rádio sobre o aniversário de 50 anos do ataque terrorista nas Olimpíadas de Munique. Isso pode ter me lembrado da época, quando eu ainda era um menino. Não precisei inventar a história, ela estava pronta. Passei uma semana pesquisando para ter certeza de que não era a história de uma outra pessoa sobre a qual eu tinha lido. Foi instantâneo, em comparação com o longo período de tempo de que geralmente preciso para construir imagens e a estrutura para uma história. Era como lembrar, não como criar. Mas o livro não é autobiográfico. Apenas o contexto, a paisagem, porque eu estava lá naquela época. Minha vida é cheia de coisas estranhas, essa foi uma coisa estranha positiva. Com “O Colibri” e todos os meus outros romances, parto de imagens que duram meses na minha cabeça. Só quando concluo que nunca vão desaparecer é que começo a me perguntar o que significam. Qual história essas imagens estão tentando contar? Esse é o início da criação.

  • G |O próprio processo de escrever o livro também foi mais rápido que o normal?

    SV |

    Não, foi lento como os outros. Mas pulei a parte de estruturação e composição, o que significou um ano e meio a menos. Geralmente levo de três anos e meio a quatro para escrever um romance. Nesse caso, foram dois, porque a primeira parte do trabalho já estava feita. Sinto uma grande diferença entre visualizar algo e escrever sobre aquilo. Quando escrevo, não estou mais totalmente em outra dimensão. Então, todas as lembranças, sugestões e conexões que não apareceram quando eu estava pensando surgem assim que escrevo. Por isso tenho que ter muito cuidado. Enquanto escrevo, também estou pensando e compondo. Esse é o processo criativo real.

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Nunca ninguém será capaz de controlar nada, entendemos isso neste século

  • G |Embora não seja o centro das suas narrativas, dá para sentir um interesse especial pela arquitetura e a história nos livros. Só mais tarde descobri que você é formado em arquitetura. Isso fez alguma diferença para sua escrita?

    SV |

    Não entendo como meus colegas escritores conseguem escrever um romance sem ter estudado arquitetura. Para mim, é fundamental. Na arquitetura, você estuda a relação entre homem, espaço e tempo. E é exatamente o que acontece quando escreve. Você tem seres humanos, espaço e tempo, e precisa lidar com essas três forças da mesma maneira que quando constrói uma casa. Se você já leu “Alice no País das Maravilhas”, vai lembrar de uma parte em que Alice recebe uma chave, toma uma pílula e se torna pequena demais para usar a chave. Apesar de ela ter a chave, precisa fazer as coisas certas na ordem certa para chegar a algum lugar. Seja na arquitetura ou em um romance, você deve fazer as coisas certas na ordem certa. Significa compor o relacionamento entre vida e espaço. Na música ou na pintura é diferente, você não precisa do homem. Pode pintar uma natureza morta. Mas, na minha maneira de ver a literatura, os seres humanos são obrigatórios. Não dá para renunciar a eles nas histórias. E só consigo fazer isso porque estudei arquitetura.

  • G |Você também já mencionou o interesse em escrever personagens capazes de viver situações insuportáveis. O que, na ficção ou na vida real, te inspirou a escrever sobre o tema?

    SV |

    A inspiração é uma citação de Samuel Beckett que li no final de “O Inominável”. Eu entendi naquele momento, com apenas quatro palavras, que essa é a vida: “Não posso continuar. Continuarei.” Por isso vale a pena viver e vale a pena contar e escrever. Li esse livro uns 34 anos atrás e, a partir desse momento, passei a colocar essas frases no início dos meus romances. Porque eu tinha que lembrar ao leitor e a mim mesmo que o único heroísmo possível para as pessoas comuns é esse. Há um momento na vida de todos nós em que dizemos que não podemos continuar. Mas, ainda assim, seguimos em frente. Ainda que a pessoa decida se matar, também significa seguir em frente. Beckett trabalhou o maravilhoso conceito de imobilidade. Mas mesmo um homem como ele não foi capaz de criá-la. Era impossível para seus personagens não se moverem mais, não fazerem nada. Eles chegaram perto disso, mas não chegaram lá. Entendi que em toda a minha vida anterior, não apenas como escritor, mas como menino e homem, eu enfrentei isso de tempos em tempos. Não se pode impor condições à realidade. Você tem que aceitar ou não aceitar, mas é algo que está dado. A citação me mostrou isso da maneira mágica como o trabalho de Beckett é capaz de fazer.

  • G |Especialmente em “O Colibri”, seus personagens quebram essa ilusão de estar no controle da realidade. É quando aceitam que as coisas estão além das suas mãos que conseguem seguir em frente…

    SV |

    A ideia de que somos capazes de controlar alguma coisa é um mito ruim que se fortaleceu na segunda metade do século passado. Provavelmente foi a melhor metade de século em toda a história da humanidade. Mas ela só foi tão maravilhosa porque estava cheia de ilusões, e o controle foi uma delas. Eu venho das últimas três décadas do século passado, me formei no século 20. Foi realmente maravilhoso estar ali naquele exato momento, porque havia ideias e objetivos que pareciam possíveis. Só depois entendemos que eram ilusões. Nunca ninguém será capaz de controlar nada, entendemos isso neste século. Antes, as pessoas acreditavam que poderiam controlar o efeito das drogas, a poesia, o processo criativo, as máquinas, a IA. Foi a era de ouro da ficção científica. E tudo alimentado pela ideia de controle. Não controlamos nada. Você não pode nem agir, apenas reagir. É uma miséria, mas que está mais de acordo com a miséria que significa crescer no século 21.

  • G |As famílias estão no centro dos seus livros, e quase sempre num lugar de conflitos. Essa tensão é inerente à dinâmica familiar?

    SV |

    Meus livros estão cheios de histórias verdadeiras ou anedotas vindas da minha experiência e principalmente da experiência de outras pessoas. Por mais que uma família latina e uma anglo-americana tenham regras diferentes, famílias são sempre zonas de guerra. Essa é minha razão de escrever sobre elas, porque toda família tem sua própria maneira de lutar, cada uma vive uma guerra diferente. E você precisa seguir com os olhos cheios de pena o destino desses soldados que são sua mãe, seu pai, sua irmã, seu irmão nessa doce e terrível guerra. Então, não consigo ver nada além da família com uma gama tão forte e cheia de opções para contar uma história. Todos os dias dentro de uma família, há uma porta que se abre.

Na Europa, dizia-se que não se podia mais escrever romances. Na América Latina não ouviram, então publicaram obras-primas

  • G |Quais são as suas expectativas para a participação na Flip? Já esteve no Brasil antes?

    SV |

    Não, é a primeira vez. Já estive em vários países da América Latina, mas não no Brasil. E o Brasil sozinho representa metade da América Latina, portanto, a expectativa é muito alta. Todo mundo me diz que a Flip é um festival maravilhoso, talvez o melhor do mundo. Então estou muito ansioso pelo festival e pela experiência como um todo. Será um tempo muito curto, mas quero saborear o Brasil. Sinto a América Latina, e o Brasil em particular, muito próximos de mim. Há muitas razões para se sentir próximo do Brasil, tendo crescido na Europa nos últimos 50 anos. Finalmente, estarei no lugar real.

  • G |Você tem uma conexão com escritores latino-americanos? Quais autores latino-americanos e brasileiros te impactaram?

    SV |

    Eu li muitos autores da América Latina num período em que, na Europa, todas as mentes mais brilhantes se voltaram contra a literatura narrativa. Li romances maravilhosos de Mario Vargas Llosa, Gabriel García Márquez e Jorge Amado. Não pude separar muito o Peru da Colômbia ou do Brasil, porque infelizmente não consigo ler em português nem em espanhol. Mas li traduções, e foram todas obras que me incentivaram a escrever romances. Esses autores escreveram livros maravilhosos num momento em que, na Europa, dizia-se que não se podia mais escrever romances. Na América Latina não ouviram, então publicaram obras-primas. O Brasil, principalmente com Jorge Amado, foi um desses lugares que, nas décadas de 1960 e 1970, eu aprendi a amar. Naquele momento, a Europa estava tentando mudar a literatura, mas não conseguiu.

  • G |Ao mesmo tempo em que temos festivais celebrados como a própria Flip, que crescem a cada ano, há também uma preocupação constante com a queda no número de leitores. Qual a sua visão sobre o momento que a escrita e a leitura estão vivendo no mundo?

    SV |

    O número de leitores de literatura sempre foi muito pequeno. O problema é que o crescimento industrial do mercado editorial entrou em colapso. Não é uma questão de perder leitores, os leitores são sempre os mesmos. Leitores de verdade na Itália, no Brasil ou nos EUA são 20 mil. Quando um livro chega a 20 mil cópias nos EUA, é um sucesso, até estouram champanhe. Você pode vender 2 milhões de cópias de um livro, mas está vendendo para não leitores, pessoas que leem quatro livros por ano. A internet está destruindo a conexão entre todas as partes do sistema. Os leitores podem comprar livros sem precisar passar por livrarias. No processo, sempre há algo faltando que foi substituído pela internet. É um problema sério, estamos falando de uma crise industrial. Quando as pessoas perdem seus trabalhos e há uma redução de tudo em torno da literatura, é uma perda que não tem volta. E, claro, é uma substituição por nada, porque a internet não é nada. É um lago onde você encontra textos irrelevantes sobre tudo. Talvez por causa do algoritmo, não é um processo fundamentado. É o oposto do sistema que, no século 20, se tornou tão brilhante, com conexões físicas, entre todas as partes: distribuição, livrarias, escritores, editores, leitores, criando muito dinheiro para todos. Agora muitos estão perdendo dinheiro. Mas não acho que estamos perdendo leitores, os leitores ainda são os mesmos.

Produto

  • Setembro Negro
  • Sandro Veronesi (trad. Karina Jannini)
  • Autêntica Contemporânea
  • 288 páginas

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