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Bloco de notas

Dez pequenos poemas de Paulo Leminski

A convite da Gama, a poeta Sofia Mariutti, responsável pela edição de “Toda Poesia”, selecionou obras curtas da coletânea do escritor paranaense, o grande homenageado da 23ª Flip

Dez pequenos poemas de Paulo Leminski

Ana Elisa Faria 27 de Julho de 2025
Divulgação

A convite da Gama, a poeta Sofia Mariutti, responsável pela edição de “Toda Poesia”, selecionou obras curtas da coletânea do escritor paranaense, o grande homenageado da 23ª Flip

Homenageado pela 23ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o escritor, poeta e tradutor paranaense Paulo Leminski (1944-1989) é conhecido pelo romance-ideia “Catatau” (Iluminuras, 1975) e pelos vários pequenos poemas que não saem das redes sociais. Para apresentar melhor essa faceta poética do autor, Gama convidou Sofia Mariutti, responsável pela edição da coletânea “Toda Poesia” (Companhia das Letras, 2013).

A hoje editora-executiva da Tinta-da-China Brasil selecionou dez obras curtas de Leminski, o que, para ela, foi “uma tarefa inglória”. “É muito pouco”, diz. Mariutti conta que escolheu versos que decorou e vivem em sua cabeça.

“Dois deles musicados pelo gigante Itamar Assumpção (aqueles em que as tentativas de comunicação entre o poeta e deus fracassam). São versos espirituosos, às vezes mais políticos, às vezes mais existencialistas. Falam de situações cotidianas, por isso volto sempre para eles (roupas no varal/ deus seja louvado/ entre as coisas lavadas), e da criação de um jeito que me serve de guia — como no poema do barro, que lembra que a gente não está sempre no controle”, analisa.


  • ameixas
    ame-as
    ou deixe-as

     

    p. 105.

  • roupas no varal

    deus seja louvado
    entre as coisas lavadas

     

    p. 121.

  • en la lucha de clases
    todas las armas son buenas
    piedras
    noches
    poemas

     

    p. 93.

  • podem ficar com a realidade
    esse baixo-astral
    em que tudo entra pelo cano

    eu quero viver de verdade
    eu fico com o cinema americano

     

    p. 200.

  • o barro
    toma a forma
    que você quiser

    você nem sabe
    estar fazendo apenas
    o que o barro quer

     

    p. 107.

  • podia passar
    a vida inteira assim
    olhando a lua
    a boca cheia de luz
    e na cabeça nem sombra
    da palavra glória

     

    p. 292.

  • um dia sobre nós também
    vai cair o esquecimento
    como a chuva no telhado
    e sermos esquecidos
    será quase a felicidade

     

    p. 292.

  • hoje à noite
    lua alta
    faltei
    e ninguém sentiu
    a minha falta

     

    p. 240.

  • o mar o azul o sábado
    liguei pro céu
    mas dava sempre ocupado

     

    p. 235.

  • eu ontem tive a impressão
    que deus quis falar comigo
    não lhe dei ouvidos

    quem sou eu para falar com deus?
    ele que cuide dos seus assuntos
    eu cuido dos meus

     

    p. 202.
    Em “Toda Poesia” (Companhia das Letras, 2013), de Paulo Leminski

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