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Lilo Oliveira

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Cecília Olliveira: "O sistema e a produção de novos milicianos seguem intactos"

Jornalista e criadora do Instituto Fogo Cruzado, que participará do Ciclo Gama de Debates na 23ª Flip, fala sobre o livro “Como Nasce um Miliciano” e de que forma grupos criminosos fazem parte do Estado

Ana Elisa Faria 27 de Julho de 2025

Cecília Olliveira: “O sistema e a produção de novos milicianos seguem intactos”

Ana Elisa Faria 27 de Julho de 2025
Lilo Oliveira

Jornalista e criadora do Instituto Fogo Cruzado, que participará do Ciclo Gama de Debates na 23ª Flip, fala sobre o livro “Como Nasce um Miliciano” e de que forma grupos criminosos fazem parte do Estado

Na noite de 15 de outubro de 2020, durante uma operação policial, 12 homens foram executados em Itaguaí, na Baixada Fluminense. Para quem costuma acompanhar o noticiário, foi mais um episódio, entre tantos, na rotina violenta do Rio de Janeiro. Não para a jornalista Cecília Olliveira. Aquele foi, para ela, o ponto de partida de uma profunda investigação que virou reportagem em 2021, ganhou mais corpo e detalhes e, em 2025, se transformou em livro.

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Entre os mortos daquela noite estava Carlos Eduardo Benevides Gomes, o cabo Bené, um ex-soldado da Polícia Militar que havia se tornado um dos líderes milicianos mais influentes da zona oeste.

“O que faz um homem que prestou concurso para servir e proteger cidadãos decidir atravessar a linha e se tornar aquilo que jurou combater? Como uma estrutura criminosa se torna tão poderosa a ponto de dominar quase metade do território da segunda maior cidade do país?”, escreveu. A resposta, segundo Olliveira, vai muito além do indivíduo: está nas engrenagens do próprio Estado brasileiro.

Foi da obsessão por responder essas questões que surgiu “Como Nasce um Miliciano” (Bazar do Tempo, 2025), obra de estreia de uma das mais respeitadas jornalistas investigativas do país. Cofundadora do Intercept Brasil, criadora do Instituto Fogo Cruzado e ex-diretora da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), a repórter parte do caso Bené para dissecar um modelo de poder que domina parte expressiva da região metropolitana do Rio — e que vem se espalhando pelo Brasil.

Ao apurar a trajetória do policial, Olliveira desvia da explicação fácil do dinheiro. Até porque o chão de fábrica da milícia ganha mal. A motivação de figuras como Bené, ou outros que não chegaram a alcançar altos cargos no “milicianato”, está mais ligada à autoridade, além do desejo de ser respeitado e temido. É uma lógica viril, de guerra permanente.

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Um soldado que nunca seria ouvido no quartel, na milícia, pode se tornar alguém com voz de comando. Pode sentar ao lado de um capitão. Pode impor medo. “A sensação é de que eles estão sempre num filme do Rambo, com áreas a conquistar, inimigos a matar, gente para salvar ou eliminar. O que faz as pessoas cruzarem essa linha foi o que mais me chamou a atenção”, diz a Gama.

A tese central da publicação é desconfortável e urgente. Essa rede criminosa não é um erro do sistema, é o próprio sistema funcionando. “Não é uma anomalia, um erro, um deslize, uma falha, é 100% o Estado utilizado para interesses privados”, afirma. Nada do que o meio miliciano faz seria possível sem viaturas, armas, munição, treinamento, legitimidade institucional e omissão dos órgãos de controle. O problema, aponta a autora, não está nas exceções, mas na regra. “O sistema e a produção de novos milicianos seguem intactos.”

De acordo com Olliveira, a imprensa também precisa se olhar no espelho. “Criminoso é criminoso e todos deveriam ser tratados da mesma forma, mas o que vemos é uma gradação no tratamento”, comenta. Isso, explica ela, ajuda a moldar o imaginário social sobre quem deve ser combatido e quem pode ser tolerado. Conforme fala, tratar a segurança pública com responsabilidade, contexto, igualdade e sem espetacularização é papel fundamental do jornalismo.

“O sonho do criminoso comum é ser o criminoso bicheiro, porque o bicheiro é o criminoso que deu certo. Ele casa com atrizes globais, dá festas enormes no Copacabana Palace, aparece em todas as páginas de fofoca como um grande empresário, um homem de sucesso e de boas relações”, pontua a escritora.

Dentro dessa temática, a jornalista participará, na 23ª Flip, em 1/8, às 13h30, da mesa “Como a periferia lê o centro e como o centro lê a periferia?”, na Casa Sete Selos + Gama, Megafauna e Supersônica, com mediação de Paula Miraglia, diretora-geral da Gama. Ao lado do advogado Pedro Abramovay, ela debaterá sobre como se criam estereótipos e preconceitos e como lidar com eles, em um contexto de desigualdades.

Nesta entrevista, Cecília Olliveira analisa como a milícia passou a ser parte do Estado, revela os bastidores de sua investigação sobre o caso do cabo Bené, critica a conivência institucional que sustenta grupos milicianos, aponta o papel da imprensa na construção de narrativas sobre o crime e reflete a respeito da escrita.

Não se trata só de dinheiro, a questão está mais relacionada à virilidade, a se tornar uma autoridade, a ser respeitado, admirado, venerado, temido

  • G |O que exatamente no caso do cabo Bené despertou sua atenção para essa investigação que se transformou em uma reportagem para o Intercept Brasil, publicada em 2021, e agora, em 2025, virou um livro?

    Cecília Olliveira |

    O caso do cabo Bené me chamou atenção, primeiramente, porque a operação contra essa parte [da milícia] do Bonde do Ecko aconteceu bem perto das eleições [municipais de 2020]. Foram duas operações em sequência, uma em Nova Iguaçu, contra o braço da milícia em que estava o [Danilo] Tandera, e depois a de Itaguaí, braço liderado pelo cabo Bené. Isso aconteceu logo depois do então secretário da Polícia Civil, Allan Turnovsky, dizer que iria fazer uma força-tarefa para impedir a interferência nas eleições, o que, de imediato, despertou a minha atenção. A operação também foi feita em conjunto com a PRF [Polícia Rodoviária Federal], algo que não é comum. A partir daí, decidi cavar mais. Não foi a pessoa específica do Bené que me interessou em um primeiro momento, mas, dando sequência à investigação, fui puxando quem eram as vítimas e a coisa foi indo. A operação ocorreu em outubro de 2020 e eu publiquei a reportagem em janeiro de 2021. A editora leu a matéria na época e enxergou que ali havia potencial para destrinchá-la e transformá-la em um livro.

  • G |O jornalismo investigativo envolve mergulhos profundos em documentos sigilosos, processos judiciais, entrevistas sob anonimato, silêncios de fontes e de instituições. Nessa apuração, o que foi mais difícil?

    CO |

    O silêncio geral e a falta de informação. A Polícia Civil colocou barreiras em tudo. Eles não me permitiram entrevistar ninguém, não me deram informações e ainda colocaram sigilo de cinco anos em uma informação que pedi. Dentre tudo o que precisei, a Polícia Civil foi meu maior obstáculo. Eu quis conversar com os delegados que participaram da Operação Freedom, ocorrida anos antes, e que não tinha ligação direta com a operação da milícia do Ecko, mas eu queria saber mais sobre aquela primeira investigação que puxou o fio da milícia de Itaguaí. Porém, não me permitiram falar com ninguém. A informação que pedi e cujo acesso foi negado tratava das munições usadas na operação. Identifiquei munições do Exército, da Marinha, da Polícia Militar e da Polícia Civil do Rio, além da Força Nacional. Por isso, pedi informação sobre esse lote de munições, que era da Polícia Civil, e foi usada contra a Polícia Civil. Perguntei se houve desvio, registro de roubo, de furto, de perda, e não me responderam absolutamente nada. Quer dizer, responderam dizendo que era uma informação sensível e colocaram um sigilo de cinco anos.

  • G |Na introdução do livro, você cita que o miliciano “não nasce, ele se transforma”. O que mais te surpreendeu ao investigar esse processo de transformação?

    CO |

    O interessante é que o dinheiro não é a coisa mais importante e chamativa para alguém entrar para a milícia. Claro que depende da esfera, os grandes cabeças concentram a maioria do lucro, mas o chão de fábrica, o miliciano que fica no dia a dia cobrando as taxas e monitorando a área, ganha muito pouco. Ele poderia ter um trabalho CLT comum — obviamente, se houvesse uma estrutura que envolvesse educação, sistema social —, porque o que ele ganha na milícia gira em torno de R$ 2 mil por mês. Mesmo se esse indivíduo entrasse para a polícia e fizesse hora extra, ganharia mais. Não se trata só de dinheiro, a questão está mais relacionada à virilidade, a se tornar uma autoridade, a ser respeitado, admirado, venerado, temido. O cabo Bené, especificamente, era soldado, apesar de ser chamado de cabo, e soldado é o chão de fábrica da polícia, a base da pirâmide, o que significa que qualquer pessoa pode dar uma ordem a ele. Às vezes, acontece de a pessoa já ter a intenção de entrar para o crime, mas há quem preste o concurso público e enxergue ali uma segurança. Nós, civis, enxergamos o policial como uma autoridade. Mesmo que ele seja um soldado, para nós, ele continua sendo uma autoridade, não fazemos gradações. Mas, do lado de dentro, faz muita diferença. Na milícia, você consegue ter um colega capitão, há uma hierarquia diferente. No quartel, o soldado jamais sentaria com o capitão, mas na milícia ele é tão respeitado e temido quanto. Além disso, há uma coisa do guerreiro, as pessoas ali vivem em modo full Rambo, em uma guerra permanente. A sensação é de que eles estão sempre num filme do Rambo, com áreas a conquistar, inimigos a matar, gente para salvar ou eliminar. O que faz as pessoas cruzarem essa linha foi o que mais me chamou a atenção.

  • G |Uma das teses do livro é a de que a milícia não é um “poder paralelo”, mas o próprio Estado funcionando em benefício de grupos criminosos. Como você chegou a essa conclusão?

    CO |

    Esse pessoal é formado em uma instituição do Estado. Eles usam academia, treinamento, munição, arma e viatura do Estado. Ninguém ali trabalha um período no quartel e, depois, tira a farda e vai para o segundo trabalho. Não, tudo é feito com os meios fornecidos pelo Estado, não apenas os meios materiais, mas com o aparato, tanto relativo à autoridade e à legitimidade, quanto às facilidades. Ou seja, não há punição, prisão, investigação. Essa pessoa vai ser tolerada. É óbvio que há exceções e, às vezes, vemos prisões, no entanto, o sistema e a produção de novos milicianos seguem intactos. Há ainda conexões com a estrutura profunda do Estado, não só em relação aos eleitos em si, mas a pessoas em secretarias e em órgãos de controle, facilitando desde a abertura de uma loja à legalização de um terreno. É 100% o Estado, não seria possível sem ele. Não é uma anomalia, um erro, um deslize, uma falha, é 100% o Estado utilizado para interesses privados.

  • G |A ideia de que a milícia é mais perigosa do que o tráfico tradicional — por ser mais estruturada, influente e silenciosa — aparece ao longo do livro. Por que ela ainda é tratada com menos urgência por parte da sociedade?

    CO |

    É hora de falar da imprensa, pois tudo tem muito a ver com a construção midiática do herói, do bandido, do bem e do mal. Porque criminoso é criminoso e todos deveriam ser tratados da mesma forma, mas o que vemos é uma gradação no tratamento. Um exemplo: tivemos a prisão do MC do Poze do Rodo. Vimos todo aquele estardalhaço, o esculacho, o cara sem camisa, de chinelo, sendo arrastado, acusado de tráfico. Com um miliciano sendo preso, ele está vestido, às vezes é algemado, às vezes, não. Quando você vê um bicheiro sendo detido, o cara vai escoltado até a delegacia. Ninguém toca nele e ainda perguntam: “Está tudo bem com o doutor?”, “O doutor precisa de alguma coisa?”. Há essa gradação, e ela vai da imagem à linguagem, a signos, o que, no fim, se traduz com um sendo o bandido, que faz apologia ao crime, e o outro como estrela de documentário. Isso é muito nítido e, por isso, é importante mencionar o papel da imprensa.

Tudo é feito com os meios fornecidos pelo Estado

  • G |E como o jornalismo deveria cobrir pautas relacionadas à segurança pública? Com menos espetacularizações e construções de heróis?

    CO |

    Os casos deveriam ser tratados com o mesmo tom e do mesmo jeito, porque crime é crime. Se é ilegal, é ilegal, não tem o ilegal do bem e o ilegal do mal. O jornalista tem uma responsabilidade muito grande na criação do imaginário popular sobre o que é aceitável e o que é inaceitável, sobre o que deve ser tolerado e o que é horrível, nojento e devemos repudiar. O ideal seria tratar esses casos com mais responsabilidade, com contexto e de forma igualitária. No livro, eu menciono que o Adriano [da Nóbrega, ex-capitão do Bope que chefiava o Escritório do Crime] dizia que não era miliciano e, sim, bicheiro. O sonho do criminoso comum é ser o criminoso bicheiro, porque o bicheiro é o criminoso que deu certo. Ele casa com atrizes globais, dá festas enormes no Copacabana Palace, aparece em todas as páginas de fofoca como um grande empresário, um homem de sucesso e de boas relações. O resto é bandidinho chinfrim. É crucial a gente levar em consideração a construção dos personagens aceitáveis.

  • G |Você relata que ouviu muitas vezes a frase “cheguei ao limite do que posso te contar sem me comprometer”. Como lidar com o medo durante uma investigação como essa?

    CO |

    Eu construí uma relação com as minhas fontes durante muitos anos, o que é bastante importante para atuar com segurança. Você precisa ter o seu trabalho referendado, chancelado por alguém do meio, para que outra pessoa te abra a porta. Tem também a questão de que a pessoa precisa confiar no seu trabalho para poder falar coisas. Ela tem de compreender que você não vai sacaneá-la, colocar palavras na boca dela, revelar a identidade ou colocá-la em risco. Isso é fundamental em tudo relativo à segurança, porque se a pessoa desconfia, aí você está em risco. A confiança é uma moeda caríssima nesse meio. Mesmo tendo essas coisas que me dão certa segurança, tenho cautela, às vezes rola um arrepio mesmo, que aconteceu, por exemplo, quando fiz todo o trajeto que os bondes faziam entre Itaguaí, Seropédica, Nova Iguaçu e Campo Grande para poder entender as rotas. Eu não desci do carro nenhuma vez, porque não queria ser vista nem notada. É importante tomar essas precauções e não se expor. Mas, mesmo assim, fico ressabiada. São lugares diferentes, você não vê arma, não vê nada estranho, porém, são locais estranhos, onde não há absolutamente nenhum policiamento, nenhuma viatura, nenhum policial, mas você sente algo esquisito no ar. Estar tão perto daquilo que você sabe que não é nada bom te deixa bolada.

  • G |Como jornalista e cidadã, o que mais te assusta na forma como a milícia opera?

    CO |

    Me assusta olhar para essa situação e ver que absolutamente nada é feito para impedir que ela avance. Nada, nada. Há uma operaçãozinha aqui, outra ali, mas é como cortar a pontinha do cabelo. Se eu tirar dois dedinhos, ele vai continuar crescendo e só vou dar mais força. Isso é o que mais me choca: todo mundo sabe quem é quem, quem faz o quê, quem é amigo de quem, em que tipo de situação está inserido, quanto está tirando, e nada acontece. Já não me surpreende, mas ainda me choca.

  • G |Ao fim do livro, você escreve que “não há respostas fáceis”. Mas há caminhos? Onde devemos focar esforços para frear a expansão das milícias?

    CO |

    Os caminhos todos existem, as leis existem, os mecanismos de regulação e fiscalização existem, mas são letra-morta. Há uma omissão enorme do Ministério Público, que tem entre suas funções fiscalizar a atividade policial, e isso não é feito. A ouvidoria e a corregedoria da polícia ficam de mãos atadas também. Vale a pena a gente levar em consideração que essas instituições só conseguem funcionar com o devido apoio político e institucional, porque elas precisam ser muito fortes para dar conta do recado. Quando elas não são fortes o suficiente, e alguém tenta agir por conta própria, essa pessoa é eliminada, caso da juíza Patrícia Acioli e da policial militar Vaneza Lobão. Se a sua instituição não te protege, não tem como. Temos os mecanismos, regras, legislação, mas nada é colocado em prática.

  • G |Como foi a experiência de escrever com profundidade e com tempo, em contraponto à velocidade do trabalho em redação?

    CO |

    Eu tive que me reeducar porque o jornalista escreve tudo muito curto, direto, sem floreios, sem um contexto visual, o que traz o leitor para dentro da história. A gente não narra cenários, tempo, pessoas, é sempre muito direto, fulano disse, fulano mandou tal documento, fulano fez aquilo. E, para escrever um livro, você tem que destrinchar o que seria um parágrafo em uma coisa maior para contar uma história que faça com que o leitor esteja do seu lado, vendo o que você está vendo, ouvindo o que você está ouvindo, percebendo o que você está percebendo.

Produto

  • Como Nasce um Miliciano
  • Cecília Olliveira
  • Bazar do Tempo
  • 216 páginas

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