A comida virou vilã?
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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Os menus especiais para quem usa Mounjaro e Ozempic

Uso de “canetas emagrecedoras” coloca setor num impasse, levando bares e restaurantes a oferecer pratos menores e até rodízio feito para quem come pouco

Leonardo Neiva 29 de Março de 2026

Os menus especiais para quem usa Mounjaro e Ozempic

Leonardo Neiva 29 de Março de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Uso de “canetas emagrecedoras” coloca setor num impasse, levando bares e restaurantes a oferecer pratos menores e até rodízio feito para quem come pouco

Quem sai para comer com frequência no Brasil já deve ter se deparado algumas vezes com a seguinte situação: você pede um prato individual, mas, quando o garçom chega com a comida, percebe que só aquela refeição daria para alimentar uma família inteira. Uma descrição que diz muito sobre a tradição de fartura enraizada em diversos bares e estabelecimentos brasileiros. Mas essa realidade parece prestes a se inverter.

Para muita gente, hoje um prato de tamanho normal já pode parecer exagero. Além das dietas e da busca por uma alimentação regrada, que integram a tendência a um estilo de vida wellness, há um fator ainda mais central para isso: a ascensão das “canetas emagrecedoras, como Mounjaro, Ozempic e Wegovy. Criadas para combater a diabetes tipo 2 por meio da redução do apetite, elas se popularizam rapidamente entre um público que busca perder peso — com mudanças consideráveis para os hábitos alimentares.

Um estudo da consultoria Galunion, sobre tendências para o setor da alimentação no Brasil, revela que 22% dos entrevistados em geral, e 40% dos de classe A, fazem uso, já usaram ou pretendem usar medicamentos como Ozempic e Mounjaro, à base de GLP-1 — hormônio do intestino que regula a glicemia, retarda o esvaziamento gástrico e aumenta a saciedade. Essas drogas agem nos centros de regulação da fome e saciedade do cérebro, estimulando a área responsável por diminuir a fome, explica o médico endocrinologista Fábio Moura, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). “Elas também bloqueiam outra região do cérebro chamada sistema mesolímbico, associada ao prazer de comer, fazendo com que a pessoa perca um pouco desse prazer”, acrescenta.

O impacto dessa fatia da população já se faz sentir no setor de alimentação fora de casa. A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) hoje prepara sua primeira pesquisa centrada no uso de “canetas emagrecedoras”, que deve ser divulgada nas próximas semanas. A ideia é, num diálogo com donos de estabelecimentos do ramo, avaliar a percepção dos empresários sobre o impacto dessa tendência no comportamento dos consumidores. E também entender quais alterações estratégicas bares e restaurantes brasileiros já estão aplicando para se adaptar a essa nova realidade.

“O que sentimos agora, conversando com empresários do Brasil todo, é que já existe um impacto, sim, mas que ainda é sentido principalmente nos estabelecimentos que atendem um público de poder aquisitivo mais alto“, explica o líder de conteúdo e inteligência da Abrasel, José Eduardo Camargo. O motivo para isso é que as canetas saem por um valor alto, muitas vezes acima de mil reais por mês, soma inacessível para a grande maioria dos brasileiros.

Só que esse cenário de exclusividade pode mudar em breve. Em março, caiu a patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy. Com isso, é questão de tempo até que medicamentos similares e genéricos comecem a inundar o mercado brasileiro, com preços mais baixos e atendendo a uma fatia mais ampla da população.

Mas a influência no setor nem sempre acontece de forma óbvia. Não é porque alguém está usando alguma marca de caneta que vai deixar de frequentar restaurantes, na visão de Camargo. “O que acontece, em muitos casos, é que a pessoa começa a experimentar porções menores, a deixar de comer um item ou pedir uma sobremesa para compartilhar em vez da individual”, exemplifica.

A pessoa começa a experimentar porções menores, a deixar de comer um item ou pedir uma sobremesa para compartilhar

Enquanto efeito social, essa nova realidade ainda está engatinhando no Brasil, mas se mostra a todo vapor em outros países. Nos Estados Unidos e Reino Unido, por exemplo, onde o uso das canetas já altera hábitos e reduz os gastos com alimentação, restaurantes vêm introduzindo “cardápios Ozempic”. Redes de fast food como McDonald’s, Burger King e KFC também estão testando menus específicos para usuários de canetas. As modificações incluem redução das porções e foco em carnes e proteínas vegetais — preferência de quem busca emagrecer, em detrimento dos carboidratos.

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Rodízio Mounjaro

“A gente pensou, pensou, pensou e resolveu lançar o rodízio Mounjaro”, anuncia em um post nas redes sociais a proprietária da pizzaria Kabana, de Canoas (RS). A proposta é simples: em vez de comer até se fartar, quem opta pela nova opção pode devorar um máximo de seis fatias pelo valor mínimo de R$ 39,90 — o rodízio normal custa R$ 69,90. Ainda segundo a postagem, a estratégia responde à demanda do público para expandir a todos que usam canetas uma oferta criada inicialmente para clientes que realizaram cirurgia bariátrica.

O exemplo não chega a ser isolado. Só nos últimos meses, viralizaram estratégias semelhantes pelo país, em estabelecimentos como o Floresta Bar, de Fortaleza, que requer inclusive apresentação da receita de uso da caneta, e do Zen Cozinha Oriental, de Volta Redonda (RJ).

No exemplo do restaurante de culinária oriental, que funciona há quase duas décadas na cidade fluminense, a demanda também veio dos clientes. Mais especificamente, de frequentadores que pediam uma opção diferente do mini-rodízio, que apenas restringia a quantidade de itens disponíveis no rodízio tradicional.

“A gente começou a ver alguns clientes pedindo que esse mini-rodízio tivesse a mesma variedade do rodízio”, conta o proprietário Tiago Caldeira, 36. “Alguns confessaram que estavam usando Mounjaro, Ozempic, e só conseguiam vir ao restaurante uma vez por mês ou a cada dois meses, porque tinham restrição alimentar.” Nessas ocasiões, portanto, queriam a oportunidade de comer de tudo, só que em menor quantidade.

Em fevereiro, nasceu o rodízio Mounjaro da casa, um híbrido entre rodízio e combinado: o cliente tem à disposição a variedade de itens do cardápio, mas em quantidades limitadas, com versões de 10 a 40 peças. “E temos vendido bastante. Dez peças não parecem quase nada, mas outro dia uma cliente que usa Mounjaro brincou que vamos ter que lançar uma versão de cinco. Por conta da dosagem do medicamento, ela já não estava conseguindo comer nem as dez”, lembra Caldeira.

Embora considere essencial adaptar-se a essa nova realidade, Laura Andreotti, sócia da consultoria Crudo, ficou surpresa ao se deparar pela primeira vez com menus batizados com nomes de canetas emagrecedoras. “Vemos desde cardápios nomeados para esse público específico, que talvez seja a medida mais drástica, até estabelecimentos diminuindo porções e oferecendo pratos mais proteicos, um elemento um pouco mais sutil”, exemplifica a representante da consultoria, especializada em traçar tendências de mercado e criar estratégias para marcas do ramo da alimentação.

O Nou, tradicional restaurante da capital paulista com unidades em Pinheiros e Higienópolis, é outro que decidiu implementar mudanças a partir do novo perfil de consumidores. A casa já vendia de maneira informal pratos menores para clientes que os solicitavam. Mas, até recentemente, a opção não estava descrita no cardápio.

O que inspirou o restaurante a oferecer de forma direta essa versão reduzida foi um aumento visível na demanda, mesmo sem a opção estar no menu, conta o empresário Paulo Nou, sócio da casa. “Esse pedido era recorrente, e os clientes ficam mais confortáveis de não ter que pedir [a versão menor] como se fosse um favor. Na mesa do restaurante, a pessoa não quer ter que falar se está ou não com fome. Você só quer chegar lá, pedir o prato menor, e pronto”, afirma Nou. E, se há dez anos, a opção não era nem 1% das vendas da casa, hoje representa 25% dos pedidos.

Drinks e desperdício

A cofundadora e sócia da Crudo Julia Vidigal considera esse tipo de adaptação uma absoluta necessidade no mercado atual. O mais importante, afirma, é como fazer isso de forma a atender às demandas dos clientes, mas sem perder de vista a questão financeira nem acabar contradizendo o posicionamento da marca. “Vai ser um desafio, porque o segmento de alimentos e bebidas já opera com margens muito apertadas”, aponta.

Não dá para ignorar, por exemplo, o impacto das canetas no consumo de bebidas alcoólicas, item central nas contas de muitos restaurantes, e fundamental para os bares. O Palermo, bar de inspiração siciliana localizado no bairro de Pinheiros, em São Paulo, inaugurado em outubro de 2025 com destaque para os mocktails. Mas não se trata de “simplesmente oferecer soda italiana”, diz o especialista em hospitalidade e cafés especiais Caio Tucunduva, 49, sócio do estabelecimento. E sim fazer “coquetéis pensados e elaborados para não necessitar da base alcoólica, trazendo a satisfação de coquetelaria fina.”

Criado na era Mounjaro e Ozempic, o cardápio do Palermo já nasceu com opções de meia porção de pratos e até meia garrafa de vinho. Além de atender a quem tem comido e bebido menos, diz Tucunduva, a estratégia permite que os consumidores provem mais de um prato ou bebida. “No jantar, por volta de 40% dos clientes acabam pegando meia porção, muitos justamente com o objetivo de provar mais pratos.”

A lógica é semelhante à da oferta de porções menores para compartilhar — que, aliás, já era uma tendência forte entre bares e restaurantes. Esta sem relação nenhuma com o uso das canetas, considera Laura Andreotti, da Crudo. “A ideia aí é pedir vários pratos e ter uma experiência mais completa daquele restaurante.” Tanto neste exemplo quanto no das porções reduzidas, ela aponta a vantagem da redução no desperdício de alimentos. Por outro lado, afirma, há um desafio: o de aproveitar alguns insumos por completo.

Sem planejamento adequado, diminuir pratos e porções pode, em alguns casos, reduzir o desperdício no atendimento mas aumentá-lo na cozinha, diz Andreotti. Em versões menores, certos cortes de carne ou determinados legumes tendem a não ser usados em sua totalidade, o que também gera perda de dinheiro. Além disso, a parcela crescente de clientes que consomem pratos de menor valor pode ter impacto no faturamento ao longo do tempo. “Se a estratégia de um restaurante foi pensada para clientes que pedem vários pratos pequenos para compartilhar, o que acontece quando eles passam a pedir apenas um?”, questiona a sócia da Crudo.

Os donos de estabelecimentos consultados por Gama, porém, afirmam que, até o momento, não enfrentam nenhum tipo de perda financeira devido aos pratos menores. “É a mesma coisa”, resume Tucunduva, que, no Palermo, busca fazer esse equilíbrio cobrando preços de 30% a 40% menores por porções reduzidas. Em pratos com frutos do mar e outros insumos mais caros, ele aponta, essa diferença tende a ser um pouco menor.

Mesa vazia

Na visão de José Eduardo Camargo, da Abrasel, adaptar-se à nova realidade é algo semelhante ao que já ocorreu com outros nichos de consumidores, como os veganos: os fatores da equação tendem a se anular, diluindo o impacto em restaurantes bem preparados para a mudança. Então, se um cliente descobre que determinado restaurante atende bem às suas necessidades e restrições, ele pode até gastar menos em uma única visita, mas vai acabar voltando mais vezes. “Uma coisa tende a compensar a outra”, defende.

Os insumos também devem ser um ponto de atenção. Usuários de canetas costumam consumir mais proteínas como forma de preservar massa muscular em meio à rápida perda de peso, garantindo saciedade com menos comida. A médica endocrinologista Carolina Janovsky, professora da Unifesp e membro da SBEM, diz que substâncias presentes na caneta podem de fato reduzir o apelo de alimentos muito doces ou gordurosos. Mas, embora possa haver uma maior rejeição a carboidratos, a preferência por proteínas ou fibras não acontece de forma automática. “Isso geralmente ocorre por conta de um acompanhamento com médico ou nutricionista”. E o endocrinologista Fábio Moura complementa: “[As canetas] não dispensam ninguém de comer bem, dormir bem e fazer exercício. Ou seja, mudar para um estilo de vida melhor.”

Dentro disso, Camargo cita uma prática que vem ganhando adeptos em certos estabelecimentos, em especial no exterior: a indulgência saudável. “Significa combinar um elemento saudável com uma indulgência. Então, mesclar uma carne gordurosa com um componente vegetal, como quinoa, ou uma sobremesa que combina ingredientes saudáveis com açúcar, aponta como exemplos. “É uma forma de a pessoa sentir que está comendo algo gostoso sem se descuidar, porque aquilo estaria sendo compensado por um ingrediente saudável.”

Mas restrições em excesso também podem assustar. Como a imagem de um jantar sem comida, apenas com copos d’água intocados frente aos convidados. É esse detalhe bizarro de uma cena da série “Ruptura” (2022-) que Laura Andreotti, da Crudo, evoca para descrever o momento atual.

Estamos assistindo a uma sociedade que está perdendo o prazer de comer, que está com medo de comer

Ela conecta as rápidas mudanças nos hábitos alimentares dos brasileiros, para além das canetas, a fenômenos como o retorno da magreza extrema e a busca excessiva por performance, que vêm demonizando alimentos ricos em carboidratos e supervalorizando somente as proteínas. “Agora você tem proteína em absolutamente tudo, alimentos majoritariamente compostos por carboidratos que a pessoa quer te convencer que são proteicos, proteína até na água.”

Apesar dos avanços que o movimento wellness e as canetas podem significar para a saúde, a representante da Crudo alerta também para o risco de perdermos de vista o lugar da comida nas nossas vidas. Especialmente na do brasileiro, para quem um prato farto sempre foi sinônimo de compartilhamento e encontros.

“A alimentação fora do lar tem um papel importante na socialização e no entretenimento”, reforça Andreotti. “Estamos assistindo a uma sociedade que está perdendo o prazer de comer, que está com medo de comer. E isso também vai ter consequências sociais, se as pessoas passarem a comer cada vez menos fora.”

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