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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

O peso da aparência e o julgamento do corpo alheio

Como a pressão estética consegue transformar a ideia de saúde em imagem e influenciar decisões íntimas apenas para agradar o outro

Ana Elisa Faria 24 de Agosto de 2025

O peso da aparência e o julgamento do corpo alheio

Ana Elisa Faria 24 de Agosto de 2025
Ilustração de Isabela Durão

Como a pressão estética consegue transformar a ideia de saúde em imagem e influenciar decisões íntimas apenas para agradar o outro

Slogan da luta pela autonomia corporal das mulheres, a frase “meu corpo, minhas regras” é um bordão feminista dos nossos tempos, mas colocá-lo em prática no dia a dia não é uma tarefa fácil. Entre espelhos, telas e conversas, seja com amigos, familiares e até desconhecidos, a aparência continua vigiada e comentada, como se o rosto, as pernas, a barriga, os braços e o bumbum de cada pessoa fosse assunto de domínio público. O resultado dessa vigilância toda é que, entre várias problemáticas, decisões íntimas passam a atender expectativas alheias.

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Muita gente se deixa levar pelo receio do julgamento, iniciando dietas e rotinas que não deseja, abandonando tratamentos que poderiam ajudar. Vale mais parecer disciplinado do que estar bem consigo mesmo, e a balança vira árbitra de valor.

pessoas gordas que se sentem impelidas a buscar medicamentos para emagrecer porque a própria existência incomoda o outro. São empurradas por olhares, “brincadeiras” e palpites que convocam a mudar o corpo para caber em padrões irreais de beleza. Ao mesmo tempo, há quem tenha vontade e indicação de perda de peso — com canetas emagrecedoras ou cirurgia bariátrica —, mas adie a decisão por receio de ser visto como fraco, preguiçoso, adepto de “atalhos fáceis e rápidos” e alvo de piadas.

Entre a pressão para transformar o corpo e o medo de tratá-lo, se necessário, instala-se um paradoxo cruel. A gordofobia segue punindo quem está fora do padrão e, mesmo quem alcança um tipo magro, descobre que a vigilância não se dissipa: ainda há sempre algo a ajustar, controlar ou corrigir.

Ideal de magreza não tem relação com saúde

A psiquiatra Ana Clara Floresi, especialista em transtornos alimentares e supervisora colaboradora do Ambulim, divisão do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-HC-FMUSP), observa que o ideal de magreza que rege a sociedade “não tem relação com saúde” e produz uma angústia intensa a partir de falas travestidas de cuidado, “elogios” que alimentam comparações e metas corporais que nada dizem sobre qualidade de vida.

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“A obesidade é uma realidade que gera preocupação e que precisa ser tratada, mas o que se vende é algo diferente. Uma parcela ínfima da população tem uma magreza constitucional. Por isso, esses modelos inatingíveis trazem tanto sofrimento para a grande maioria das pessoas”, conta.

É do que fala a reportagem da Gama de janeiro de 2025, intitulada “Não fale (bem ou mal) sobre o corpo alheio”, que mostra como comentários sobre aparência, mesmo os aparentemente positivos, podem fomentar inseguranças e comportamentos adoecidos. Essa prática, como resumem especialistas, reforça a ideia de que o valor de uma pessoa está em sua forma física. E quando se trata do peso, a violência simbólica ganha contornos ainda mais fortes: a obesidade é frequentemente tratada como resultado de preguiça ou desleixo, quando, na verdade, é uma condição médica complexa.

“Você pode colocar isso dentro do campo da gordofobia ou da ignorância, do olhar do outro que não sofre com essa problemática, de entender que a questão não é simples”, afirma o psicólogo e psicanalista Pedro Belarmino, mestre pelo Instituto de Psicologia da USP com a tese “Psicanálise no tratamento multidisciplinar e cirúrgico de obesidade severa”.

Belarmino explica que a obesidade é caracterizada pelo acúmulo de gordura no organismo, acúmulo excessivo esse que pode adoecer, “mas acabamos convencionando chamar a obesidade de doença”. Mas será que é mesmo?, pergunta. A fala do psicólogo deixa explícita a complexidade do tema: “Até o próprio conceito de saúde, por vezes, tem implícito a ideia da gordofobia, dependendo de como a gente usa, porque ser obeso não é ser doente. No entanto, a pessoa que sofre de obesidade severa, inevitavelmente, já sofre com problemas de saúde — como hipertensão, diabetes.”

Mais apoio, menos julgamento

O endocrinologista Fábio Moura, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), reforça a distinção entre saúde e estética do ponto de vista clínico. “Obesidade é doença, ponto. É uma doença crônica, que precisa de tratamento complexo e multidisciplinar. E o paciente necessita de apoio, não de julgamento.”

Infelizmente, o estigma contra quem tem obesidade talvez seja o mais tolerado hoje

A incompreensão de quem está ao redor do obeso pode, ainda, afastar pacientes do tratamento indicado. “Persiste essa visão arcaica de que obesidade é preguiça”, alerta. Além do custo e do acesso, pesa a ideia de que tomar remédio é fraqueza, ao passo que o que a literatura mostra, de acordo com Moura, é que o uso dessas drogas potencializa o emagrecimento quando há indicação e acompanhamento, num pacote que envolve alimentação, sono de qualidade, atividade física e terapia.

“Infelizmente, o estigma contra quem tem obesidade talvez seja o mais tolerado hoje. Comentários que não são mais aceitos contra homossexuais, por exemplo, ainda são socialmente permitidos contra essas pessoas”, diz o médico.

Ele lembra que as substâncias químicas de GLP-1 — classe de fármacos usados principalmente para tratar a diabetes tipo 2 e a obesidade, como Ozempic, Mounjaro e Wegovy — “não foram desenvolvidos para tratamento estético, para perder a barriguinha”. Conforme Moura, são drogas potentes, eficazes e seguras, de modo geral, quando usadas sob supervisão profissional.

Segundo a psiquiatra Ana Clara Floresi, quem precisa de ajuda encontra portas entreabertas: “O olhar para quem tem obesidade é sempre repleto de opiniões. Se não busca tratamento, deveria comer menos e se exercitar mais; se procura ajuda, está indo pela via mais fácil.”

O olhar para quem tem obesidade é sempre repleto de opiniões. Se não busca tratamento, deveria comer menos e se exercitar mais; se procura ajuda, está indo pela via mais fácil

Em outras palavras, “é sempre aquele olhar de que nada do que é feito é suficiente”. Sob a lente moral, decisões clínicas viram motivo de deboche; sob a lógica das redes, cada quilo perdido vira prestação de contas pública. “Tudo isso tem a ver com a nossa cultura gordofóbica. O estigma do peso está embrenhado na nossa sociedade”, conclui.

Gordofobia por toda parte — até no body positive

A experiência pública da bailarina e influenciadora digital Thais Carla, nome central do body positive no Brasil, é a prova das sinuosidades desse caminho. Após perder 52 quilos com dieta, exercícios, bariátrica, medicação e acompanhamento psicológico que deu a ela uma nova relação com a comida, a influencer fez questão de registrar: “Precisei me reconectar com o meu corpo e entender que a cirurgia era só o começo. A bariátrica foi uma ferramenta para melhorar minha saúde”, disse, em entrevista ao gshow.

Ao mesmo tempo, ela tem de explicar diariamente aos seguidores que a transformação física não trocou sua bandeira de vida: “A luta contra a gordofobia continua. É sobre liberdade, respeito e o direito de existir com dignidade, seja qual for o seu peso”. Quando começou a utilizar o Mounjaro, no pós-cirúrgico, passou a enfrentar ainda mais julgamentos.

“Não é para ser magra, e sim para cuidar mais de mim. Quero saúde, longevidade, quero ver minhas filhas crescerem”, comentou a respeito do tema recentemente no Instagram. O movimento body positive, frisa ela, prega sobre aceitação e liberdade para cuidar de si. “Eu era saudável antes, sim, mas eu quero me manter saudável, ter longevidade, ver as meninas crescerem, amar cada vez mais o meu corpo. Isso não quer dizer que eu não possa cuidar dele.”

Não é para ser magra, e sim para cuidar mais de mim. Quero saúde, longevidade, quero ver minhas filhas crescerem

O que mostra a vivência de Carla, e a de inúmeras pessoas que sofrem com a gordofobia — sobretudo as mulheres, que são os indivíduos que mais experimentam o escrutínio corporal público —, ou com qualquer pitaco sobre a aparência, é que parte da mudança cultural em relação ao tema passa por frear o impulso de comentar corpos.

A psicóloga e psicanalista Patrícia Gipsztejn Jacobsohn, coordenadora da Clínica de Estudos e Pesquisas em Psicanálise da Anorexia e Bulimia (Ceppan), sintetizou, em reportagem da Gama sobre o assunto, comentando que vivemos em uma fantasia do controle: do corpo, da fome, da forma corporal, do envelhecer. “Mas tudo isso escapa do nosso controle. E, da mesma forma que temos essa relação com o nosso corpo, temos com o corpo alheio. Como se o corpo alheio fosse, de fato, algo que nós pudéssemos nos apropriar. No entanto, o corpo do outro é puramente o corpo do outro. Ele não nos diz respeito.”

Coautora do livro infantil “Muitas Belezas” (Colli Books, 2025), escrito em parceria com a jornalista Daiana Garbin, a psiquiatra Ana Clara Floresi sugere um manual mínimo de convivência. “Tente não opinar sobre a imagem do outro e valorizar quem a pessoa é.” No núcleo familiar, isso é decisivo para crianças e adolescentes, que aprendem cedo a associar respeito à forma do corpo. No trabalho, significa rever critérios velados que confundem competência com estética. Nas redes, implica em resistir à facilidade do julgamento performático.

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