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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Lubrificante social: O álcool está perdendo lugar na socialização dos jovens?

Pesquisas que apontam uma queda no consumo alcoólico entre jovens adultos colocam em xeque o papel da droga como facilitadora de interações

Leonardo Neiva 08 de Fevereiro de 2026

Lubrificante social: O álcool está perdendo lugar na socialização dos jovens?

Leonardo Neiva 08 de Fevereiro de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Pesquisas que apontam uma queda no consumo alcoólico entre jovens adultos colocam em xeque o papel da droga como facilitadora de interações

Em 2023, Rafael Costa decidiu parar de beber. Aos 32 anos, o produtor de eventos de Sorocaba, acostumado a ingerir álcool todo final de semana — e também de forma esporádica em dias úteis —, percebeu que a cervejinha tinha virado hábito e já estava afetando sua saúde física, mental, social e financeira. “Eu sentia que o álcool bagunçava coisas simples na rotina, mente e trabalho. Sem ele, minha ansiedade diminuiu muito e consegui melhorar meu aspecto físico junto com exercícios, automaticamente tendo uma qualidade de vida melhor.”

Não é só Rafael, mas o brasileiro em geral que anda bebendo menos. E quem puxa essa queda é a população de jovens adultos, entre 18 e 34 anos, aponta uma pesquisa do Instituto Ipsos e do Ipec (Instituto de Pesquisa e Inteligência de Mercado).

Se o número de brasileiros que declararam não beber passou de 55% em 2023 para 64% em 2025, o salto foi ainda maior na faixa dos 18 aos 24 anos (de 46% para 64%) e dos 25 aos 34 (de 47% para 61%). O estudo, encomendado pelo CISA – Centro de Informações sobre Saúde e Álcool, mostra ainda uma redução acentuada no consumo abusivo dentro dessa faixa etária, que caiu de 20% para 13% dos 18 aos 24.

Entre os motivos por trás dessa mudança, levantamentos brasileiros e no exterior apontam que o maior é a preocupação dos jovens adultos com a saúde, afirma a doutora em sociologia e coordenadora do CISA, Mariana Thibes. “Os jovens estão mais atentos aos efeitos que o álcool tem no organismo e, por conta disso, conscientemente evitando ou reduzindo o uso de bebidas alcoólicas.” Outra questão importante é que pesquisas também mostram que parte da população tem saído menos e se encontrado mais raramente com outras pessoas desde o isolamento da pandemia, fator crucial para uma droga social como o álcool.

A tendência, que vem acontecendo de maneira global, também pode ser evidência de uma transformação mais profunda na forma como as pessoas enxergam e se relacionam com a droga. “O lugar que o álcool ocupa na sociabilidade desses jovens já não é mais o mesmo que ocupava na vida dos jovens de outras gerações”, considera Thibes. Segundo ela, tem diminuído a impressão de que ele é um fator necessário para interações sociais. Na verdade, é quase o oposto. A substância é cada vez mais vista como problema em potencial.

Esses mais de dois anos em que parou de beber causaram uma mudança drástica no círculo social de Rafael. “Achamos que temos vários amigos de final de semana, quando na verdade são amigos em que o álcool faz a ponte”, conta o produtor. Ao notar que sua escolha gerava incômodo em algumas pessoas, acabou se afastando delas — e se aproximando de outras, para quem beber não era algo essencial. “As pessoas ao redor não querem que você pare para não se sentirem sozinhas naquilo. Eu e muitas pessoas que conheço começaram a beber com 12, 13 anos de idade apenas para pertencer e ser aceitas no grupo de amigos.”

A ressaca nunca foi objeto de desejo de nenhuma geração, mas costumava ser aceita como fator necessário para a perda de controle da embriaguez — esta sim naturalizada e ligada a sensações majoritariamente positivas até pouco tempo atrás. Mas a representante do CISA enfatiza que, embora ainda seja uma visão compartilhada por muitos jovens adultos, cada vez mais pessoas nessa faixa têm focado em seus efeitos negativos. “Eles associam estar embriagado a estar vulnerável, a perder o controle sobre si e sobre as situações”, explica a socióloga. Muitos já não associam o álcool necessariamente à diversão e consideram que conseguem se soltar sem precisar beber.

“Quando está bêbado, você se torna uma versão sua sem filtro nenhum, fazendo coisas que são engraçadas para quem vê, mas que te constrangem quando você volta a si”, avalia Rafael. Assim, o álcool passa a significar uma faca de dois gumes no campo social: ele nos permite interagir de forma mais livre, mas também abre portas para eventuais vexames.

Numa pesquisa do CISA de 2023, o medo de situações que podem manchar a reputação do embriagado, como falar algo indevido, ligar para um ex ou não comparecer ao trabalho no dia seguinte, apareceram inclusive acima da preocupação com a saúde. “Para as mulheres, também, aumenta um quadro de vulnerabilidade à violência”, acrescenta Thibes.

O resultado é que o álcool, na visão da especialista, vem deixando de ser visto como algo “cool”, um ato de rebeldia e transgressão das normas. “Muitos ainda bebem, mas tomam bem mais cuidado, então existe um controle maior do consumo.”

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A mesa de bar tá diferente?

A humanidade consome álcool pelo menos há dez mil anos, com indícios de fabricação de bebidas antes mesmo da agricultura. Ao longo desse tempo, a droga foi se consolidando como “lubrificante social” por rebaixar nossas barreiras de inibição, gerando um aumento das sensações de prazer e euforia que vêm a calhar seja numa mesa de bar, numa festa ou num date, em que o nervosismo está sempre à espreita. Nesse caso, seriam os indícios de redução no consumo alcoólico indicativos de uma mudança que impacta até as formas como o ser humano socializa?

Thibes afirma não ter meios de responder essa pergunta hoje, ainda mais pelo longo histórico do álcool como facilitador de interações humanas. “Temos registros, na cultura grega clássica, de recomendações de moderação, como diluir o vinho na água, porque eles queriam ter a sensação bacana da substância sem os danos, sem perder o controle”, evoca a socióloga. Ela não enxerga hoje nenhuma substância capaz de ocupar o mesmo lugar do álcool na sociedade.

Além disso, a especialista hesita em afirmar que essa mudança no consumo alcoólico esteja ocorrendo por conta de um aumento no uso de outras drogas. O mais recente Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad) também não traz nenhum forte indício nesse sentido. Com exceção do uso de vape, não houve crescimento significativo no consumo de outras drogas como resposta à redução nos números do álcool. “Daí a dizer que o aumento do uso de vape está diretamente associado à queda do consumo de álcool… não tem como fazer essa relação, até porque as duas coisas podem coexistir. Não necessariamente a pessoa que fuma vape vai deixar de beber”, considera Thibes.

O médico Uno Vulpo, especializado em redução de danos, por outro lado, tem notado sim uma tendência clara entre jovens adultos de substituir o álcool pela maconha como droga social. “Muita gente tem preferido fumar um beck, uma flor, em vez de usar bebida alcoólica para se manter no rolê”, afirma. Criador do projeto Senta, que trata sem tabus de temas como drogas e sexo, ele aponta que o foco em drinks não-alcoólicos e até o aparecimento de bebidas que prometem efeitos de embriaguez sem álcool usando ervas e compostos naturais, conhecidas como adaptogênicas, mostram que a pressão para beber socialmente segue forte.

O que mudou é que hoje, em algumas rodas de amigos, essa pressão também pode estar invertida, com o constrangimento caindo no colo justamente de quem ainda bota álcool para dentro do corpo. “Entre os mais ricos ou num público jovem focado em performance, você vai ser julgado se beber demais, porque a moda nesses núcleos é realmente não beber em excesso”, diz Vulpo.

Os fatores sociais e econômicos levantados nessa fala são centrais para a análise relacionada ao álcool. Afinal, segundo a pesquisa do CISA, o aumento da abstinência acontece principalmente entre indivíduos das classes A e B, com ensino superior completo e moradores da região Sudeste. Enquanto os preços de muitas cervejas sem álcool são equivalentes a seus pares alcoólicos — com algumas mantendo valor até um pouco acima —, drinks não-alcoólicos costumam ter custo mais baixo que coquetéis tradicionais.

Em relação às formas de socializar, a mesa do bar não chegou a perder seu lugar de destaque, mas hoje conta com uma diversidade maior de consumidores. A partir do debate a respeito da sobriedade, do surgimento de movimentos como o sober curious e o soberish, entre vários outros que questionam o consumo regular de álcool, e do investimento das empresas em um leque de opções não alcoólicas, é muito mais comum do que no passado topar com um ou outro colega que não bebe.

O consumo em perspectiva

Também é importante questionar o tamanho da mudança em curso. A psiquiatra Ana Cecília Marques, especialista em questões relacionadas às drogas e em conscientização sobre o consumo de álcool, vê uma pequena redução nos índices de experimentação de bebidas alcoólicas na juventude, de acordo com dados do último Lenad. No entanto, aponta que, entre os usuários, os níveis de intoxicação e dependência aumentaram.

O país, aliás, vive um paradoxo: segundo o levantamento, os 57,5% de brasileiros que não bebem posicionam o Brasil entre as nações com mais abstinência do mundo. Por outro lado, “entre aqueles que bebem, o consumo pesado é a norma“, descreve o documento. “Lógico que experimentar é o primeiro degrau. Então, ainda é preocupante, mas um pouquinho menos. Só que a gente tem que acompanhar esse padrão: o quanto a pessoa bebe, a situação e com qual frequência”, diz Marques.

Outro ponto que corrobora esse aspecto é o aumento da falsa percepção de consumo alcoólico, apontado na pesquisa do CISA. Cresceu de 75% para 82% o número de brasileiros que acreditam beber de forma moderada, mas na verdade têm um consumo excessivo da substância. E, mesmo com a diminuição entre os jovens adultos, mais da metade da população brasileira experimentou álcool antes dos 18 anos.

A psiquiatra, assim como Vulpo, também tem percebido que cada vez mais gente experimenta outras drogas, principalmente a maconha, antes do álcool — o que pode explicar em parte essa redução. “Ele não está bebendo menos porque aprendeu que faz mal, mas porque tem um cardápio com mais opções inclusive para socializar”, afirma Marques, que faz críticas à falta de uma política de proteção contra as drogas mais contundente no país.

Ela também considera que o ambiente familiar nem sempre tem conseguido cumprir o papel de conscientizar os jovens em relação ao consumo de álcool. Pelo contrário, certos encontros e práticas familiares podem acabar reforçando desde muito cedo neles essa conexão naturalizada entre o consumo da droga e a socialização.

Vida social e a crise da noite

Os indícios de redução do consumo alcoólico surgem num momento em que baladas e casas noturnas vivem uma crise histórica nas grandes cidades brasileiras, com uma série de endereços tradicionais fechando portas. O movimento, que vem acontecendo no mundo todo após o longo período de isolamento pandêmico, parece sugerir outra mudança nos hábitos de socialização da juventude.

“Vejo sim essa mudança de preferência. Muita gente prefere programas diurnos, ir a uma cafeteria ou correr no parque”, conta Thibes. Com isso, festas diurnas e matinês têm ganhado força, assim como o aparecimento de novas modalidades de diversão sob a luz do sol — supostamente mais saudáveis, sem interferir com o sono e bem menos regadas a bebidas. Novas tendências de socialização ligadas à prática de exercícios, como os populares grupos de corrida, são outra alternativa cada vez mais procurada.

As coffee parties ascenderam em 2024 como uma dessas opções, de início na Europa e na Costa Oeste dos EUA. Praticamente autoexplicativas, essas festas se traduzem em baladas diurnas que substituem os ambientes escuros pelo interior ensolarado das cafeterias e centradas no “vício” bem mais aceito em cafeína, ignorando os drinques alcoólicos ou transformando-os em só mais uma opção no menu. Hoje, várias dessas festas já acontecem pelas grandes cidades brasileiras, com foco em públicos que vão desde os aficionados por arte até os praticantes de exercícios físicos.

Vulpo enxerga uma mudança no status quo, que antes declarava a vida noturna como um espaço ideal para subverter limites e expectativas, mas agora prega um discurso de alta performance em todas as áreas da vida. “Hoje vemos nas redes trends como a das clean girls, dos devocionais… também a galera que busca performance a todo custo, jovens coaches falando sobre ganhos financeiros, economia, vida saudável e atividade física”, relata. Com isso, afirma, muito mais jovens preferem trocar uma noite desregrada por um dia produtivo.

Apesar de toda a carga positiva que a redução no consumo de álcool entre os jovens adultos traz consigo, a socióloga Mariana Thibes aponta que, caso haja nessa conta um encolhimento no lazer e nos encontros sociais, por razões que vão da pandemia às redes sociais, esse passa a ser outro motivo de preocupação.

Recentemente, o Relatório Mundial da Fecilidade confirmou essa impressão, apontando que, no Brasil, a qualidade das interações pessoais caiu de forma constante nos últimos anos. “Os jovens percebem que os vínculos não são mais como antes. E eu acho que isso tem a ver com o aumento do tempo que eles passam nas telas, porque aí ficam mais em casa e vão menos para o bar, para a rua e os espaços públicos noturnos”, afirma Thibes

Mas não foi o que aconteceu com Rafael Costa. “Costumo sair na mesma frequência aos finais de semana, porém com uma qualidade melhor, sabendo que vou acordar bem ou voltar em segurança”, revela o produtor de eventos, para quem a bebida tem menos a ver com romper a timidez, e mais com um fator de inclusão, de confraternizar com uma bebida na mão. “A forma de socializar continua a mesma. A cerveja e outras bebidas sem álcool fazem com que essa fatia que parou [de beber] continue consumindo as marcas e estando nos lugares. As pessoas podem ver que existe vida social com bebidas não-alcoólicas.”

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