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CV: Ester Carro

Nascida e criada no Jardim Colombo, no complexo de Paraisópolis, Ester Carro cofundou organização que realiza reformas em moradias nas favelas de São Paulo

Fredy Alexandrakis 03 de Setembro de 2026

Ester Carro, 31, é arquiteta e presidente do Instituto Fazendinhando, uma ONG sem fins lucrativos que, desde 2017, já realizou mais de 600 reformas gratuitas de moradias e espaços comunitários em favelas do estado de São Paulo. Talvez você tenha visto a reforma da casa de Maria Helena dos Santos, que viralizou no Instagram com uma reportagem do jornal inglês BBC. É difícil não se comover vendo a reação de dona Helena à transformação da sua moradia. Carro conta que a visibilidade que recebe por meio da cobertura jornalística e das redes sociais tem sido importante para conferir credibilidade a um projeto que nunca pôde contar com o apoio contínuo de uma grande marca ou padrinho. “É uma iniciativa que realmente emerge de baixo para cima”, afirma.

As atividades da ONG se concentram no Jardim Colombo, no complexo de Paraisópolis, onde Carro nasceu e cresceu em uma moradia “precária e insalubre”. Quando passou na faculdade de arquitetura e urbanismo, viu ali a oportunidade de mudar a vida de sua família e de outras pessoas na sua comunidade. “​​Poderia muito bem ter fechado os meus olhos e seguido outro rumo”, diz Carro, hoje doutoranda na Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Mas, tendo crescido com esses questionamentos e valores comunitários, sempre pensei, desde criança, que queria devolver para o meu território.” O primeiro projeto do instituto foi a criação do parque Fazendinha em um terreno onde antes havia um lixão.

Carro não se enxerga como salvadora da sua favela; todos os seus projetos são realizados em parceria com as comunidades e nascem de um processo de escuta que ela julga indispensável. Sua missão é unir o conhecimento técnico ao saber local. Além das reformas, o instituto também oferece atividades de capacitação em construção civil para os moradores — em especial para as mulheres, por meio do projeto Fazendeiras. A dificuldade que Carro enfrenta para provar sua capacidade como arquiteta, sendo mulher, negra e periférica, mostrou-lhe a importância de “abordar a equidade de gênero nos projetos”.

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Em 2023, Carro apareceu na lista da revista Forbes de 30 profissionais de destaque na área de design com menos de 30 anos de idade. Ela foi convidada a participar de eventos da Brazil Conference na universidades de Harvard e do MIT, nos EUA, e palestrou na mais importante conferência de urbanismo do mundo, o World Urban Forum, hospedado no Egito em 2024. “O Fazendinhando me levou a lugares aos quais eu nunca imaginei que chegaria”, diz a arquiteta. No ano que vem, o instituto completa dez anos, marca alcançada na base de muita luta. “Falta uma estrutura da qual a gente consiga receber um apoio contínuo. Nós temos custos fixos, gastos administrativos, uma equipe. Como manter?”

A casa de Dona Heleninha foi uma das contempladas pelo projeto
A casa de Dona Heleninha foi uma das contempladas pelo projeto
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Em entrevista à revista Gama, Carro compartilha as experiências que inspiraram sua atuação profissional, comenta os desafios de realizar reformas em moradias sem infraestrutura básica e defende a importância do diálogo entre arquiteto e comunidade.

Já vimos casas com as paredes completamente pretas, que parecem ter sido incendiadas, mas não, era a quantidade de mofo

  • G |O que te trouxe até aqui?

    Ester Carro |

    Inicialmente, foi uma dor que vivi ao longo da infância e início da adolescência: crescer numa moradia precária e insalubre. Apesar de ter uma boa estrutura, porque meu pai e avô eram pedreiros, era uma casa inacabada. À noite, eu tinha medo de dormir, porque passavam ratos e baratas. Eu via uma desigualdade muito grande. De um lado, a pobreza e a ausência de infraestrutura urbana básica; do outro, a região do Morumbi, uma das áreas mais nobres da cidade de São Paulo. Sempre me questionei muito: “Por que tem que ser assim? Por que não posso ter uma moradia digna? Por que não posso ter acesso à educação básica no lugar onde nasci e cresci?” Até hoje, não existe uma escola dentro da minha comunidade. Eu não tinha acesso a áreas de lazer, espaços verdes, espaços públicos. Apesar de todas essas dificuldades, também cresci aprendendo a viver em comunidade, sabendo a importância do coletivo e o impacto de uma rede de apoio dentro desses territórios. Ingressei na faculdade de arquitetura e urbanismo, que é uma área um tanto elitista, e poderia muito bem ter fechado os meus olhos e seguido outro rumo. Mas, tendo crescido com esses questionamentos e valores comunitários, sempre pensei, desde criança, que queria devolver para o meu território, independentemente da profissão que fosse exercer. Fui aprendendo que, por meio da arquitetura, poderia ter uma casa digna, ver meus familiares vivendo bem e fazer essa transformação na minha comunidade. No meu último ano da faculdade, cofundei o Instituto Fazendinhando para atuar dentro das favelas, especialmente na favela do Jardim Colombo, que é onde nasci e cresci.

  • G |Qual a sua missão na sua profissão?

    EC |

    Construir pontes e democratizar o acesso à arquitetura. Juntar o conhecimento técnico com o saber local. É extremamente importante valorizar e reconhecer o saber local. Nós chegamos ao território, apoiamos, passamos informações, mas essa transformação só vai ser efetiva e duradoura se a gente escutar as pessoas que moram ali. Tudo o que foi desenvolvido até hoje nas favelas aconteceu por meio de um conhecimento vasto que elas possuem. Observamos vários desafios arquitetônicos dentro desses territórios, e há soluções trazidas pelos próprios moradores que também são importantes.

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  • G |Quais os principais desafios da sua área e como lidar com eles?

    Ester Carro |

    Eu comecei o Instituto Fazendinhando quando tinha 22 anos de idade. É muito difícil ganhar credibilidade nesses espaços, em especial como uma mulher periférica — na época, ainda uma menina. As maiores ONGs sempre têm algum padrinho ou marca grande por trás, e comigo não é assim. Sou eu com as pessoas da comunidade, com os voluntários. É uma iniciativa que realmente emerge de baixo para cima. Hoje temos a lei ATHIS, Lei de Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social. Criada em 2008, essa lei diz que famílias com renda de até três salários mínimos devem ter acesso gratuito a um profissional de arquitetura ou engenharia. Na prática, isso não acontece. Trabalhar com arquitetura social ainda é algo recente. A maioria dos editais geralmente está vinculada a questões como educação, meio ambiente e cultura. Falta uma estrutura da qual a gente consiga receber um apoio contínuo. Nós temos custos fixos, gastos administrativos, uma equipe. Como manter? Muitas ONGs surgiram na pandemia e pararam dois, três anos depois, porque o recurso acabou. O Fazendinhando vai completar 10 anos no ano que vem, e nós continuamos com muita luta. Nesse sentido, o apoio da mídia tem feito uma grande diferença na divulgação do nosso trabalho, gerando credibilidade. Quando uma empresa, escola, universidade ou banco vê essa divulgação, pensa: “Poxa, essa é uma instituição séria.”

Eu não podia mandar uma mensagem para meu pai ou minha mãe, que nem terminaram a quarta série do ensino fundamental, e pedir ajuda

  • G |Quais são os maiores desafios das reformas?

    EC |

    São muitos. É mais desafiador reformar uma moradia na favela do que um apartamento. No apartamento, a estrutura vem pronta, tem uma base sólida, toda a parte da rede hidráulica e elétrica. Na favela, os problemas são imensos. Já tivemos o desafio de reformar casas de onze, sete, quatro metros quadrados. Essas casas minúsculas nem banheiro têm, geralmente. A gente precisa fazer toda essa parte do zero, a rede sanitária, hidráulica, elétrica. Há muita gambiarra na parte elétrica. É muito comum entrar em uma casa e ver toda a fiação solta. Muitas vezes, existe um grande problema de insalubridade, com mofo e infiltrações. Já vimos casas com as paredes completamente pretas, que parecem ter sido incendiadas, mas não, era a quantidade de mofo. A maioria dessas moradias não foram impermeabilizadas. Muitas moradias têm problemas na estrutura e estão sob risco de ceder. A gente também se depara com um adensamento grande de pessoas dividindo um mesmo ambiente. Já tivemos casos em que cinco pessoas moravam num mesmo quarto, só com duas camas. Ainda temos que levar os vizinhos em consideração, porque as casas são coladas uma na outra. Precisa ter todo o cuidado necessário para que a reforma não afete a casa do vizinho.

  • G |Para atuar na sua área, o que um bom profissional precisa saber?

    EC |

    Eu aprendi que, antes de fazer o desenho, preciso gerar confiança no território. A gente precisa entender o que acontece ali e quem são as lideranças comunitárias, porque são elas que vão nos mostrar por onde começar. Existem regras internas dentro de cada favela, e o profissional precisa respeitá-las e entender como essas dinâmicas funcionam. Precisa entender quem são as ONGs que atuam dentro do território, as escolas, os postos de saúde. Precisa fazer parcerias, se conectar com essa estrutura institucional que já existe ali. Depois, você vai mapeando, entendendo quais são os desafios. Mas, inicialmente, o processo é muito mais de escuta, acolhimento, compreensão. Na arquitetura, a gente busca entender o que nossos clientes gostam, o que eles querem, suas dinâmicas, e esse processo de escuta precisa ser ainda mais atento nas favelas, para entender também a relação daquela família com seus vizinhos.

  • G |Como você enfrenta o racismo e o machismo na sua área?

    EC |

    Eu sei que hoje, por conta dos movimentos sociais, há uma abertura muito maior para a gente conquistar alguns espaços. A organização ser representada por uma mulher negra periférica é importante para a nossa visibilidade, mas isso ainda é uma forma de apoio muito pontual. Sempre chegam aqueles questionamentos: “Mas será que eles são capazes? Será que vale a pena investir?” Eu sempre tive que fazer quatro vezes mais para provar o meu conhecimento técnico e a seriedade da organização. É um dos motivos que me levou ao doutorado. Hoje, já não penso mais assim, mas achava que ter essa quantidade de diplomas seria uma forma de mostrar que não podem mais duvidar de mim. Para outras pessoas, um contato da família já abre várias portas. Comigo, nunca foi assim. Eu não podia mandar uma mensagem para meu pai ou minha mãe, que nem terminaram a quarta série do ensino fundamental, e pedir ajuda. Tudo veio com muita luta, criando conexões, dando a cara a tapa, começando a usar as redes sociais, alcançando novos públicos e novas parcerias. Mas é algo que me dói, e, por sentir essa dor, hoje sei que devo ajudar outras mulheres e abordar a equidade de gênero nos nossos projetos.

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