Laís Acsa

CV: Claudia Rezende

A fundadora da padaria Zestzing, duas vezes eleita a melhor de São Paulo, reflete sobre as lições de uma trajetória profissional cheia de recomeços

Fredy Alexandrakis 26 de Agosto de 2026

Poucos profissionais se reinventam tantas vezes — e com tanto sucesso — quanto Claudia Rezende. Formada em artes cênicas pela USP (Universidade de São Paulo), ela começou como bailarina, foi atriz por uma década e fez carreira na comunicação antes de fundar a padaria artesanal Zestzing, em São Paulo. Em entrevista a Gama, Rezende lembra que vendia pães feitos em casa, até que o cheiro de croissant passou a incomodar os vizinhos. Aos 68 anos de idade, sua padaria (hoje localizada nos Jardins) já foi duas vezes eleita a melhor da cidade pela revista Veja São Paulo.

Os recomeços foram motivados por um senso de curiosidade e uma vontade de aprender: “Não nasci para fazer a mesma coisa a vida inteira, acho que você tem que sentir prazer”, afirma. Rezende é filha da cineasta Suzana Amaral, que dirigiu “A Hora da Estrela” (1985), adaptação do romance homônimo de Clarice Lispector. A mãe teve influência sobre sua decisão de abandonar os palcos: “Depois de dez anos trabalhando com isso, minha mãe me disse: ‘Filha, você não é boa atriz.’ Acho que ela acabou me ajudando”, brinca Rezende.

Foto de Laís Acsa

Aberta em 2020, em meio à pandemia de covid-19, a padaria Zestzing reúne os aprendizados acumulados em diferentes áreas: a resiliência e o “pensamento lateral” vêm do teatro; o planejamento e o empreendedorismo vêm da comunicação; e a habilidade na panificação vem de muito estudo, em cursos feitos no Brasil, na França e nos EUA. “Tudo ali foi muito bem pensado — eu sei exatamente por que deu certo. Ainda bem, claro, mas eu imaginava que seria assim”, diz Rezende. Nesta entrevista, a padeira e empreendedora reflete sobre as lições de sua trajetória.

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  • G |O que te trouxe até aqui?

    Claudia Rezende |

    Sempre gostei de gastronomia, desde criança. Mas, quando chegou a hora de decidir uma carreira — hoje tenho 68 anos, então uns 50 anos atrás —, não existia essa possibilidade de estudar gastronomia. Cozinhar era uma coisa que você fazia em casa; tínhamos restaurantes, mas não tínhamos tanto essa figura do chef de cozinha. Naquela época, eu fazia balé, e foi natural seguir por esse caminho. Fiz parte do corpo de baile do espetáculo inaugural da sede do Teatro Popular do Sesi [Serviço Social da Indústria] na avenida Paulista, “O Poeta da Vila e seus Amores”. Aí, eu me apaixonei pelo teatro. Meu pai sempre disse que todo filho dele tinha que se formar em alguma coisa, e tinha que ser na USP [Universidade de São Paulo], porque ele não ia pagar faculdade para ninguém. [risos] Fiz o curso de artes cênicas da ECA [Escola de Comunicações e Artes da USP]. Depois de dez anos trabalhando com isso, minha mãe, a cineasta Suzana Amaral, me disse: “Filha, você não é boa atriz.” Acho que ela acabou me ajudando, porque percebi que aquilo não era para mim.

  • G |Por que decidiu migrar para a comunicação?

    CR |

    Na carreira de ator, você nunca sabe o que vai acontecer depois que acabar o espetáculo. O ator não tem controle sobre sua vida profissional. Pensando nisso, fiz uma pós-graduação em marketing e finanças na FGV [Fundação Getulio Vargas]. Comecei a trabalhar em empresas como nunca tinha feito antes, essa coisa corporativa, de fazer oito horas por dia. Trabalhei um tempo em produtoras de comercial. Atuei muito como assessora de imprensa nas empresas em que trabalhei — fiz assessoria inclusive para o filme da minha mãe, “A Hora da Estrela” (1985). Fui trabalhar na agência de publicidade Colucci e me dei muito bem nesse mercado. Depois de um tempo, montei minha própria agência, que atendia umas dez agências menores. Ainda passei pela Ipsos, multinacional francesa de pesquisa de mercado, e fui contratada diretora de comunicação pela agência W/McCann (então apenas McCann). Eu fiz inclusive a divulgação da fusão da McCann com a W/Brasil, fundada por Washington Olivetto. Não me dei muito bem com a nova diretoria, então continuei como freelancer. Também sentia que o mercado já tinha mudado muito desde o advento das redes sociais. Não queria ficar fazendo divulgação para redes. Aí falei: “Quer saber de uma coisa? Vou fazer o que eu sempre gostei, gastronomia”.

Foto de Laís Acsa
  • G |Como foi essa transição de carreira?

    Claudia Rezende |

    Fiz um curso de gastronomia de um ano no Senac [Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial] e, paralelamente, continuei atendendo clientes. Fui saindo devagarzinho da comunicação, fazendo um fade-out, sabe? Alguns clientes já se queixavam de que eu não os dava mais tanta atenção, e tampouco fui atrás de novos clientes. Foi no curso que descobri a panificação. Eu pensava que fazer pão era uma coisa só para pessoas iluminadas com um dom, achei aquilo meio mágico e quis estudar mais profundamente. Nesse mesmo ano, comecei a trabalhar como personal chef. Fazia eventos, jantares, almoços nas casas das pessoas. Cheguei a trabalhar em cozinhas, em bufês, mas não gostava do clima. Era um ambiente muito masculino, e a gente era muito maltratada. Quando comecei a fazer pão, gostei que a panificação era um processo que não produzia tanto lixo. Uma cozinha de restaurante, industrial, gera muito resíduo. Para fazer pão, você mistura a farinha com água, e aquilo vira pão, é uma coisa incrível. Também gostava da panificação artesanal, porque sempre fui muito do artesanato, já fiz tapeçaria e cerâmica. Na minha padaria, temos peças de cerâmica pintadas por mim na decoração.

Cheguei a trabalhar em cozinhas, em bufês, mas não gostava do clima. Era um ambiente muito masculino, e a gente era muito maltratada

  • G |Quando decidiu abrir sua própria padaria?

    CR |

    Eu vi que a panificação era a minha cara, mas achava que precisava estudar mais. Fiz um curso na França, depois fui para a Califórnia, onde estudei no San Francisco Baking Institute — lá é a meca do sourdough [massa de fermentação natural]. Segui estudando e comecei a fazer pão em casa. Vendia para família, amigos, depois para amigos de amigos, e por aí vai. Em 2019, apareci na capa da revista Veja São Paulo, em uma matéria sobre a “nova fornada de padeiros”. Depois disso, virou uma coisa ainda mais maluca. O síndico do meu prédio começou a se incomodar com a quantidade de motoboys na portaria, os vizinhos reclamavam do cheiro do croissant. Incrível, né? Chamei meu marido para abrirmos a padaria juntos; encontramos um lugar a um quarteirão de casa e alugamos. Uma semana depois, começou a pandemia de covid-19. Foi um caos, mas decidimos seguir adiante. A gente pensava que a pandemia ia durar dois meses — ninguém sabia, né? Em setembro, pude abrir as portas, porque a padaria era classificada como serviço essencial. Então, a gente funcionava assim: as pessoas faziam fila, entravam duas de cada vez, de máscara. Foi um sucesso. Nesse mesmo ano, fui indicada como melhor padaria de São Paulo na Veja. Nos próximos dois anos, ganhei o primeiro lugar. Já faz seis anos que estamos lá.

  • G |Como enxerga os recomeços na vida profissional?

    CR |

    Eu sou muito curiosa e sempre gostei de aprender coisas novas. Nunca fui uma pessoa que fica 20 anos numa mesma empresa. Chega uma hora que parece que não estou saindo do lugar, e eu falo: “ai meu Deus, cansei”. Não nasci para fazer a mesma coisa a vida inteira, acho que você tem que sentir prazer. Mas cada profissão me ensinou algo que levei para a próxima experiência. No teatro, desenvolvi pensamento lateral, aquela coisa de pensar fora da caixinha. O teatro ensina resiliência, a se virar com muito pouco. Na área de marketing, aprendi comunicação, empreendedorismo, planejamento. Quando eu era atriz, nunca imaginei que um dia entenderia de contabilidade, até que fiz o curso da FGV e adorei aquilo. A gente vai abrindo as partes da cabeça. Hoje, eu junto tudo isso na Zestzing. Tudo ali foi muito bem pensado e tem uma razão de ser. Não deu certo por acaso — eu sei exatamente por que deu certo. Ainda bem, claro, mas eu imaginava que seria assim.

Com a panificação, não adianta só falar em receita, porque a mesma receita que às vezes dá certo, outra vez não vai dar certo

  • G |Qual a importância de uma boa formação na sua área?

    CR |

    Nossa, é de total importância. Eu sinto que, no Brasil, as pessoas não dão muita importância para a teoria, para entender os processos. Com a panificação, não adianta só falar em receita, porque a mesma receita que às vezes dá certo, outra vez não vai dar certo. Você precisa entender por que essa receita não deu certo, para saber qual pauzinho mexer para consertar esse erro. Eu vejo muito padeiro amador, tanto que são poucos que fazem receitas mais complicadas, como o panetone, por exemplo. Quem faz, entende melhor os processos. Essa formação é fundamental.

  • G |Como é ser uma mulher na sua área?

    CR |

    Eu faço parte de um grupo de mulheres na panificação reunido pela Ramalhos, fabricante de fornos. Fiquei chocada com a quantidade de mulheres ali. Em São Paulo, sei quem elas são, mas o grupo também tem mulheres do interior. É incrível a quantidade de empreendedoras que estão ocupando esse espaço e fazendo um ótimo trabalho pelo Brasil inteiro. No começo, às vezes, eu sentia um pouco de preconceito dos fornecedores — vou até dizer, fornecedor de farinha. Eles pensam: “Você é mulher, o que vai entender?” Mas acho que isso está mudando. Eles estão percebendo que a gente vem crescendo com força e que não dá mais para brincar com isso.

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